Ontem pela manhã me ligou uma amiga. Eu não estava em casa e quem atendeu foi minha mãe. Percebendo quem havia atendido, minha mãe já bastante idosa, e talvez receosa de abordar o assunto que pretendia tratar comigo, a amiga fez alguns rodeios. E finalmente perguntou como eu estava naquela manhã, se estava muito abalado e por aí afora. Como minha “velhinha” mostrasse não estar entendendo o tom da conversa, a amiga acabou se revelando por inteiro. Perguntou se ela havia sido informada a respeito do Zé Rodrix. E, em seguida, complementou que tinha ficado preocupada comigo, pois imaginava que eu estivesse tido um grande impacto já que éramos, Zé Rodrix e eu, amicíssimos.
Isso tudo minha velha mãe só me contou depois, talvez no dia seguinte. E, claro, ficou curiosa por saber se, realmente, eu era assim tão próximo do Zé Rodrix, já que ela nunca soubera disso. Expliquei a ela que, na verdade, eu não tinha essa proximidade tão grande com ele. Então, porque razão a minha amiga tinha essa impressão? Ah, aí está alguma coisa que merece ser contada. Tem pouco mais que um ano, eu e a parceira fomos assistir a um show de música lá no Villagio Café. O artista que ia se apresentar era ninguém menos que o Tavito. Imperdível. Lá fomos nós e, a tiracolo, resolvemos levar uma amiga, exatamente essa do telefonema. E ela, por sua vez, levou junto uma outra que nós não conhecíamos. Quem conhece o Villagio sabe que, se por um lado costuma sobrar talento, por outro lado falta espaço. E é claro que a equação se agrava na medida em que, quanto mais talento, mais sério fica o espaço a menos. Chegamos quase em cima da hora ou, para ser mais realista, quase em cima do que em tese seria a hora já que isso não é valor a que se dê muita importância. Afinal, quem gosta de relógio é suíço que, em descompensação, não tem Tavito.
O Villagio já estava consideravelmente lotado. Mas a sorte estava do nosso lado. E não apenas ela. A generosidade também. É que, assim que chegamos, bem na entrada, meio que fazendo as vezes de mestre de cerimônia, estava ninguém menos que Zé Rodrix. Para ser muito honesto, eu estive pessoalmente com o Zé Rodrix umas poucas vezes. Meus primeiros contatos com ele foram por meio de uma lista de internet. Lá ele representava o papel do polemista, o que provocava a todos com uma contundência que chegava a intimidar. Trocamos e-mails e, cá entre nós, algumas farpazinhas de nada. E, finalmente um dia, eu o conheci pessoalmente na noite de autógrafos do lançamento do livro de uma poetiza que também participava da lista e que todos chamavam carinhosamente de Etelinda. Nessa noite eu descobri um Zé Rodrix completamente diferente daquele personagem cáustico da troca de e-mails. Conheci um cavalheiro que manuseava as noções mais profundas de respeito humano com uma familiaridade de quem já nasceu sob esse signo. Foi nessa noite que ele me brindou com um ensinamento dos mais interessantes: “pior que levar lista de internet a sério é se levar a sério em lista de internet”.
Tempos depois voltamos a nos encontrar e desta vez em causa nobre. Organizamos, ainda pela lista, um show aqui em São Paulo com o propósito de arrecadar alimentos para necessitados. Era época de natal e o evento ganhou o nome de “Natal sem fome”. Zé Rodrix foi incansável e, outra vez, cavalheiresco. Trabalhou como um mouro para que o evento se realizasse e, claro, deu sua contribuição maior no palco. Quando o show terminou, um monte de alimentos arrecadados, eu apresentei a ele a minha parceira. Ele, então, se curvou e beijou sua mão. Caso alguém não consiga vislumbrar o que isso significa, nem vale a pena explicar.
Nessa noite no Villagio, chegando em cima da hora, lá estava ele. E Zé Rodrix nos recebeu como quem recebe velhos amigos. Efusivo, cheio de um calor humano que quase já não se usa mais, fez questão de nos conseguir uma ótima mesa quase no palco para que pudéssemos nos integrar com o clima do show que Tavito nos ofereceu. E nem é preciso dizer que não demorou muito para que ele mesmo também fosse para o palco transformar aquela noite numa dessas que não há tempo que apague.
Depois disso ainda encontrei Zé Rodrix num outro show. Não faz muito tempo, ele esteve ministrando uma palestra em uma loja maçônica freqüentada por um outro amigo. Além das fotos de praxe, fez questão de me mandar um abraço caloroso quando soube que esse amigo era meu amigo também. E agora, eu me pego tentando explicar à minha velha mãe porque a nossa amiga acreditava que Zé Rodrix e eu fôssemos amicíssimos. E, enquanto contava isso tudo, fui perdendo um pouco o rumo da história. É claro que eu poderia simplesmente confirmar a impressão da minha amiga. Isso só faria enriquecer a minha imagem perante ela e quem mais aparecesse. Mas talvez fosse um desrespeito à honestidade e à integridade de Zé Rodrix. Afinal, a vida não me honrou com a possibilidade de privar com ele o tanto que seria necessário a ponto de permitir que eu pudesse sair por aí alardeando que fomos amicíssimos. Mas, foi isso que ficou marcado na retina da memória da minha amiga. Nada mais natural. Afinal, como eu tentei dizer antes, aquela noite foi distinguida, dentre outras coisas, pela sorte de ter encontrado Zé Rodrix logo na entrada. E isso, traduzido em palavras mais concretas, significa dizer que foi marcada por ter encontrado a própria generosidade. Generosidade, sim, no sentido de grandeza, magnanimidade humana. Foi com isso que Zé Rodrix nos contemplou naquela noite e em todas as poucas, mas intensas oportunidades em que a vida me colocou frente a frente com ele. É difícil compreender como tantos atributos podem se harmonizar em uma só pessoa. Talentos múltiplos, personalidade, honestidade, senso crítico e, ao mesmo tempo, uma dose enorme de respeito, gentileza, cavalheirismo e generosidade, muita generosidade.
Minha mãe, se não éramos amicíssimos, passamos a ser agora. E vamos continuar a ser, de agora em diante. E não me venham com contra-argumentos ou obstáculos de qualquer espécie porque gente do porte do Zé Rodrix não se limita por meros conceitos de espaço e tempo.
23 de maio de 2009
Há um sem número de coisas que parecem sobreviver e se manter apenas graças à imaginação das pessoas. Sem querer criar nenhuma polêmica, esses objetos voadores não identificados são um exemplo. Há quem jure que já viu e os mais ousados até afirmam ter viajado neles. Enquanto isso, as autoridades espaciais não confirmam nem desmentem e, então, entra em cena o imaginário popular espalhando à boca pequena que, na verdade, já existem provas de monte, mas não são reveladas para não assustar a humanidade inteira. Quem resiste a uma história fascinante como essa? E o fascínio reside exatamente no misterioso, no não provado. Se amanhã aparecer um sujeitinho de cor esverdeada (nunca entendi porque a eleição do verde para os extraterrestres) com duas anteninhas na cabeça (outro mistério dentro do mistério) pilotando um disco voador (não poderia ser um ovo voador ou um retângulo voador? Porque um disco?) e resolver pousar e dar uma coletiva em cadeia mundial, é capaz de não sustentar audiência por mais que uns quinze minutos. E vai estragar todo um enredo que vem acalentando e povoando os sonhos do pessoal há séculos.
Zé Hercilio é meu amigo de muitos anos. Assim como eu, chegou recentemente à faixa dos 60. Por mais que digam que a medicina de hoje está avançada a ponto de levar um individuo a casa dos 80 ou 90 com excelente qualidade de vida, só quem chega a barreira dos 60 é que consegue visualizar a coisa com clareza. Afinal, nós, atuais sessentões viemos de um tempo que chegada a barreira dos 60, o que viesse depois era lucro. É difícil não chegar nessa etapa sem a carga cultural trazida de tanto tempo. Portanto, essa maravilha toda prometida para depois dos limites da chamada terceira idade, só vendo pra crer e, olhem, acho que vamos ver sempre com um pezinho atrás.
Dizem que a vida imita a arte. Pode ser que seja verdade, mas, qual delas? Afinal, arte é o que não falta, ainda que poucos sejam os verdadeiros artistas. Música, pintura, literatura, qual delas a vida costuma imitar? A minha resposta vai para o teatro. Por quê? Porque é no teatro, acima de qualquer outra forma de arte, que se destacam os papeis. Os atores representam personagens ou, em outras palavras, representam seus papeis. Os personagens, por sua vez, também significam diferentes papeis no contexto da trama, seja ela uma comédia, seja um pesado drama, seja um musical.
Desde os meus tempos de escola básica (chamava-se curso ginasial) sempre me intrigou aquela história de as paralelas se encontrarem no infinito. Para fazer justiça, é claro que isso foi só uma das milhares de outras coisas do mundo das ciências matemáticas que me punham louco.
Há umas tantas noites minha mulher e eu fomos ao teatro. Coisa boa demais. Ir à balada durante a semana é a melhor vingança. Uma amiga de minha filha, além de advogada também é atriz e estava atuando em uma peça extraordinária chamada A SENHORA DOS AFOGADOS. Texto de Nelson Rodrigues, um roteiro musical de primeiríssima linha, arranjos muito bem feitos, um desempenho emocionante dos atores que também cantam durante o trabalho, tudo foi encantador. A peça estava em cartaz no Centro Cultural de São Paulo.
Que importância tem se já existe no teu rosto uma ruga ou outra? Eu também já não tenho os mesmos olhos para enxergá-las. Hoje eu vejo muito mais com o coração do que com os olhos. E o coração está cada vez mais acurado.
“Dois motoqueiros hippies viajando pelos Estados Unidos de motocicletas em busca de uma grande partida de cocaína. Era Sem destino (Easy Rider, 1969) um pequeno filme de estrada, que mudaria Hollywood para sempre, sintetizando os medos e as esperanças dos anos 60. No lugar de John Wayne ou Gary Cooper, ali estavam eles, vivenciando plenamente a liberdade na estrada
O meu novo escritório fica em São Bernardo do Campo, bem perto de onde moro. Nunca pensei que fugir do trânsito de São Paulo fosse tão bom. É engraçado como, aos poucos, a gente vai se acostumando com tudo. Durante anos a fio eu fiz esse percurso diário. Cerca de 25 quilômetros de ida e outro tanto para voltar. Nada muito significativo sob o ponto de vista de distância. Mas, o tempo gasto é simplesmente bizarro. Habitualmente, esses 25 quilômetros eu os percorria em uma hora e meia, embora pudesse chegar à marca das duas horas com facilidade. Pois isso eu fiz durante muitos anos sem muita consciência do quanto é estressante, alucinante, enlouquecedor. No entanto, bastou iniciar meu processo de mudança de hábitos gerada pela perspectiva da aposentadoria e o tal trânsito se tornou simplesmente insuportável. Na verdade, ele é mesmo insuportável, mas como também não se tem como evitar, o nosso psiquismo ou equipamento emocional parece criar uma defesa interior. É como se fôssemos diariamente anestesiados para enfrentar tamanha insanidade.
A grande maioria de nós sofre de uma quase compulsão por registrar momentos felizes por meio de câmeras fotográficas ou filmadoras. Ainda mais agora, que os celulares fotografam e filmam com perfeição, nada mais escapa desse nosso terceiro olho que são as lentes. Em qualquer lugar que se vá, lá estão as maquininhas capturando tudo, reduzindo tudo a pixels, bitmap, jpeg e outras siglas misteriosas que, magicamente, se transformam em lindas imagens na tela do computador ou da própria televisão. E graças a um mundo de recursos e truques, até mesmo o que não é tão lindo assim acaba se tornando. Ou alguém nunca ouviu falar dos “photoshop” que transformam matronas e patronos em saltitantes e juvenis espécimes da raça humana?