Qualquer um que abra um jornal, uma revista ou assista ao noticiário na televisão e, é claro, tenha um mínimo de consciência, acaba se indignando com tudo o que acontece no Brasil de hoje. As nossas mazelas são mais do que centenárias. A corrupção, o populismo, a demagogia, os discursos inescrupulosos, a desonestidade intelectual, tudo isso campeia entre nós com a mesma naturalidade com que campeava há 200 anos. Ou talvez até ande mais livre e solta nos dias de hoje, É de se perguntar como é possível que, no limiar da segunda década do século XXI este país ainda possa abrigar práticas tão rasteiras. A resposta está bem a nossa frente, ao nosso lado, a nossa volta todo tempo. Basta prestar atenção.
Dia desses recebi em casa um funcionário ou contratado de uma dessas operadoras de televisão por assinatura. Chamei para fazer um ajuste no sistema de banda larga que assino. Em conversa com o profissional ele me contou que existe no mercado um certo aparelho que, conjugado a uma antena devidamente apontada para um certo satélite, permite que se obtenha acesso a cerca de 260 canais de televisão sem pagar absolutamente nada. Ele se referia aos mesmos canais que se acessa quando se assina uma dessas operadoras e se paga por isso. O profissional, que presta serviços a uma dessas empresas, também vende e instala o tal aparelho mágico. Ou seja, enquanto trabalha para uma empresa e é remunerado por ela, também atua contra ela. O cidadão ainda acrescentou que aquilo era perfeitamente legal pois o aparelho era vendido com nota fiscal. Tudo dentro da mais cristalina naturalidade.
Tomei nota do nome do aparelho e fui investigar, pois aquilo me pareceu extremamente suspeito. De fato, pelo que consegui apurar, o aparelho só consegue acessar os tantos canais privados porque é submetido a uma alteração qualquer. Ou seja, tem todo jeito de pirataria. Mas não foi isso, exatamente, que mais me chamou a atenção. Realmente ilustrativa foi uma troca de correspondência que encontrei na “internet” sobre o assunto. Alguém, cujo nome não importa, inseriu um comentário sobre a natureza ilícita do procedimento e terminou suas ponderações dizendo quem, como assinante e pagante de um desses serviços de televisão por assinatura, esperava que aquela prática fosse desmascarada o mais breve possível. As reações ao seu comentário são absolutamente sintomáticas e esclarecedoras: (1)“olá, eu simplimente discordo de vc pois eu naum vou buscar o sinal la na origem ela bate em minha antena e circula minha casa ai eu olho rsrss seu bobo duvido q com o conhecimento q vc tem vc ia pagar uma tv a cabo sem dizer q vc nem sabe o nome de uma hahahahaha”. Ou, então: (2)“Mas o que não entendi mesmo foi o motivo de você desejar que o “problema” seja resolvido com urgência, “rápido” como você mesmo disse. Me responde só: EM QUE ISSO ESTÁ ATRAPALHANDO SUA VIDA? Você fica sem dormir sabendo que pessoas estão captando o mesmo sinal que você paga uma fortuna para adquirir e o pior, de graça?! Se fosse um procedimento que prejudicasse o seu sinal eu concordaria em gênero, número e grau com você, mas não é! Você morreria e nunca saberia que isso acontece se não fosse divulgado. Então companheiro, deixa de ser idiota e vai assistir teu cartoon network pago enquanto a galera vê a mesma merda de graça. E deixa a preocupação de bloquear o sinal pra sua operadora, que isso é de interesse dela, não seu, BABACA.” Ou, ainda: (3)“vem cá… vc é dono de uma operadora de tv a cabo?? ganha comissao?? trabalha pra uma??? se nao se encaixa em nenhuma dessas… vc deve ser milhionário…se nao for, nem vou dizer oq eh.. absurdo mesmo é pagar 100 pila na sky para ter poucos canais, e ainda assim, nao ter nem globo em algumas praças.. E, mais: (4)Em primeiro lugar quero dizer que é um absurdo as pessoas quererem ser donas dos sinais que vagam pelo espaço, pois como a fala, depois que abrimos a boca o som de nossa voz não mais nos pertencem e as pessoas que estão ao nosso redor ouvem mesmo se não quiserem e não podemos cobrar de ninguém por isso…Então, nesse caso específico é realmente um absurdo, pois as pessoas não estão subindo em um poste comprometendo a rede física das “operadoras” e “roubando” o sinal. As falsificações são condenáveis sim, principalmente quando colocam a vida das pessoas em risco, exemplo disso é o caso de medicamentos e auto peças. Mas, outra coisa é defender o “direito” de empresas cobrarem o que quiserem por seus produtos ou serviços em detrimento das necessidades da população em geral”
Será que é preciso dizer mais alguma coisa ou isso tudo é auto-explicativo? Será que o interessante debate acerca do tema é suficientemente robusto para que se compreenda porque impera o cinismo na vida pública e privada nacional? É preciso algum esclarecimento a respeito da permissividade com que se trata a condução do país? Ainda será preciso que alguém explique de que forma os corruptos ser perpetuam no comando dos destinos deste pobre planeta-Brasil? Alguém ainda tem dúvidas de que tudo o que acontece nesta terra é o retrato fiel da sociedade? Cabe alguma reclamação contra o triste cenário desta triste terra sem futuro? Então, é isso aí. Se liga, cabeção, que aqui ninguém é otário, só tem malandro!!!


Já ouvi gente dizendo coisas estapafúrdias, mas acho que ninguém supera o meu amigo Zé Hercílio: “Eu não me perdôo por não ter nascido gênio”. Essa ele lascou quando tinha seus vinte ou vinte e poucos anos. Não que o meu caro Z.H. fosse algum curto de cabeça, um desses tipos para quem você conta uma piada e precisa explicar depois. Ao contrário, sempre foi um sujeito mais ou menos igual à maioria. Mas exatamente isso é que sempre o matou de desespero. Sei lá porque razão o sujeito resolveu achar que tinha que ser superior à média, Q.I. acima dos 120 ou 130, coisas que distinguem os chamados super dotados. Aliás, apenas para esclarecer, já que essa história de Q.I. já está fora de moda há muito tempo, a siglazinha significava “Quociente de Inteligência”. Já faz um bom tempo que Q.I. quer dizer apenas “Quem Indicou”, coisa muito comum em alguns redutos públicos aqui da “terra brasilis”.
“O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. Deve haver alguma razão para que os personagens das cantigas infantis, em grande parte, não sejam os animais charmosos da natureza, mas, isto sim, aquela turminha de segunda. É o sapo, o rato, a barata, só bicho sem prestigio. Sem prestígio, mas com personalidade. Veja o caso do sapo. Apesar de morar na beira do lago, como continua esclarecendo a cantiga, e ainda acabar ouvindo exclamações pejorativas acerca do odor de seus simpáticos pezinhos (“mas, que chulé!”), ele simplesmente não lava o pé e pronto. Por que não quer. Isso é ou não é personalidade?
Decerto há de haver uma razão para que eu não consiga pensar no meu pai com tristeza. Ou, quem sabe, mais que uma razão, duas, três, várias. O que vale, no entanto, não é saber contar, é saber entender cada uma delas, sejam lá quantas forem. Vida fácil, isso ele não teve. Isso eu posso assegurar. Quanto mais buscou quase com febre um sucesso profissional e financeiro atrás do outro, mais conheceu tropeços, mais topou com as portas fechadas, mais experimentou o sabor de não chegar em primeiro, gosto amargo especialmente num país onde o vice é só o primeiro dos perdedores. Vagueando hoje no sentido anti-horário eu consigo voltar lá longe nos meus sete anos de idade, quando comecei a perceber seus esforços em busca de águas calmas e seus momentos de reflexão sobre as voltas da maré, movimento que mais conheceu enquanto navegou. As noites quentes na Rua Cardeal Arcoverde no. 105, a casa em completo silêncio e semi-escuridão, ele, cabelo começando a embranquecer, sem camisa, debruçado na janela que dava para a rua, bem em frente ao cemitério do Redentor, fumando mais do que devia e olhando além dos muros altos com um olhar que me assustava. E eu apenas o vigiava, acordado e escondido, estômago doendo de medo de que o desânimo tomasse conta dele e ele pudesse resolver que o melhor, mesmo, era atravessar a rua e se reunir àqueles vizinhos solenes e silenciosos. Qual o quê, receio de criança, de quem ainda não tinha convivência suficiente com aquele tipo meio caboclo, mistura de mineiro com espanhol nascido no interior da sua amada São Paulo e que, desde muito jovem, se tornou um verdadeiro paulistano. Eu sabia que alguma coisa andava errada e sofria com o medo disso. O que eu não sabia é que aquela alguma coisa errada era só mais uma das muitas que ele enfrentou sem nunca entregar os pontos, só mais um nocaute que ele sofreu sem nunca deixar que a contagem chegasse até 10, sempre conseguindo se levantar e continuar no ringue, recuperando energias, tomando iniciativas e nunca, nunca, sequer cogitando de jogar a toalha.
Quantas cidades existem nesta mesma São Paulo? Resposta difícil, não é? Sempre se pode argumentar que, graças à diversidade de raças e origens instaladas por aqui, a cidade acabou desenvolvendo diferentes pólos culturais e com isso, diferentes comunidades foram florescendo. Não é à toa que em São Paulo se encontram restaurantes de qualquer parte do próprio país e do planeta. Desde os mais tradicionais aos mais específicos e incomuns, um sujeito nesta metrópole pode se dar ao luxo de se sentir em qualquer lugar do mundo em matéria de comida. E, embora sem o mesmo tom acentuado que já houve no passado, também se encontram ainda em São Paulo, o aglomerado de italianos, o de chineses, japoneses, coreanos e assim por diante. Só que não é a nada disso que me refiro quando tento imaginar quantas cidades existem nesta mesma São Paulo. 
Circula atualmente uma campanha publicitária de uma grande rede de supermercados cujo mote é a pergunta: “O que é que faz você feliz?” Todo mundo ou quase todo mundo já viu e ouviu as mais diferentes e rimadas respostas. E o que, aparentemente, ´”faz você feliz” é uma porção de situações simples, cotidianas, cheias de ternura e docilidade, uma paz de causar inveja a muito monge tibetano ou monge ermitão. Um paizão brincando descontraído com seus pimpolhos, aquela mãe sempre sorridente e que parece nunca lascar uma boa chinelada nos filhotes, avós de bom humor inalterável que nunca mostram a menor irritação, maridos e esposas saltitantes nos corredores dos supermercados e por aí afora. Quem é que pode colocar em dúvida que essas cenas todas nos fazem felizes? O que merece uma reflexão um pouco mais profunda é se apenas situações dessa natureza têm o condão de nos fazer felizes ou se existe coisas menos confessáveis que também geram esse tipo de euforia?
O sujeito vai dirigindo seu automóvel por uma estrada. Estrada boa, visibilidade satisfatória, velocidade permitida em torno de 110 quilômetros por hora, automóvel novo, em excelentes condições, lá vai o individuo auferindo das maravilhosas conquistas da tecnologia, das prerrogativas da juventude e do conforto de não estar classificado abaixo da linha da miséria. Se alguém quiser, pode incluir, no banco de passageiros, uma loira curvilínea ou uma morena de cabelos esvoaçantes, agitando a cabeça ao som do ritmo dolente produzido por um poderoso “Ipod” conectado a um ultra moderno aparelho de som com falantes espalhados pelo interior da quase espaçonave deslizante. E, de repente, os primeiros sinais de que alguma coisa vai vir pela frente para nublar esse céu de brigadeiro. Os primeiros policiais rodoviários já batem a mão direita para baixo naquele sinal característico de que é preciso reduzir a velocidade. Os veículos em sentido contrário já diminuíram sensivelmente a velocidade e caminham como se andassem na espreita de alguma coisa ou fugindo silenciosamente dela, pé ante pé, pisando macio e com cuidado. E, então, o sujeito e sua estonteante acompanhante chegam ao local do acidente. Veículos destroçados, gente à volta, um mar de curiosos com caras assustadas. Um dos aglomerados principais indica que ali, sob os olhares desconcertados, incrédulos, impotentes, duas ou três vítimas fatais. Mais adiante, outras vítimas sendo transportadas para as ambulâncias que impregnam a paisagem com as luzes das sirenes que, em minutos, também começarão a gritar estridentemente seu grito de alerta pedindo passagem em busca de, talvez, alguns milagres.
Há muito, muito tempo, num fim de noite, todo mundo mais do que suficientemente etilizado, eu tive um entrevero com um sujeito que acabou terminando em empurrões e quase troca de tapas. Até hoje, quando me lembro disso, fico um pouco envergonhado. E o motivo dessa cretinice foi uma frase dita pelo então meu desafeto e que, seguramente por conta da dosagem alcoólica, chegou aos meus ouvidos como ofensa das mais graves. É que o sujeito, um dos muitos pseudo intelectuais que se multiplicavam naqueles tempos, moleque como eu e, assim como eu, metido a filósofo de botequim, declarou que naqueles dias até lista telefônica podia ser poesia. A prova incontestável do nosso sólido e inabalável conteúdo intelectual é que o porre nos levou aos tapas. Nada mais cerebral.