“Dois motoqueiros hippies viajando pelos Estados Unidos de motocicletas em busca de uma grande partida de cocaína. Era Sem destino (Easy Rider, 1969) um pequeno filme de estrada, que mudaria Hollywood para sempre, sintetizando os medos e as esperanças dos anos 60. No lugar de John Wayne ou Gary Cooper, ali estavam eles, vivenciando plenamente a liberdade na estrada. “(Sem destino (Easy Rider) – Lee Hill – Cinema, 104 páginas – Tradução: Pedro Karp Vasquez”. Aí está uma curta sinopse que dá uma pálida idéia do que foi esse filme que acabou virando uma espécie de símbolo, de hino da liberdade total, do completo desapego às regras, aos compromissos, aos preceitos da sociedade. Lá pelos idos dos anos 60 e 70 essa idéia de viajar sem destino fascinou toda uma geração de jovens, ávidos de quebrar regras e não viver mais como os país, dando duro no trabalho, cultivando antigos preceitos sociais tidos como asfixiantes. Parecia a inauguração de uma nova era na história planeta e da sociedade humana. E foi, mesmo, só que em muitos outros aspectos. Aquele sentido de liberdade, de vida sem destino, aquele esbarrou em alguns hábitos bem prosaicos, tipicamente burgueses como os de comer umas duas ou três vezes por dia, vestir algo confortável e que protegesse do frio. Apesar de tudo, não se pode dizer que não deixou lá suas marcas na história recente do planetinha e dos protagonistas.
Tirando as drogas, que essas não têm vez comigo em hipótese alguma, essa história de se atirar pelo mundo meio sem destino é fascinante, mesmo. Mas, cá entre nós, é preciso colocar um temperinho nisso. Em Berkeley, na Califórnia, considerada o berço da civilização hippie, ainda é mais ou menos freqüente encontrar uns sujeitos de barbas e cabelos longos, só que brancos, dirigindo carrões coloridos, ao mais fiel estilo psicodélico. É pitoresco, sem dúvida, mas depois que eu descobri os hotéis e os carros com ar condicionado, não me sinto muito tentado a meter o pé na estrada de qualquer jeito. E a parceira, nesse ponto, fecha comigo e não abre. Foi por isso que a nossa aventura sulina teve uns “quês” de “Easy rider”, mas sem exageros. Acho que até já fiz esta observação: quem é que vai sair pelo sul do país afora em pleno inverno no estilo “procurando caçapa”? Com todo o respeito pelo carisma da dupla e seu significado sócio-histórico, acho que nem os dois protagonistas do “Sem Destino”. Até porque, sair na aventura com a infra-estrutura de Hollywood não é tão intrépido assim. Nós, dupla tupiniquim e já um tanto passada daqueles tempos, fomos na certeza. Mas, desde os rubros vales do vinho até o desvario da paulicéia, resolvemos nos encapetar e vagar pelas ondas do fácil galopador (tradução mais ou menos literal e que, como qualquer outra do gênero, fica bem idiota). Em outras palavras, depois de abençoados pelos fluídos de Bento Gonçalves, resolvemos que a volta seria ao Deus dará. E Ele deu.
O percurso entre o Vale dos Vinhos e Antonio Prado, o cenário do “Quatrilho” pode ser uma linha meio reta ou cheia de reentrâncias e saliências. Seria mesmo preciso passar por Farroupilha? Segundo o mapa, não. Mas, sem passar por lá, adeus ao Santo Ventoso. Aí, nada de passar praticamente por baixo de uma cachoeira, exatamente o lugar onde o casal de atrevidos adúlteros do “Quatrilho” se beija pela primeira vez. E ficar ali, pensando nessa grandeza toda que a mãe natureza espalha por aí sem qualquer comedimento. E também não seria necessário desgarrar para Flores da Cunha, um mimo de lugar. Sabe aquele soninho gostoso que bate depois do almoço de um dia forte de calor? E sabe aquela rede que fica na varanda em frente à sala de almoço grande, colonial, piso de madeira que range um pouco quando se anda, como se cantasse uma cantiga secular? E sabe aquele olhar desmaiado que a rede joga sobre a gente logo depois do almoço, convite lascivo para nos deitar e nos deixar ficar tempo afora? É assim que Flores da Cunha nos olha, É assim que ficamos com vontade de nos deixar ficar por lá. Ali a calma se materializou para durar mais tempo que um carvalho. Mas também é por lá que se encontra uma garotinha de seus 17 anos que nos vai ciceroneando por uma das grandes vinícolas da cidade e que nos conta que até pouco tempo antes nada sabia sobre vinhos. Mas decidiu que era hora de buscar um trabalho e foi conquistar o seu, lá mesmo, na vinícola cheia de gente antiga e ciosa de seus conhecimentos adquiridos ao longo de décadas e gerações. Talvez os solenes senhores da vinicultura não tenham contado com aquele pequeno azougue, criança buliçosa que saiu aprendendo de tudo e que já sonha em se lançar para o mundo.
Essas coisas estão espalhadas por aí como flores nativas prontas para serem colhidas. É só sair mais ou menos como os dois motoqueiros do filme, só que sem precisar se sujar com porcarias, bobagens e drogas. E Antonio Prado que ainda não chega. Alguém nos disse que por lá não há nada que não se possa ver por mais de quinze minutos. É possível que se consiga olhar tudo nesses quinze minutos. Já, ver o que há por lá talvez exija um pouco mais de tempo. Afinal, os olhos são apenas um dos vários sentidos que são necessários para ver certas coisas. E a gente foi com 5 ou mais deles. O caminho de volta promete.