Já ouvi gente dizendo coisas estapafúrdias, mas acho que ninguém supera o meu amigo Zé Hercílio: “Eu não me perdôo por não ter nascido gênio”. Essa ele lascou quando tinha seus vinte ou vinte e poucos anos. Não que o meu caro Z.H. fosse algum curto de cabeça, um desses tipos para quem você conta uma piada e precisa explicar depois. Ao contrário, sempre foi um sujeito mais ou menos igual à maioria. Mas exatamente isso é que sempre o matou de desespero. Sei lá porque razão o sujeito resolveu achar que tinha que ser superior à média, Q.I. acima dos 120 ou 130, coisas que distinguem os chamados super dotados. Aliás, apenas para esclarecer, já que essa história de Q.I. já está fora de moda há muito tempo, a siglazinha significava “Quociente de Inteligência”. Já faz um bom tempo que Q.I. quer dizer apenas “Quem Indicou”, coisa muito comum em alguns redutos públicos aqui da “terra brasilis”.
A vida inteira o meu amigo tem se debatido com esse mesmo e velho tema: não ter nascido um gênio, não ser uma inteligência ou um talento ilimitados. E, talvez por pura ironia dos astros ou deuses, a única coisa ilimitada com que o meu caro Zé Hercílio nasceu e definitivamente tem, são os seus próprios limites. Desde coordenação motora até perspicácia, o meu dileto amigo é limitado na quase totalidade do que faz ou se aventura a fazer. O que não quer dizer exatamente nada de mais. Como já disse, ele não é nenhum fronteiriço, incapaz por oficio, desses que simplesmente se destacam por não conseguiram fazer absolutamente nada direito. Em outras palavras, é um sujeito na média, tem os mesmos limites que a média, só não se confunde com aquela parcela da população que nasceu com talentos ou capacidades diferenciadas. Dia desses ele me contava que estava assistindo a um jogo de futebol pela televisão e, de repente, começou a observar com mais atenção a capacidade dos jogadores de dominar a bola. Alguém dá um chute forte à frente, lá num dos cantos do campo e um outro jogador, apesar de estar em pleno movimento, correndo, consegue dominar a bola que quase cola no seu pé como se tivesse um poderoso imã. “Puxa, eu não consigo fazer aquilo nem com as duas mãos”, comentou o meu caro amigo em tom claramente queixoso. Bem, disso eu sei. Conheço a criatura desde pequeno e sei como era ruim de bola. Sei até que ele só conseguiu jogar no timinho da rua enquanto foi, por uma curta temporada, o dono da bola e do jogo de camisas. Quando seus dois talismãs se acabaram, também terminou sua fase de glória. Não ter nascido bom de bola não é privilégio de poucos. A grande maioria também não tem esse dom. Mas, nem por isso se fica por aí em auto-condenação, se mandando queimar nas chamas do inferno três vezes ao dia. A menos que se seja o meu amigo Zé Hercílio que, para si mesmo, não consegue aceitar menos que ser o melhor em todas as atividades humanas conhecidas e até mesmo nas desconhecidas já que, a qualquer momento elas podem se tornar conhecidas.
Como já disse, não tenho a menor idéia do que possa ter causado isso tanto ao meu amigo como a uma infinidade de gente por aí, que sofre do mesmo mal. Seria o caso de se tentar entender como essas pessoas se sentiriam se, um dia, por alguma conspiração dos astros, elas acordassem com todos os atributos e qualidades pelos quais vivem clamando e por cuja ausência vivem sofrendo. O que faria o meu amigo se acordasse o gênio que vive lamentando não ter nascido ou o talentoso ilimitado que nunca foi. O que faria com isso? Seria feliz, finalmente? Ou será que iria começar a procurar outros defeitos ou incapacidades para se lamentar deles e culpar sabe-se lá quem ou o quê pela ausência? Cada vez me fica mais forte a suspeita de que o segredo da vida pode ser exatamente a capacidade de se aceitar como se é, de se conviver com todos os limites e faltas de talento com que se nasceu. O problema é que pode ser muito fácil dizer isso no plano teórico, mas aceitar é outro assunto. Afinal, quem é que aceita com naturalidade o fato de não ser o sucesso mais exponencial da história da humanidade ou, ao menos, do seu bairro, da sua vizinhança ou cosa assim? Se a chave do mistério é a tal aceitação dos limites, talvez ainda esteja para se descobrir a fórmula mais acertada para conseguir chegar a esse ponto. Enquanto isso não acontece, o que se vê, de um modo geral e tirando os realmente expoentes e os mais sábios que aprendem a conviver com eles mesmos, são dois tipos de pessoas: aquelas, como o meu amigo, que passam a vida se condenando por não terem nascido gênios e os outros que, embora estejam a anos-luz desse brilho, desenvolvem uma incrível capacidade de achar que realmente são o máximo. Será que esses são mais felizes que os primeiros? E os dois seriam mais felizes que os brilhantes de verdade? Sei, não. Só perguntando ao Zé Hercílio, embora não adiante nada porque ele vai dizer que nunca se perdoará por não ter nascido um gênio para ter a resposta.
“O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. Deve haver alguma razão para que os personagens das cantigas infantis, em grande parte, não sejam os animais charmosos da natureza, mas, isto sim, aquela turminha de segunda. É o sapo, o rato, a barata, só bicho sem prestigio. Sem prestígio, mas com personalidade. Veja o caso do sapo. Apesar de morar na beira do lago, como continua esclarecendo a cantiga, e ainda acabar ouvindo exclamações pejorativas acerca do odor de seus simpáticos pezinhos (“mas, que chulé!”), ele simplesmente não lava o pé e pronto. Por que não quer. Isso é ou não é personalidade?
Decerto há de haver uma razão para que eu não consiga pensar no meu pai com tristeza. Ou, quem sabe, mais que uma razão, duas, três, várias. O que vale, no entanto, não é saber contar, é saber entender cada uma delas, sejam lá quantas forem. Vida fácil, isso ele não teve. Isso eu posso assegurar. Quanto mais buscou quase com febre um sucesso profissional e financeiro atrás do outro, mais conheceu tropeços, mais topou com as portas fechadas, mais experimentou o sabor de não chegar em primeiro, gosto amargo especialmente num país onde o vice é só o primeiro dos perdedores. Vagueando hoje no sentido anti-horário eu consigo voltar lá longe nos meus sete anos de idade, quando comecei a perceber seus esforços em busca de águas calmas e seus momentos de reflexão sobre as voltas da maré, movimento que mais conheceu enquanto navegou. As noites quentes na Rua Cardeal Arcoverde no. 105, a casa em completo silêncio e semi-escuridão, ele, cabelo começando a embranquecer, sem camisa, debruçado na janela que dava para a rua, bem em frente ao cemitério do Redentor, fumando mais do que devia e olhando além dos muros altos com um olhar que me assustava. E eu apenas o vigiava, acordado e escondido, estômago doendo de medo de que o desânimo tomasse conta dele e ele pudesse resolver que o melhor, mesmo, era atravessar a rua e se reunir àqueles vizinhos solenes e silenciosos. Qual o quê, receio de criança, de quem ainda não tinha convivência suficiente com aquele tipo meio caboclo, mistura de mineiro com espanhol nascido no interior da sua amada São Paulo e que, desde muito jovem, se tornou um verdadeiro paulistano. Eu sabia que alguma coisa andava errada e sofria com o medo disso. O que eu não sabia é que aquela alguma coisa errada era só mais uma das muitas que ele enfrentou sem nunca entregar os pontos, só mais um nocaute que ele sofreu sem nunca deixar que a contagem chegasse até 10, sempre conseguindo se levantar e continuar no ringue, recuperando energias, tomando iniciativas e nunca, nunca, sequer cogitando de jogar a toalha.
Quantas cidades existem nesta mesma São Paulo? Resposta difícil, não é? Sempre se pode argumentar que, graças à diversidade de raças e origens instaladas por aqui, a cidade acabou desenvolvendo diferentes pólos culturais e com isso, diferentes comunidades foram florescendo. Não é à toa que em São Paulo se encontram restaurantes de qualquer parte do próprio país e do planeta. Desde os mais tradicionais aos mais específicos e incomuns, um sujeito nesta metrópole pode se dar ao luxo de se sentir em qualquer lugar do mundo em matéria de comida. E, embora sem o mesmo tom acentuado que já houve no passado, também se encontram ainda em São Paulo, o aglomerado de italianos, o de chineses, japoneses, coreanos e assim por diante. Só que não é a nada disso que me refiro quando tento imaginar quantas cidades existem nesta mesma São Paulo. 
Circula atualmente uma campanha publicitária de uma grande rede de supermercados cujo mote é a pergunta: “O que é que faz você feliz?” Todo mundo ou quase todo mundo já viu e ouviu as mais diferentes e rimadas respostas. E o que, aparentemente, ´”faz você feliz” é uma porção de situações simples, cotidianas, cheias de ternura e docilidade, uma paz de causar inveja a muito monge tibetano ou monge ermitão. Um paizão brincando descontraído com seus pimpolhos, aquela mãe sempre sorridente e que parece nunca lascar uma boa chinelada nos filhotes, avós de bom humor inalterável que nunca mostram a menor irritação, maridos e esposas saltitantes nos corredores dos supermercados e por aí afora. Quem é que pode colocar em dúvida que essas cenas todas nos fazem felizes? O que merece uma reflexão um pouco mais profunda é se apenas situações dessa natureza têm o condão de nos fazer felizes ou se existe coisas menos confessáveis que também geram esse tipo de euforia?
O sujeito vai dirigindo seu automóvel por uma estrada. Estrada boa, visibilidade satisfatória, velocidade permitida em torno de 110 quilômetros por hora, automóvel novo, em excelentes condições, lá vai o individuo auferindo das maravilhosas conquistas da tecnologia, das prerrogativas da juventude e do conforto de não estar classificado abaixo da linha da miséria. Se alguém quiser, pode incluir, no banco de passageiros, uma loira curvilínea ou uma morena de cabelos esvoaçantes, agitando a cabeça ao som do ritmo dolente produzido por um poderoso “Ipod” conectado a um ultra moderno aparelho de som com falantes espalhados pelo interior da quase espaçonave deslizante. E, de repente, os primeiros sinais de que alguma coisa vai vir pela frente para nublar esse céu de brigadeiro. Os primeiros policiais rodoviários já batem a mão direita para baixo naquele sinal característico de que é preciso reduzir a velocidade. Os veículos em sentido contrário já diminuíram sensivelmente a velocidade e caminham como se andassem na espreita de alguma coisa ou fugindo silenciosamente dela, pé ante pé, pisando macio e com cuidado. E, então, o sujeito e sua estonteante acompanhante chegam ao local do acidente. Veículos destroçados, gente à volta, um mar de curiosos com caras assustadas. Um dos aglomerados principais indica que ali, sob os olhares desconcertados, incrédulos, impotentes, duas ou três vítimas fatais. Mais adiante, outras vítimas sendo transportadas para as ambulâncias que impregnam a paisagem com as luzes das sirenes que, em minutos, também começarão a gritar estridentemente seu grito de alerta pedindo passagem em busca de, talvez, alguns milagres.
Há muito, muito tempo, num fim de noite, todo mundo mais do que suficientemente etilizado, eu tive um entrevero com um sujeito que acabou terminando em empurrões e quase troca de tapas. Até hoje, quando me lembro disso, fico um pouco envergonhado. E o motivo dessa cretinice foi uma frase dita pelo então meu desafeto e que, seguramente por conta da dosagem alcoólica, chegou aos meus ouvidos como ofensa das mais graves. É que o sujeito, um dos muitos pseudo intelectuais que se multiplicavam naqueles tempos, moleque como eu e, assim como eu, metido a filósofo de botequim, declarou que naqueles dias até lista telefônica podia ser poesia. A prova incontestável do nosso sólido e inabalável conteúdo intelectual é que o porre nos levou aos tapas. Nada mais cerebral.
A que fator se poderia atribuir a velocidade vertiginosa com que os gestos, atitudes e palavras vão se transformando? Uma das primeiras candidatas é a “internet”. E divide as honras com a globalização. Ao menos aos olhos da maioria, as duas disputam a responsabilidade por tudo ou quase tudo o que acontece nos nossos dias. Os gestos, por exemplo. Nunca me esqueço de uma matinê num cinema da minha infância quando, bem no fim do filme, para saudar alguém, o herói olhava para um grupo e fazia aquele sinal em forma redondinha juntando o polegar e o indicador. A molecada na platéia morreu de rir. É que, para quem não sabe, esse sinalzinho, aqui na ”terra brasilis” de antigamente, correspondia ao hoje popular dedo do meio em riste. Era assim que os americanos mandavam os outros fazer aquilo que todo mundo sabe quando mostram o dedo do meio a alguém. O outro sinal, que para nós significa o mesmo que o dedo do meio em riste, era para eles um ingênuo “OK”, “está tudo bem”, “tudo certo”. Agora, se naqueles tempos pré-históricos algum americano educado e bonzinho quisesse dizer a um brasileiro que alguma coisa estava em ordem e fizesse o sinal a que estava acostumado, corria o risco de levar um pé-de-ouvido sentido e, o que é pior, ia ficar sem entender nada. O jeito foi adotarmos o dedo do meio e esquecer o outro que, em completo desuso, acabou agonizando em total solidão e só é lembrado quando se quer dar algum exemplo de como as coisas vão sendo ultrapassadas. É a globalização das agressões verbais e gestuais.
Crises, quem não tem delas de vez em quando? Não se trata de crises como a que o mundo anda enfrentando ultimamente com o sumiço do dinheiro que andava espalhado por aí e o fim do período das vacas gordas. Essas são para os economistas se fartarem de escrever, promover seminários e palestras, organizar consultorias e vender conselhos salvadores até que o dinheiro se desentoque porque, convenhamos, ele não desapareceu, ninguém rasgou ou ateou fogo. Ele apenas se escondeu no fundo dos baús, cofres e burras de alguns e, logo, logo, volta a passear por aí. Dinheiro adora desfilar, badalar e ser reverenciado, acariciado e outras saliências. As crises a que me refiro são as pessoais, aquelas em que entramos pelas mais variadas razões. Crise da adolescência, crise do fim do primeiro amor, aquele que invariavelmente é eterno, crise do fim da escola, crise dos quarenta, crise da meia idade. Para cada período da vida parece que existe uma crise guardada num armário qualquer e lá vamos nós nos servir, nos fartar dela. Os mais pessimistas transformam as crises em verdadeiras catástrofes existenciais e tem gente que se afunda de vez. Difícil voltar à tona. Os otimistas, ao contrário, enxergam nelas verdadeiras oportunidades de crescimento. Mas esses são os extremos.
Ontem pela manhã me ligou uma amiga. Eu não estava em casa e quem atendeu foi minha mãe. Percebendo quem havia atendido, minha mãe já bastante idosa, e talvez receosa de abordar o assunto que pretendia tratar comigo, a amiga fez alguns rodeios. E finalmente perguntou como eu estava naquela manhã, se estava muito abalado e por aí afora. Como minha “velhinha” mostrasse não estar entendendo o tom da conversa, a amiga acabou se revelando por inteiro. Perguntou se ela havia sido informada a respeito do Zé Rodrix. E, em seguida, complementou que tinha ficado preocupada comigo, pois imaginava que eu estivesse tido um grande impacto já que éramos, Zé Rodrix e eu, amicíssimos.