Publicado por: bellinilima | fevereiro 10, 2010

ONDE FOI QUE AZEDOU?

Em direito existem duas figuras muito polêmicas. Uma delas atende pelo nome de PRESCRIÇÃO e a outra pelo de USUCAPIÃO. A prescrição dos advogados e juizes nada tem a ver com a dos médicos. A deles é materializada naquele pedacinho de papel em que eles escrevem ou dizem que escrevem e depois a gente precisa voltar lá para saber o que está escrito. Também é conhecida por receita. A dos advogados e juizes, em palavras bem simples, é a perda do direito de reclamar algum direito porque passou o tempo que se considera suficiente para isso. Em palavras mais simples ainda, é o resultado da bobeada de alguém que, apesar de ter um direito qualquer, não se mexe para procurar o judiciário e reclamar. Passado um certo tempo, adeus viola.  Que me perdoem os coleguinhas pela simplicidade da explicação, mas, convenhamos, se deixar por conta de um deles, fica mais difícil de entender que a prescrição dos médicos. 

o usucapião, que muita gente costuma chamar de “uso campeão” é aquela história de alguém ficar com alguma coisa por muito tempo mesmo sem ser o dono e ninguém reclamar. Então, a criatura vai ficando com a coisa, trata dela como se fosse sua e ninguém reclama. Passa um tempo e o tal, também conhecido como possuidor, ganha o direito de virar dono de verdade. Acontece muito com terrenos, mas também pode acontecer com outras coisas. Assim, passado o tempo, que é estabelecido na lei, o tal possuidor se torna proprietário. Em se tratando de terreno ou casa ou qualquer imóvel, o distinto ou distinta vai até um cartório e, depois de cumpridas as chamadas formalidades legais, ganha uma escritura de propriedade. Melhora a sua condição, é claro, sobretudo em relação ao nome. Afinal, possuidor soa até um tanto indecente, coisa de tarado. Já proprietário é outro nível. Em alguns casos passa até a ser chamado de doutor.  

Apesar de serem coisas diferentes, as duas tem uma mesma origem ou um mesmo objetivo: encerrar um conflito, uma situação de instabilidade. É só pensar um pouquinho. Imagine que alguém tenha sido vítima de uma safadeza qualquer por parte de outro alguém. É claro que o autor da safadeza tem que ser punido e a vítima tem que ser indenizada. Mas, e se isso permanecer em aberto por duzentos anos? Já imaginou alguém receber uma ação judicial por conta de uma trampolinagem praticada por um tataravô, aquela figurinha de barbas a quem todo mundo reverencia na família? Chato, né. O ofendido que trate de se entender com o ofensor, mas lá atrás, no tempo deles, sem invadir o futuro dos outros.  E como fica a situação do bisavô que, um dia, chegou a algum lugar onde não havia ninguém, se instalou por ali com a bisavó, construíram a casinha, a roça e fizeram um monte de filhos que, por sua vez., fizeram a mesma coisa até chegar a tua vez de nascer? O bisavô não era o dono da terrinha, mas tratou dela como se fosse e nunca ninguém reclamou. Aí, quando chega a tua vez, aparece alguém e reclama?  Não funciona assim. E se o bisavô tiver sido só um pouco alerta, já terá ido ao cartório conseguir sua escritura e terá virado proprietário. Sorte sua, hein irmão? 

Onde está, afinal, a semelhança? Simples. Está no propósito de encerrar as instabilidades, os conflitos e restaurar a harmonia. Os conflitos podem até ter lá sua serventia para evitar que as pessoas se acomodem, mas é preciso ter um fim. Conflito que se alonga muito começa a deteriorar tudo à sua volta. Restaurar a harmonia é essencial, vital para que a sociedade não se mate. Apesar de poder não parecer, o homem não consegue sobreviver sem harmonia. Então, o direito estabelece um tempo para o ofendido reclamar contra o ofensor e depois, o assunto está encerrado. E também dá um prazo para que alguém diga que o tal posseiro não é dono. Depois disso, virou dono e ponto final.  Se não fosse assim, as discussões não terminariam nunca e ninguém nunca teria paz.  Bem, essa, ao menos é a intenção do direito. A falta de paz que existe hoje em dia já não é só culpa do direito. 

E essa falta de paz é um bicho teimoso, que insiste em se enfiar entre as pessoas com uma falta de cerimônia incrível. Quer coisa pior, mais sem sentido, sem pé nem cabeça, que altercação entre casais? Ou entre irmãos? Ou entre amigos? Com exceção de situações que puxem mais para a relação entre Caim e Abel, que aí tudo fica muito mais complicado, no mais das vezes as pessoas se altercam por nada ou quase nada.  Isso quando sabem por que altercaram. E, então, se estabelece o conflito, a cara feia, a mais fingida das indiferenças. Esbarram-se fazendo de conta que não se conhecem. E, depois de um tempinho, nem lembram mais porque estão com aquelas caras.  Enquanto isso, enquanto ficam interpretando seus papeis de turrões, lá fora está passando uma coisa chamada vida que não dá a menor importância para nada disso. Passa e vai embora. Quem não estiver por perto que se lamente depois. É o que vai restar. Igual ao que resta quando passa o tempo que a lei fornece para se resolver as pendências.

 Convenhamos, será que não anda faltando um pouco de prescrição e de usucapião nesse dia a dia de todo mundo?

Publicado por: bellinilima | janeiro 17, 2010

OS AUTO-VOTOS

Todo fim de ano a história se repete. Todo mundo desejando votos e mais votos de paz, felicidades, saúde, sucesso, prosperidade aos parentes, amigos, colegas de trabalho, entregador de pizza, porteiro do prédio e por aí afora. Tudo isso para os outros, sempre para os outros. Ora, mas o Natal é a festa da celebração do amor, seja ele o amor filial, fraternal, entre amigos, o amor pela humanidade. E amor pela humanidade contém uma alta dose de solidariedade. E a solidariedade é altruísta. Logo, o que há de espantoso em se desejar tudo isso ao outros? Bem, na verdade, rigorosamente nada de espantoso. E qualquer reparo a isso pode ser traduzido por elevado índice de rabugice, ranhetice, ranzinzice. Apesar disso, no entanto, a coisa se tornou repetitiva. E, sob um certo aspecto, parece que tem sido meio ineficiente já que todo ano é necessário repetir os mesmos votos. Ora, se tivesse funcionado no ano anterior, não seria o caso de se desejar alguma outra coisa? Ou mudar os desejos ou não desejar nada pelo simples fato de que já se tinha desejado tudo no ano anterior?  

Pois exatamente por conta dessa esquisitice de pensamento, eu resolvi que, neste final de ano, só iria desejar coisas para mim mesmo. Exatamente isso: desejar coisas a mim mesmo. Se isso é o oposto do altruísmo, uma espécie de anti-Natal, paciência. Resolvi experimentar assim mesmo. E olhe que eu adoro Natal, fim de ano, aquele clima amistoso que parece contagiar boa parte das pessoas. E mais as luzes fascinantes, a agitação quase entorpecente, o ânimo e a energia que cobre as cidades. Mas, apesar disso tudo, resolvi que neste ano vou, predominantemente, desejar coisas a mim mesmo. Para começar, desejo, então, a mim mesmo, votos de muito sucesso na obtenção de uma carga adicional de tolerância. Tolerância comigo mesmo. É que toda vez que eu me deparo com as minhas próprias incapacidades, fraquezas, a minha pequenez, vou ficando azedo, amargo, dominado por uma espécie de necessidade de me vingar, de compensar aquelas vilezas todas. E, então, acabo disparando um tremendo azedume contra mim mesmo que, na maioria das vezes, termina por respingar nos outros. Em outras palavras, acabo descontando nos outros as minhas contas penduradas e não pagas. Isso lá é justo? Claro que não. Seria preciso, então, encontrar uma fórmula de me convencer de que isso que eu sou é exatamente isso que eu sou. E talvez até nem seja tão ruim quanto parece. Quem sabe até seja exatamente igual ao que todo mundo é ou, pelo menos, ao que todo mundo é de verdade, por dentro, e não a versão externa para ser exibida nas novelas. Fiquei pesando, então, que se eu obtiver muito sucesso em conseguir elevar minha dose de tolerância para comigo mesmo, pode ser que eu me ajeite com o que sou e consigo ser e pare de uma vez por todas com essa produção e transferência de dejetos emocionais. Já seria alguma coisa.  

Mas, não é só. Como qualquer um, além daquele depósito de quinquilharias e bugigangas que vivo tentando combater, também tenho lá um ou outro comodozinho mais apresentável, limpinho, pintadinho. Poucos, mas estão por aqui comigo. Os mais generosos chamam de talentos. Não chega a tanto, é claro, mas tem alguma serventia. Pois é com relação a eles, embora parcos e econômicos, que reservei uns outros votos. Desejo a mim mesmo muito êxito na difícil tarefa de aprender a lidar com isso de maneira mais magnânima e natural. Sem apimentar com veemência ou cair na cilada de um patético exibicionismo, o que, além de carecer de sustança, acaba sempre soando de maneira agressiva. É aquela bobagem de tentar se exibir quando o assunto em pauta é daqueles que se conhece um bocadinho, ainda que não muito mais que a superfície. Como quase tudo na vida, quem tem um grande estoque de capacidades e competências lida com elas de forma natural, está acostumado com elas. Pior são os que têm pouco ou quase nada. É feito rico antigo e rico novo. O antigo, já acostumado de longa data com a riqueza, quase sempre nem se lembra do que tem. O novo rico vive exibindo, malabarizando suas posses que é para poder mostrar a si mesmo mais do que aos outros. E se lambuza. Aprender a conviver com riqueza pouca é um dom e tanto. Quando consegue, aí sim o vivente deixa de ser um entojado grudento, desses que ninguém suporta. Aprender a conviver com talento pouco é a mesma coisa. Como eu me enquadro perfeitamente nessa pouquidão de talentos, esse, então, é meu segundo desejo, meus votos a mim mesmo para o ano novo: coibir o pavoneamento, também conhecido mais vulgarmente como “deixar de ser besta”. Se conseguir, vai ser tudo muito mais descontraído, mais relaxado e pode ser até que os meus modestos e escassos dotes sirvam para alguma coisa mais útil que alimentar um ego desmilinguido.  

Tenho pensado que se for atendido nesses dois votos já será um grande passo para dar alguma contribuição a que, ao menos aqueles que o destino colocou à minha volta e que, por alguma razão, tem sido generosos e condescendentes a ponto de ainda não pensaram em se livrar, possam ter um ano novo um pouco menos incomodado. Tudo dentro daquele velho principio ou ditado popular do “muito faz quem não atrapalha”.  Já é alguma coisa e, o que é mais importante, isso pode estar ao meu alcance. Os outros votos, aqueles mais grandiosos, mais aparatosos, esses hão de ficar a cargo de quem pode.

 

Publicado por: bellinilima | dezembro 29, 2009

MAS, E O ÚLTIMO?

“O maior espetáculo aos olhos do homem, ainda é o próprio homem”. Essa frase eu ouvi muita vezes, repetida por um tio, desses muito especiais que algumas pessoas tem a felicidade de ter na vida. Eu fui uma delas. Nunca consegui saber se ele foi o autor da frase ou ouviu de alguém. Ainda recentemente tentei pesquisar a origem da frase, mas não consegui encontrar nenhuma referência a ela. Se a autoria não pertencer ao tio que já não se encontra por aqui, fica registrado o meu respeito pelo criador e a devida vênia por reproduzi-la. Se, no entanto, o autor da frase tiver sido meu tio querido, tudo fica ainda mais sintomático e ilustrativo. E isso porque se houve neste planeta alguém mais desprendido que ele, ainda não tive a sorte de encontrar.  Aquele foi a materialização de uma antiga expressão popular que diz que o que faz a mão direita, a esquerda não precisa saber.  Dificilmente alguém já tenha levado tão a sério a honrosa tarefa de desempenhar o papel de ser humano. E, talvez por que tenha sido esse tipo de gente, também tenha tido a sensibilidade para criar ou tão bem propagar uma verdade como essa: “o maior espetáculo aos olhos do homem ainda é o próprio homem”.  

Embora a natureza seja exuberante e exerça um fascínio indiscutível, o ser humano se sente arrebatado mesmo quando se depara com a obra do próprio ser humano.  Por menos sensível que possa ter se tornado, o homem ainda se enternece com a música, ainda se emociona com a representação dramática, se extasia com as artes plásticas, se desprende do próprio corpo com a magia da poesia e da prosa.  O homem se encanta com as obras da ciência, da tecnologia, com os impressionantes avanços de tudo isso e se enche de orgulho. É como se estivesse diante de uma enorme população de extra-terrestres, gente de todos os planetas, de todas as galáxias, de todos os universos, dizendo: “estão vendo o que a gente faz por aqui?” E nesse “a gente” estamos todos, como se tivéssemos composto cada nota da sinfonia, tocado cada instrumento, como se ainda estivéssemos com as mãos sujas das tintas utilizadas no quadro. Como se as luzes dos refletores do grande teatro ainda estivessem acessas e ainda se ouvisse os aplausos de um público entusiasmado. Como se estivéssemos chegando da noite de autógrafos do livro de poesias ou do romance fadado a se tornar eterno. A vitória de cada um é a vitória de todos, de toda a espécie.   

Mas, não são somente as obras grandiosas do homem que formam o grande espetáculo aos olhos do próprio homem.  Afinal, o cotidiano, esse saltimbanco que vai puxando a grande fila em que todos nós estamos, não anda em trajes de gala. Sua roupa é simples, “roupa de briga”, como se dizia antigamente, coisa própria para o dia nosso de cada dia. Dessas pérolas do dia a dia é que se compõe a maior parte da vida e, ainda, assim, o homem consegue fascinar o homem. E exercitar uma das maiores virtudes de que a natureza dotou os seres em geral, humanos ou não: a solidariedade. Esse é um dos espetáculos do homem que mais cativa o próprio homem. Sobretudo quando ela, a solidariedade, se mostra em sua versão mais pura e original: na forma descontraída, espontânea de se expressar. Aí, o homem é grandioso como a mais grandiosa de suas obras. 

Estamos, um grupo de pessoas, na ante-sala da Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de São Paulo. No cômodo posterior, a sala propriamente dita, travam-se renhidas batalhas entre a vida e o mistério do depois da vida. As pessoas, visitantes de seus parentes, os protagonistas daqueles combates, se respeitam entre si, cada uma entendendo o drama alheio, uma cumplicidade tácita. Na parede, uma pia pequena para que se lave as mãos. A torneira é daquelas que precisa de uma pequena pressão na parte superior para que a água seja liberada. E o jorro dura um pequeno espaço de tempo. Quando as duas mãos estão sob a água, a torneira se fecha, dificultando a conclusão do processo. E o que, automática e espontaneamente, fazem as pessoas ali?. Enquanto um esfrega as mãos, um outro mantém a torneira pressionada e a água jorrando. Ninguém pediu ou ensaiou. Tudo de improviso. O resultado é que todos conseguem lavar as mãos tanto no começo quanto no fim da visita. E enquanto estamos ali, silenciosos naquele ato comunitário, alguém, no meio do processo, faz um comentário despretensioso, mas que parece bem oportuno: “mas, como é que vai ser para o último a lavar as mãos? Eu já ia acrescentar que, naquele caso, não ia valer o principio bíblico de que “os últimos serão os primeiros”. Mas, antes de mim, uma mulher simples que ali estava disse apenas: “ora, basta que o penúltimo espere pelo último”. E eu me calei, olhando aquela mulher simples e lembrando do meu tio: “o maior espetáculo aos olhos do homem ainda é o próprio homem”.

Publicado por: bellinilima | dezembro 17, 2009

É SÓ OLHAR PARA OS LADOS, INCLUSIVE O DE DENTRO

Qualquer um que abra um jornal, uma revista ou assista ao noticiário na televisão e, é claro, tenha um mínimo de consciência, acaba se indignando com tudo o que acontece no Brasil de hoje. As nossas mazelas são mais do que centenárias. A corrupção, o populismo, a demagogia, os discursos inescrupulosos, a desonestidade intelectual, tudo isso campeia entre nós com a mesma naturalidade com que campeava há 200 anos. Ou talvez até ande mais livre e solta nos dias de hoje, É de se perguntar como é possível que, no limiar da segunda década do século XXI este país ainda possa abrigar práticas tão rasteiras.  A resposta está bem a nossa frente, ao nosso lado, a nossa volta todo tempo. Basta prestar atenção. 

Dia desses recebi em casa um funcionário ou contratado de uma dessas operadoras de televisão por assinatura. Chamei para fazer um ajuste no sistema de banda larga que assino. Em conversa com o profissional ele me contou que existe no mercado um certo aparelho que, conjugado a uma antena devidamente apontada para um certo satélite, permite que se obtenha acesso a cerca de 260 canais de televisão sem pagar absolutamente nada.  Ele se referia aos mesmos canais que se acessa quando se assina uma dessas operadoras e se paga por isso. O profissional, que presta serviços a uma dessas empresas, também vende e instala o tal aparelho mágico. Ou seja, enquanto trabalha para uma empresa e é remunerado por ela, também atua contra ela.  O cidadão ainda acrescentou que aquilo era perfeitamente legal pois o aparelho era vendido com nota fiscal.  Tudo dentro da mais cristalina naturalidade. 

Tomei nota do nome do aparelho e fui investigar, pois aquilo me pareceu extremamente suspeito. De fato, pelo que consegui apurar, o aparelho só consegue acessar os tantos canais privados porque é submetido a uma alteração qualquer. Ou seja, tem todo jeito de pirataria. Mas não foi isso, exatamente, que mais me chamou a atenção. Realmente ilustrativa foi uma troca de correspondência que encontrei na “internet” sobre o assunto. Alguém, cujo nome não importa, inseriu um comentário sobre a natureza ilícita do procedimento e terminou suas ponderações dizendo quem, como assinante e pagante de um desses serviços de televisão por assinatura, esperava que aquela prática fosse desmascarada o mais breve possível. As reações ao seu comentário são absolutamente sintomáticas e esclarecedoras: (1)“olá, eu simplimente discordo de vc pois eu naum vou buscar o sinal la na origem ela bate em minha antena e circula minha casa ai eu olho rsrss seu bobo duvido q com o conhecimento q vc tem vc ia pagar uma tv a cabo sem dizer q vc nem sabe o nome de uma hahahahaha”.   Ou, então: (2)“Mas o que não entendi mesmo foi o motivo de você desejar que o “problema” seja resolvido com urgência, “rápido” como você mesmo disse. Me responde só: EM QUE ISSO ESTÁ ATRAPALHANDO SUA VIDA? Você fica sem dormir sabendo que pessoas estão captando o mesmo sinal que você paga uma fortuna para adquirir e o pior, de graça?! Se fosse um procedimento que prejudicasse o seu sinal eu concordaria em gênero, número e grau com você, mas não é! Você morreria e nunca saberia que isso acontece se não fosse divulgado. Então companheiro, deixa de ser idiota e vai assistir teu cartoon network pago enquanto a galera vê a mesma merda de graça. E deixa a preocupação de bloquear o sinal pra sua operadora, que isso é de interesse dela, não seu, BABACA.”   Ou, ainda: (3)“vem cá… vc é dono de uma operadora de tv a cabo?? ganha comissao?? trabalha pra uma??? se nao se encaixa em nenhuma dessas… vc deve ser milhionário…se nao for, nem vou dizer oq eh.. absurdo mesmo é pagar 100 pila na sky para ter poucos canais, e ainda assim, nao ter nem globo em algumas praças..  E, mais: (4)Em primeiro lugar quero dizer que é um absurdo as pessoas quererem ser donas dos sinais que vagam pelo espaço, pois como a fala, depois que abrimos a boca o som de nossa voz não mais nos pertencem e as pessoas que estão ao nosso redor ouvem mesmo se não quiserem e não podemos cobrar de ninguém por isso…Então, nesse caso específico é realmente um absurdo, pois as pessoas não estão subindo em um poste comprometendo a rede física das “operadoras” e “roubando” o sinal. As falsificações são condenáveis sim, principalmente quando colocam a vida das pessoas em risco, exemplo disso é o caso de medicamentos e auto peças. Mas, outra coisa é defender o “direito” de empresas cobrarem o que quiserem por seus produtos ou serviços em detrimento das necessidades da população em geral” 

Será que é preciso dizer mais alguma coisa ou isso tudo é auto-explicativo? Será que o interessante debate acerca do tema é suficientemente robusto para que se compreenda porque impera o cinismo na vida pública e privada nacional? É preciso algum esclarecimento a respeito da permissividade com que se trata a condução do país? Ainda será preciso que alguém explique de que forma os corruptos ser perpetuam no comando dos destinos deste pobre planeta-Brasil? Alguém ainda tem dúvidas de que tudo o que acontece nesta terra é o retrato fiel da sociedade? Cabe alguma reclamação contra o triste cenário desta triste terra sem futuro?  Então, é isso aí. Se liga, cabeção, que aqui ninguém é otário, só tem malandro!!!

Publicado por: bellinilima | dezembro 7, 2009

HERANÇA MALDITA

Não, não tem nada a ver com aquela parvoíce federal repetida exaustivamente pelo espumante mandatário nacional. E não vai aqui nenhuma presunção, mas se trata de coisa séria. O mote é a reportagem publicada há algum tempo pela revista VEJA SÃO PAULO a respeito da violência no trânsito. A capa estampa a foto de um rapaz com 26 anos de idade que tenta se recuperar dos danos sofridos com um tiro na cabeça. O motivo, se é que se pode dar esse nome ao ocorrido, foi uma briga de trânsito. Um motorista e um motociclista se desentenderam, surgiu a discussão, troca de ofensas e o sujeito da motocicleta sacou de um revolver e atirou contra o automóvel. A bala foi atingir o jovem que se achava no banco de trás. O motociclista fugiu e nunca foi encontrado. Seria o caso de se perguntar: existe história mais banal, episódio mais trivial, mais corriqueiro? Há quanto tempo se tem noticia de tragédias como essa? Há quanto tempo se convive com elas? Nem é preciso responder. Isso tudo parece, cada vez mais, ter-se incorporado à natureza humana, ao menos nas grandes cidades. De quando em vez um fato isolado ou uma matéria jornalística levanta o tema que, tão rapidamente quando vem à tona, volta a adormecer nos braços do cotidiano. 

Será que isso tudo tem causa? Certamente e várias. Algumas até merecem a preferência dos estudiosos. A excessiva concentração populacional nos grandes centros, o clima de “stress” que tomou conta do cidadão urbano, as dificuldades financeiras que assolam a maioria dos habitantes.  Há quem eleja os veículos de comunicação, sobretudo a televisão, pelo estímulo à violência. É claro que tudo isso certamente contribui para essa verdadeira praça de guerra em se que se transformaram as cidades grandes. Existe, no entanto, um componente cultural que exerce papel preponderante nessas manifestações de selvageria que, com alguma freqüência, acabam causando as tragédias. Aliás, selvageria elas sempre são. Apenas nem sempre terminam em tragédia, o que, em hipótese alguma, pode servir de consolo. Trata-se desse sentimento de machismo que continua imperando, vivo e atuante como nunca. “Se eu estiver certo, persigo o motorista e vou até o fim para tirar satisfação”. Essa é a declaração, provavelmente feita em tom de orgulho, por um motociclista. “Tirar satisfação” é uma obrigação moral, uma questão de honra. Se não agir dessa forma, o macho se sente aviltado, desonrado, moralmente ferido. Nem que para isso corra o risco de ficar mortalmente ferido. “Eu não levo desaforo pra casa” é outra expressão que representa com muita propriedade essa necessidade incontrolável, incontornável de reagir, sempre vários decibéis acima, a uma ofensa, ainda que sob todas as penas. O macho não pode prescindir dessa atitude ou então terá que abdicar de sua condição de macho.

 Mas, até aqui se está observando as reações. E o que dizer das ações? Os machos têm que ser sempre agressivos, manter a máscara dos maus bofes constantemente afivelada na cara para que ninguém tome liberdades e todos saibam que ali está um espécime legítimo da raça dos machos. Basta olha-los em qualquer situação. Estão sempre com aquela cara e aquele olhar de “o que foi?”, estágio que pode perfeitamente anteceder as chamadas vias de fato.   Assim, diante de qualquer situação que implique em discordância de sua augusta pessoa, de sua inelutável opinião ou de sua inquestionável atitude e vontade, compete ao macho partir para o ataque, primeiro com palavras e, se houver resistência, com a força física. O que nunca está presente, de fato, é a força intelectual. Essa não tem espaço na arena do macho. 

Esse verdadeiro encargo moral vem sendo transmitido gerações afora desde sempre. “Homem não chora”, “não pode deixar barato”, “homem que é homem dá logo na cara do outro”, “se apanhar na rua e entrar em casa chorando, vai apanhar mais”, “bate primeiro e pergunta depois”, quem nunca recebeu algum desses conselhos desde muito cedo? É parte indissociável da cultura machista que acompanha pais, filhos, netos. E, o que é mais surpreendente, parece ter contaminado também as mulheres. A mesma matéria da revista dá conta de algumas que simplesmente reagem da mesma maneira que os homens, com um machismo de impressionar. Teria sido essa a proposta de igualar as condições entre homens e mulheres?

 Ao menos aparentemente, para uma boa parte das pessoas, xingar os outros, responder malcriadamente ou até mesmo partir para a briga é coisa simples, tarefa das mais fáceis e até corriqueiras. Esses cumprem o papel ditado pela tal obrigação moral com muita tranqüilidade e, imagino, vão para a casa se sentindo leves, refeitos, em dia com os compromissos. Dormem como justos.  Para uma outra parte das pessoas, e não imagino qual seja a proporção, isso é penoso, quando não é impossível. Esses não têm o dom da reação à altura como exigem as regras da cultura do macho e, por conta disso, acabam sofrendo duplamente os efeitos da censura social: externa e internamente. Sim, porque além da reprovação dos pares, essas pessoas acabam sendo alvo do  mais rigoroso dos tribunais, o tribunal interior. A auto-censura, a auto-reprovação são ainda mais contundentes e impiedosas que a externa.  E, o mais curioso é que essa impotência para cumprir o papel do macho não depende do poder ou força do oponente. Normalmente, essas pessoas não conseguem o revide em quase todas as situações de confronto que lhes surge pela frente. E, quando resolvem passar por cima dos obstáculos e dão o troco, penam depois por um sentimento de constrangimento, uma espécie de vergonha pela selvageria praticada.

 A força dessa herança é, de fato, muito grande a ponto de gerar prejuízos a todos, independentemente do lado em que se esteja. Aos incapazes de obedecê-la, fica o sentimento de fracasso, uma cobrança furiosa, uma espécie de ferida que teima em não cicatrizar. Aos que se curvam a ela e docilmente observam os preceitos do revide e da agressão, os que preferem respeitar a tradição, aceitar o legado familiar restam as chances, cada vez mais concretas e reais de, se estiverem naquela faixa dos tempos em tempos, estamparem a capa da revista.  Ou figurar nas estatísticas. Em qualquer dos casos, é preciso uma dose enorme de energia mental, de reflexão, de ponderação para entender que cada um deve, antes de tudo, respeitar suas próprias características e, com o tempo, eliminar essa herança maldita. Sim, porque, isso é que é, de verdade, uma herança maldita.

Publicado por: bellinilima | novembro 19, 2009

VESTES E VESTAIS

Nestes tempos de “internet” não há mais lugar para segredos. Eles parecem ter sido completamente abolidos. Não há mais o que escape do alcance das lentes de um celular e que não vá parar na rede. Esse episódio recente envolvendo a moça da saia curta e a reação dos colegas de universidade é só mais um exemplo. A garota, que claramente se vê bem contemplada pela natureza, entendeu que poderia transitar com seus atributos sem maiores transtornos. Enganou-se. Por alguma razão que ainda não ficou bem esclarecida, a gurizada reagiu de maneira estranha, bem estranha, até um tanto incompreensível.  Afinal, considerando os padrões em vigor, tudo o que se vê nas ruas, nas festas, nas novelas, no cinema, no teatro, fica difícil entender o que poderia ter provocado tamanha reação naquele grupo de estudantes. Talvez somente lançando mão de recursos de psicologia de massas para entender essa espécie de quase linchamento que se praticou nos corredores da tal universidade. Compreensível ou não, ao menos aos olhos da maioria a reação foi totalmente descabida e até certo ponto assustadora. Foi como uma sombra de inquisição pairando no ar, grupos pretendendo impor preceitos pelo regime da força e da violência. Aliás, pensando bem, não foi muito diferente das intromissões de segmentos religiosos nas coisas da vida pública como volta e meia ocorre e, anda recentemente aconteceu com as pesquisas de célula-tronco enfrentando obstáculos para serem liberadas.  Cada vez que alguma coisa assim acontece é como se a sociedade desse vários passos para trás na caminhada em busca de evolução. 

Mas, como tudo ou quase tudo no seio do planeta-Brasil, o assunto já está ganhando aqueles contornos que mais tendem para a galhofa. A garota já andou fotografando na companhia de um cabeleireiro depois de ter  se colocado um longo cabelo artificial e na bolsa de apostas parece ser só uma questão de tempo para se começar a falar em revista de nu artístico. Isso sem falar em um senador muito dado a tiradas e desempenhos jocosos que já foi fazer palestra aos impetuosos coleguinhas da moça tentando lhes ensinar a ser mais tolerantes. Ou seria o caso de lhes rever os níveis de testosterona? Um dos saldos do episódio foram os inúmeros comentários que andaram circulando pela “internet”. E, em meio a eles, pelo menos dois interessantes paradigmas. Um dos fatores culturais que parece acompanhar as sociedades através dos tempos é o que se convencionou chamar de paradigma.  São os modelos ou padrões de comportamento, de credos e convicções que vão se repetindo e, consequentemente, se firmando como verdades absolutas. Acabam se incorporando ao elenco de crenças adotadas pela sociedade com tal força que ninguém mais se lembra de questionar de vez em quando, nem que seja para verificar se a data de validade não está vencida.  Nessa história da saia da moça, um deles é o espanto causado por uma reação tão retrógrada vinda de um grupo social reconhecidamente progressista como o dos estudantes e dos jovens.  Mas, afinal, será que os jovens são realmente tão progressistas? Sei, não. Não é marcação contra a juventude, coisa de gente senil se mordendo de inveja ou despeito. Mas, convenhamos, os jovens resistem a tudo o que não seja seus próprios valores. Alguém quer testar? Pois vamos tomar como exercício uma simples visita de uma família a outra. A família visitada está comemorando o aniversário de um filho adolescente. A família visitante é composta de pai, mãe e um filho também adolescente. Lá chegando, o adolescente visitante encontra um grupo de outros tantos adolescentes, amigos do aniversariante. O adolescente visitante, então, se junta aos adolescentes presentes e “rola uma química”, como eles gostam de dizer? Nada disso. O visitante fica no seu canto, isolado e, quase que seguramente, os visitados não o chamarão para coisa alguma. Cada grupo na sua, eles não se misturam. As tribos não se conversam.  E, salvo raríssimas exceções, alguém já viu um jovem ou grupo de jovens ouvindo música que não seja a do seu tempo e da sua turma? Essa liberalidade etiquetada na forma de pensar dos jovens só existe sob o manto e nos domínios do paradigma. Ora, jovens são apenas pessoas que ainda viveram pouco. Com todas as mazelas de qualquer ser humano. Só isso os difere dos mais velhos. Os jovens se tornarão velhos, ficarão rabugentos e ranhetas e continuarão a viver enclausurados em seus poucos metros quadrados de interação. Igual a todo mundo.  

O outro paradigma que está sempre em alta é, curiosamente, a crítica à juventude e a previsão sombria a respeito do futuro na mão desses jovens. Eles não lêem, não pensam, não se comunicam, não se interessam por coisa alguma, estão destruindo a linguagem e os costumes. O que será do país na mão dessa gente? Quem nunca ouviu ou leu esse discurso  milhares de vezes? É apocalíptico, uma dessas muitas previsões que se sucedem geração após geração. A nossa é sempre a virtuosa, a sábia, a ponderada. E está sempre horrorizada com a seguinte, sem parar um instantinho para lembrar que há uns poucos trinta ou quarenta anos, nós éramos a bola da vez na opinião dos nossos país e avós. Vamos ser honestos: nessa linha do “o que será do país na mão dessa juventude”, o que é do país na mão dos ex-jovens de ontem ou anteontem? Quem é que está no comando da “terra brasilis” nos dias de hoje? Por acaso não seria aquela juventude aguerrida, cheia de ideologia que dizia lutar contra a ditadura em nome das liberdades democráticas e de um mundo mais justo e socialmente equilibrado? Os maduros de hoje não são exatamente aqueles meninos e meninas tirados a revolucionários, banhados de cultura e inteiramente politizados? Os que estão no comando regendo os “mensalões”, os “aloprados”, os sanguessugas que povoam o cenário do país não são os mesmos que defendiam a ética, a honestidade, o senso moral, o desprendimento?  Quantas vezes nós mesmos ouvimos nossos pais e avós ou seus pares daquele tempo dizendo que ‘a geração coca-cola” iria nos levar à beira do abismo? E afinal, levamos ou ficamos nos equilibrando diante do buraco?  

Os paradigmas têm grandes inconvenientes. Um deles é fazer com que as besteiras que se comete ou se adota como verdades, continuem se repetindo. A história da saia da moça até poderia ser considerado um episódio isolado, mas seria muito bom verificar o que há por baixo disso. O risco é que, do jeito que as coisas andam, com tantos paradigmas, alguém resolva investigar o que há por baixo da saia da moça. Por favor, não é isso, não.

Publicado por: bellinilima | novembro 4, 2009

LIMITES E FRONTEIRAS

Little helper (Lampadinha) - reduzidaJá ouvi gente dizendo coisas estapafúrdias, mas acho que ninguém supera o meu amigo Zé Hercílio: “Eu não me perdôo por não ter nascido gênio”. Essa ele lascou quando tinha seus vinte ou vinte e poucos anos. Não que o meu caro Z.H. fosse algum curto de cabeça, um desses tipos para quem você conta uma piada e precisa explicar depois. Ao contrário, sempre foi um sujeito mais ou menos igual à maioria. Mas exatamente isso é que sempre o matou de desespero. Sei lá porque razão o sujeito resolveu achar que tinha que ser superior à média, Q.I. acima dos 120 ou 130, coisas que distinguem os chamados super dotados. Aliás, apenas para esclarecer, já que essa história de Q.I. já está fora de moda há muito tempo, a siglazinha significava “Quociente de Inteligência”. Já faz um bom tempo que Q.I. quer dizer apenas “Quem Indicou”, coisa muito comum em alguns redutos públicos aqui da “terra brasilis”.  

A vida inteira o meu amigo tem se debatido com esse mesmo e velho tema: não ter nascido um gênio, não ser uma inteligência ou um talento ilimitados. E, talvez por pura ironia dos astros ou deuses, a única coisa ilimitada com que o meu caro Zé Hercílio nasceu e definitivamente tem, são os seus próprios limites. Desde coordenação motora até perspicácia, o meu dileto amigo é limitado na quase totalidade do que faz ou se aventura a fazer. O que não quer dizer exatamente nada de mais. Como já disse, ele não é nenhum fronteiriço, incapaz por oficio, desses que simplesmente se destacam por não conseguiram fazer absolutamente nada direito. Em outras palavras, é um sujeito na média, tem os mesmos limites que a média, só não se confunde com aquela parcela da população que nasceu com talentos ou capacidades diferenciadas. Dia desses ele me contava que estava assistindo a um jogo de futebol pela televisão e, de repente, começou a observar com mais atenção a capacidade dos jogadores de dominar a bola. Alguém dá um chute forte à frente, lá num dos cantos do campo e um outro jogador, apesar de estar em pleno movimento, correndo, consegue dominar a bola que quase cola no seu pé como se tivesse um poderoso imã. “Puxa, eu não consigo fazer aquilo nem com as duas mãos”, comentou o meu caro amigo em tom claramente queixoso. Bem, disso eu sei. Conheço a criatura desde pequeno e sei como era ruim de bola. Sei até que ele só conseguiu jogar no timinho da rua enquanto foi, por uma curta temporada, o dono da bola e do jogo de camisas. Quando seus dois talismãs se acabaram, também terminou sua fase de glória. Não ter nascido bom de bola não é privilégio de poucos. A grande maioria também não tem esse dom. Mas, nem por isso se fica por aí em auto-condenação, se mandando queimar nas chamas do inferno três vezes ao dia. A menos que se seja o meu amigo Zé Hercílio que, para si mesmo, não consegue aceitar menos que ser o melhor em todas as atividades humanas conhecidas e até mesmo nas desconhecidas já que, a qualquer momento elas podem se tornar conhecidas.  

Como já disse, não tenho a menor idéia do que possa ter causado isso tanto ao meu amigo como a uma infinidade de gente por aí, que sofre do mesmo mal. Seria o caso de se tentar entender como essas pessoas se sentiriam se, um dia, por alguma conspiração dos astros, elas acordassem com todos os atributos e qualidades pelos quais vivem clamando e por cuja ausência vivem sofrendo. O que faria o meu amigo se acordasse o gênio que vive lamentando não ter nascido ou o talentoso ilimitado que nunca foi. O que faria com isso? Seria feliz, finalmente? Ou será que iria começar a procurar outros defeitos ou incapacidades para se lamentar deles e culpar sabe-se lá quem ou o quê pela ausência? Cada vez me fica mais forte a suspeita de que o segredo da vida pode ser exatamente a capacidade de se aceitar como se é, de se conviver com todos os limites e faltas de talento com que se nasceu. O problema é que pode ser muito fácil dizer isso no plano teórico, mas aceitar é outro assunto. Afinal, quem é que aceita com naturalidade o fato de não ser o sucesso mais exponencial da história da humanidade ou, ao menos, do seu bairro, da sua vizinhança ou cosa assim? Se a chave do mistério é a tal aceitação dos limites, talvez ainda esteja para se descobrir a fórmula mais acertada para conseguir chegar a esse ponto. Enquanto isso não acontece, o que se vê, de um modo geral e tirando os realmente expoentes e os mais sábios que aprendem a conviver com eles mesmos, são dois tipos de pessoas: aquelas, como o meu amigo, que passam a vida se condenando por não terem nascido gênios e os outros que, embora estejam a anos-luz desse brilho, desenvolvem uma incrível capacidade de achar que realmente são o máximo. Será que esses são mais felizes que os primeiros? E os dois seriam mais felizes que os brilhantes de verdade? Sei, não. Só perguntando ao Zé Hercílio, embora não adiante nada porque ele vai dizer que nunca se perdoará por não ter nascido um gênio para ter a resposta.  

Publicado por: bellinilima | outubro 23, 2009

BICHOS ESTRANHOS

Happy frogs“O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. Deve haver alguma razão para que os personagens das cantigas infantis, em grande parte, não sejam os animais charmosos da natureza, mas, isto sim, aquela turminha de segunda. É o sapo, o rato, a barata, só bicho sem prestigio.  Sem prestígio, mas com personalidade. Veja o caso do sapo. Apesar de morar na beira do lago, como continua esclarecendo a cantiga, e ainda acabar ouvindo exclamações pejorativas acerca do odor de seus simpáticos pezinhos (“mas, que chulé!”), ele simplesmente não lava o pé e pronto. Por que não quer. Isso é ou não é personalidade?  

Registrada a dúvida sobre a escolha dos bichos nas cantigas infantis e consignada a inquestionável personalidade do batráquio não muito afeito aos ditames da higiene, cumpre deixar claro que, disso tudo, pouco ou nada se aproveita, exceto a ponderação relativa a se fazer as coisas por que se quer.  É o caso de um grupo de senhores, já integrantes do chamado clã da terceira idade que resolve, mais ou menos às pressas, se reunir bem no meio da semana, noite de um dia útil e véspera de outro, para se entregar aos prazeres de um jantar.  Mais precisamente, meia dúzia de sujeitos consegue arrastar as respectivas parceiras para se reunirem num restaurante numa noite em plena metade da semana. Nem todas elas, as parceiras, se conhecem. Já eles, ao contrário, se conhecem de longa data. É que um deles, que vive do outro lado do país, resolveu dar um pulo até as bandas do sul para cuidar de uns negócios. Avisou os demais rigorosamente em cima da hora. Aí, celulares e e-mails entram em ação e pronto: lá estão os doze cavaleiros e cavaleiras reunidos em volta de uma távola retangular já que redonda é bem mais difícil.  

Mas, afinal, o que há de tão surpreendente em seis casais se reunirem no meio da semana para um jantar, mesmo que tudo se organize de improviso? Na verdade, nada de extraordinário. E, sendo assim, por que todo esse palavrório em torno de um fato tão corriqueiro. Bem, aí é o caso de se pensar porque apenas episódios inusitados merecem ganhar uma descrição ou registro. Afinal, no balanço geral, do que mais a vida é composta: de situações raras ou do prosaico cotidiano? Nem é preciso responder. Então, porque não dar destaque a um momento do cotidiano? Sobretudo porque há nessa história uns pontos, não menos prosaicos e cotidianos que talvez mereçam ser lembrados. De onde será que vem a ligação desses senhores? Serão amigos de longa data que viveram uma infinidade de situações, enfrentaram tempestades e batalhas juntos? Monteiro Lobato, em um de seus contos magistrais, descreve duas velhas que passam a vida juntas e, ao ensejo da morte de uma delas, sente-se a falta da outra no velório. E, perguntada sobre porque não tinha estado no enterro da sua grande amiga, ela esclarece que, na verdade, não eram amigas porque nunca haviam chorado juntas. Não, esses senhores, na verdade, nunca choraram juntos nem lutaram lado a lado contra algum inimigo comum.

O que os une é o fato de haverem dedicado a totalidade ou quase a totalidade da vida profissional à mesma organização. Pois é, um bando de ex-empregados da mesma empresa, agora no doce ofício da aposentadoria. Enquanto estiveram debaixo do mesmo patrão, não foram de se aproximar além dos limites da própria organização a que estiveram filiados. E, como colegas de trabalho, é mais do que certo que, em algumas vezes, estiveram em trincheiras adversárias, se desentenderam, conflitaram como é normalíssimo dentro das corporações. E não é que, transcorrida essa etapa da vida, começa a aflorar essa ligação sem compromissos ou propósitos outros que não a própria ligação por si mesma? E também é interessante notar como as desavenças de antes, os conflitos de interesse que seguramente aconteceram, podem ser superados pelo santo remédio da maturidade. Não quer dizer que necessariamente seja assim. Isso tudo costuma gerar ressentimentos. E ressentimentos costumam ser resistentes ao tempo e ao esquecimento. Às vezes essa parece ser a regra. Mas, se for, sempre resta o consolo das exceções, as tais que existem para que existam as regras. Há de haver muitas outras pessoas que, tendo que escolher entre manter as divergências ou deixá-las de lado em troca de construir um grupo agradável, que consegue se enternecer e se emocionar a ponto de se reunir às pressas (coisa mais comum e usual aos jovens cheios de energia), fazem a opção pela segunda hipótese. E aí, se dão muito bem porque os ressentimentos têm um gosto amargo enquanto o cabrito que o tal grupinho enfrentou no improvisado encontro, disseram que estava divino. Isso sem contar as fofocas e piadas sobre os velhos tempos, as gozações mútuas, além, é claro, dos inevitáveis comentários e avaliações sobre planos de saúde e bons hospitais, tema recorrente e contumaz no clima da terceira idade.  Não precisa nem de sobremesa.

E o sapo que não lava o pé? Pois é, não lava porque não quer, porque resolve que é chegada a hora de fazer aquilo que deseja e não se prender mais a dogmas, crenças ou convenções. Feito os velhinhos aí de cima, que vão ao encontro marcado de última hora somente porque é isso que queriam. Coisas desse cotidiano que não costuma merecer destaque ou atenção de ninguém importante, que não vai para as colunas sociais, nem vai preencher as estantes de nenhuma biblioteca, mas que faz a vida ficar boa como morar na beira do lago.

Publicado por: bellinilima | outubro 12, 2009

FALTOU ESPAÇO NA SALA

No room for sadness - reduzidaDecerto há de haver uma razão para que eu não consiga pensar no meu pai com tristeza. Ou, quem sabe, mais que uma razão, duas, três, várias. O que vale, no entanto, não é saber contar, é saber entender cada uma delas, sejam lá quantas forem. Vida fácil, isso ele não teve. Isso eu posso assegurar.  Quanto mais buscou quase com febre um sucesso profissional e financeiro atrás do outro, mais conheceu tropeços, mais topou com as portas fechadas, mais experimentou o sabor de não chegar em primeiro, gosto amargo especialmente num país onde o vice é só o primeiro dos perdedores. Vagueando hoje no sentido anti-horário eu consigo voltar lá longe nos meus sete anos de idade, quando comecei a perceber seus esforços em busca de águas calmas e seus momentos de reflexão sobre as voltas da maré, movimento que mais conheceu enquanto navegou. As noites quentes na Rua Cardeal Arcoverde no. 105, a casa em completo silêncio e semi-escuridão, ele, cabelo começando a embranquecer, sem camisa, debruçado na janela que dava para a rua, bem em frente ao cemitério do Redentor, fumando mais do que devia e olhando além dos muros altos com um olhar que me assustava. E eu apenas o vigiava, acordado e escondido, estômago doendo de medo de que o desânimo tomasse conta dele e ele pudesse resolver que o melhor, mesmo, era atravessar a rua e se reunir àqueles vizinhos solenes e silenciosos.  Qual o quê, receio de criança, de quem ainda não tinha convivência suficiente com aquele tipo meio caboclo, mistura de mineiro com espanhol nascido no interior da sua amada São Paulo e que, desde muito jovem, se tornou um verdadeiro paulistano. Eu sabia que alguma coisa andava errada e sofria com o medo disso. O que eu não sabia é que aquela alguma coisa errada era só mais uma das muitas que ele enfrentou sem nunca entregar os pontos, só mais um nocaute que ele sofreu sem nunca deixar que a contagem chegasse até 10, sempre conseguindo se levantar e continuar no ringue, recuperando energias, tomando iniciativas e nunca, nunca, sequer cogitando de jogar a toalha.

Olhando com os olhos gastos de hoje, vejo meu velho pai como um trapezista que nunca pestanejou em se lançar de uma barra de trapézio em busca de outra mais alta, que pudesse gratificar mais generosamente o esforço e a ousadia. E foram muitas as vezes em que, abrindo mão de uma, não logrou alcançar a outra e assim se lançou no espaço, corpo caído ao chão, doído, mas já em movimento de recuperação, se ajeitando para retomar os cursos e sonhos. E bastava um novo sonho para que ele, sua cabeça cada vez mais branca, seu entusiasmo, montassem as asas do devaneio e se lançassem no espaço cavalgando um Pégaso em pêlo, encharcado de adrenalina e suor. E se danassem as experiências anteriores, as lições de fracasso indicando com sisudez os riscos de uma nova queda. Lá ia ele no lombo de seu cavalo alado voar novos céus, rasgar novas nuvens, sonhar novos sois sempre mais brilhantes e cheios de calor, tudo movido à firme convicção de que o fim do arco-íris estava prestes a ser conquistado. E ali estaria o pote de ouro com o qual iria nos colocar a nós, sua mulher amada, seus filhos queridos, em confortável carruagem para percorrer os caminhos feitos de leite e mel que ele tinha traçado para as nossas vidas, tudo proporcionado por ele, nosso anjo protetor, feliz de ter cumprido seu papel cuja recompensa única seria o orgulho que sentiríamos por ele.

Mas, cada arco-íris que se desfez não foi suficiente para tisnar as cores que permaneceram em suas retinas e que permitiram que novos sonhos se materializassem e fossem perseguidos. Sem que o ânimo, a fé, a garra e a coragem cedessem lugar ao entregar de pontos. Sem que o humor, as tiradas jocosas e inteligentes, os conselhos nutridos pela experiência de caminhos percorridos e, acima de tudo, a dose imensurável de generosidade e dignidade perdessem espaço e tempo em seu coração de guerreiro. Para não dizer que foi assim até a última página do livro, houve, sim, um período nublado em sua fisionomia sempre altiva. Mas que não foi suficiente para tingir o todo, a trajetória inteira.

Meu pai teve o cuidado e a gentileza de não terminar sua turnê no dia consagrado às crianças. Certamente se preocupou em não ensombrar com uma despedida, um dia tão feliz como aquele. Discretamente, desceu as cortinas um dia antes, precisamente num 11 de outubro, para empreender seus vôos mais altos. E eu, que tanto temi a vida inteira aquele momento de desvalia, aquela perspectiva do desenlace eterno, rapidamente fui tomado por mais uma de suas artes. Apesar das dificuldades sofridas, dos sonhos seguidos de decepções, de não ter atingido suas metas como as imaginou, tudo, enfim, que justificaria lembranças amargas, memórias chorosas e tristes, não foi nada disso que aconteceu. Na verdade, não foi preciso mais que umas poucas semanas para que ele voltasse a compor a nossa paisagem pessoal com seu jeito sempre surpreendente, suas frases entre jocosas e ferinas, seus conselhos, seus exemplos de como andar com a dignidade à mão como estandarte desse grande bloco. E, aí, bem mais livre, solto, descontraído, só com os lados bons. Isso tudo talvez explique porque eu não consigo pensar no meu pai com tristeza, mesmo quando já lá se vão duas décadas inteiras desde que ele alçou novos vôos. É que, com certeza, tudo o que ele pretendeu nos legar, conseguiu e bastante. Ainda que por maneiras transversas, diferentes das que imaginou, ele conseguiu nos dar o conforto da carruagem mágica que tanto perseguiu. Apenas veio sob uma forma um pouco diferente, forma e ação que se fundiram em formação, patrimônio pessoal que a ninguém jamais será possível subtrair. E sempre com o riso iluminado, o calor da fé, o entusiasmo quase irreverente de quem veio ao mundo para não perder uma só chance de mostrar que essa barafunda vale a pena. E tudo muito divertido. Onde é que cabe tristeza nisso?

Publicado por: bellinilima | setembro 29, 2009

OS ESCONDIDINHOS DA CIDADE

Wall-Clock in cartoon - reduzidaQuantas cidades existem nesta mesma São Paulo? Resposta difícil, não é? Sempre se pode argumentar que, graças à diversidade de raças e origens instaladas por aqui, a cidade acabou desenvolvendo diferentes pólos culturais e com isso, diferentes comunidades foram florescendo. Não é à toa que em São Paulo se encontram restaurantes de qualquer parte do próprio país e do planeta. Desde os mais tradicionais aos mais específicos e incomuns, um sujeito nesta metrópole pode se dar ao luxo de se sentir em qualquer lugar do mundo em matéria de comida. E, embora sem o mesmo tom acentuado que já houve no passado, também se encontram ainda em São Paulo, o aglomerado de italianos, o de chineses, japoneses, coreanos e assim por diante. Só que não é a nada disso que me refiro quando tento imaginar quantas cidades existem nesta mesma São Paulo.  

Por conta de dar uma mãozinha ao empreendimento que nossa filha resolveu desenvolver, lá fomos nós, a parceira e eu, bater nossos costados em um dos antigos bairros de São Paulo: Pompéia. A guria resolveu abrir um pequeno depósito para armazenar mercadorias e, por uma questão de praticidade, escolheu a Pompéia.  E quem poderia ser escalado para se plantar à porta do pequeno estabelecimento enquanto eram descarregadas, em um dia,  caixas e caixas de papelão que acondicionarão os produtos e, no dia seguinte, os próprios produtos? Quem? Lá fomos nós. Como cada um dos processos de descarga levou alguma coisa em torno de duas ou três horas, o que mais se poderia fazer senão caminhar pelos arredores? Lá fomos nós, outra vez. E desta vez, confesso, o tempo foi curto. Paulistano de muito tempo, confesso que nunca havia andado pelas ruas da Pompéia. A impressão é que ali há uma espécie de fenda no tempo da cidade ou uma outra dimensão à qual se chega por alguma fresta escondida no corpo das décadas. Os anos quarenta ou cinqüenta parecem ter estacionado por aquelas ruas e se recusado a dar lugar à modernidade. As casinhas, inúmeras, devem ter aí uns cinco metros de frente. E quase todas com porta de entrada e janela dando para a calçada, sem recuo ou entrada para automóvel. A maioria são sobradinhos geminados. Algumas diferem um pouco e tem uma modesta garagem em que deve caber um automóvel no máximo e não dos grandões. Só falta estar escrito em cima que é um lar, como disse o poeta. Mas, sinceramente, nem precisa. Qualquer um que sabe o que seja um lar percebe de cara que o clima é de lar.  

Sempre há quem veja o antigo com olhos distorcidos. O antigo, visto por olhos pouco atentos, acaba sugerindo um tom de desânimo ou desinteresse, coisa de quem já viveu e espera pelo fim. Não na Pompéia. A arrumação das casinhas, o toque caprichoso das mãos domésticas nos vasinhos com flores que enfeitam as paredes, as diferentes cores de portas e janelas, tanto as que dão para a rua quanto as que ostentam o recuo, tudo deixa claro que ali ninguém está esperando fim nenhum. E se vier, não será pela vontade de ninguém. Não fosse pela presença incômoda das grades de proteção tanto nas portas quanto nas janelas, seria o caso de se dizer que aquele canto da cidade não foi atingido pela marca completamente sem graça da violência. Mas, apesar das grades de proteção, as pessoas circulam pelas ruas naquele passo descontraído de quem está em casa e se sente dono dos atalhos. A garotada vai e vem para as escolas fazendo aquele barulho que só os jovens em grupo são capazes de fazer. E cruzam com donos de cabeleiras brancas ou de grande carecas que não parecem se incomodar com a zoada. É a própria vida em movimento,  seus infinitos e variáveis movimentos.  

A vida em ação talvez seja o que mais chame a atenção nesse pedaço de São Paulo. Apesar da predominância das casas residenciais, não faltam os pequenos comércios. São lojinhas de material de construção, pequenos mercados, salões de beleza, bazarzinhos, restaurantes com comida caseira e por quilo para atender aos que trabalham pelas redondezas. Tudo com cara e jeito de negócios de família. São as pessoas do dia a dia tocando suas vidas e alimentando, como ribeirões, os rios caudalosos da econômica paulistana. É a vida pulsando, na plenitude do movimento, no ápice de seus mistérios. Numa das casinhas, das que tem recuo, em lugar do automóvel, uma cadeira de barbeiro e os demais petrechos que compõe uma modesta barbearia, daquelas que havia na cidade nos tempos em que esse profissional não se incomodava de ser chamado de barbeiro. Ali, naquele lugarzinho simples, avesso à sofisticação, alguém ganha a vida diariamente e, com toda certeza, não desistiria dela por absolutamente nada deste ou de qualquer outro mundo. Vida em pleno movimento, florescendo linda e viçosa.  

Como disse antes, o que fizemos por aquelas ruas não foi nenhuma incursão, expedição de reconhecimento, pesquisa cultural, nada disso. Foram só algumas voltas por uns poucos quarteirões, tudo muito sem propósitos. A magia nostálgica do lugar é que nos pegou de frente. Esse, às vezes, também é o risco quando se anda desprevenido pelas ruas de São Paulo. Encontrar esses oásis de velhos tempos, de quando a cidade parecia mais consigo mesma, não tinha vergonha de ser humana. E, então, fiquei pensando em qual daquelas surpresas me ajudaria a tentar registrar o espírito do lugar, a simplicidade, descontração, a alegria sem ranços. Acho que achei. No cartaz que um morador afixou no portão de sua casinha, um primor de humanismo, um cartaz que talvez traduza fielmente o que parece ser o espírito que prevalece por aquelas bandas: “CUIDADO CÃO Super Simpático – corre o risco de você se apaixonar”.  Cuidado cão - reduzida

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