Publicado por: bellinilima | Março 14, 2009

VAGAS PARA CARROS DE GRANDE PORTE

who-cares-alterado-e-reduzido-2O meu novo escritório fica em São Bernardo do Campo, bem perto de onde moro. Nunca pensei que fugir do trânsito de São Paulo fosse tão bom. É engraçado como, aos poucos, a gente vai se acostumando com tudo. Durante anos a fio eu fiz esse percurso diário. Cerca de 25 quilômetros de ida e outro tanto para voltar. Nada muito significativo sob o ponto de vista de distância. Mas, o tempo gasto é simplesmente bizarro. Habitualmente, esses 25 quilômetros eu os percorria em uma hora e meia, embora pudesse chegar à marca das duas horas com facilidade. Pois isso eu fiz durante muitos anos sem muita consciência do quanto é estressante, alucinante, enlouquecedor. No entanto, bastou iniciar meu processo de mudança de hábitos gerada pela perspectiva da aposentadoria e o tal trânsito se tornou simplesmente insuportável. Na verdade, ele é mesmo insuportável, mas como também não se tem como evitar, o nosso psiquismo ou equipamento emocional parece criar uma defesa interior. É como se fôssemos diariamente anestesiados para enfrentar tamanha insanidade.

Essa forma de defesa é bastante saudável. Se não fosse isso, acho que ninguém escaparia do manicômio, se é que já não estamos nele. No entanto, existe um efeito colateral: o de acabar entorpecendo a nossa consciência, a nossa capacidade de discernir sobre o que é aceitável ou não, mesmo quando se trata de coisas sobre as quais nós temos, sim, como interferir e atuar. Um exemplo disso é o péssimo hábito que muita gente conserva de despejar sujeira na rua. Quem é que já não viu alguém fazer sua faxinazinha dentro do carro e jogar pela janela todo o produto do seu asseio pessoal? O carro fica tinindo de limpo e a rua vai ficando cada vez mais aquela imundície de fazer a gente morrer de vergonha. E de raiva. Será que o sujeito que age assim é um malfeitor nato? Será uma criatura perversa tirada de um conto da carochinha, daquelas que conservavam a princesa guardada numa torre de castelo até que o príncipe a viesse resgatar? Às vezes parece. Mas o problema é que não é assim. Normalmente é um sujeito comum que simplesmente perdeu a capacidade de discernir, de pensar no que faz. É claro que isso não diminui a sua responsabilidade e nem faz com que a gente deixe de ter aquela vontade íntima de fazer o sujeito engolir o que atirou pela janela. Mas o problema é que se o tal ou a tal fossem uma daquelas criaturas malévolas, bastava chamar um super-herói qualquer e tudo se resolveria. Não é assim. É mais grave. Os tais  ou as tais não passam de pessoas com quem se convive diariamente e que simplesmente parecem ter perdido a sensibilidade, a capacidade de refletir sobre os limites de suas atitudes.

Aqui no prédio do meu escritório existem três andares de garagem. A primeira é destinada aos visitantes e as duas outras são para servir os condôminos. Como qualquer estacionamento de prédio, espaço é o que não sobra. Os funileiros é que adoram. Até acho que há um conluio secreto entre esses profissionais e os engenheiros e arquitetos que projetam as garagens dos edifícios. Pois exatamente por conta da falta de espaço, a administração do condomínio procurou reservar algumas vagas, as maiores, para os carros de maior porte. Não é obrigatório, não se trata de vagas reservadas. É apenas uma sugestão do condomínio. Nessas vagas maiores está escrito que “se destinam preferencialmente a veículos de grande porte”. Pois, dia desses, lá vinha eu chegando. O estacionamento estava quase vazio, muitas vagas a disposição, dentre elas as tais, destinadas “preferencialmente” aos veículos de grande porte. Eu estacionei o meu carro, que não é de grande porte, numa vaga comum. Bem atrás de mim chegou um cidadão dirigindo um carro de pequeno porte. Pois o cavalheiro não pestanejou. Foi direto para uma das vagas grandes, onde sobrava espaço para o seu miúdo. Estacionou, desceu, trancou o automóvel e foi-se embora sem o menor resquício de constrangimento.

Não sei quem é o distinto, mas suponho que exerça sua profissão aqui no prédio. Muito seguramente não é um marginal, um indivíduo nocivo, um perigo potencial para a comunidade. É apenas mais um sujeito a quem nem remotamente ocorre pensar que alguém poderia chegar ao estacionamento com um veículo grande e teria dificuldade de estacionar, coisa que, para o seu acanhado meio de transporte, não seria qualquer transtorno.  Imagine que ironia se, amanhã, ele mesmo comprar um carrão?

Nesses momentos eu me lembro daquele suíço amalucado, o tal Rousseau (também achava que era francês, mas é suíço), que vivia pregando que o homem é um animal social. Alguma coisa não está batendo. Ou o suiço era um maluco ou ninguém avisou o tal animal social que ele é isso. Sim, porque anda cada vez mais difícil conviver com a galera. Tivesse eu a ousadia de dizer alguma coisa ao meu colega de condomínio e possivelmente me envolveria em uma briga. Ele reagiria indignado com o meu atrevimento e bisbilhotice, e eu teria que ouvir que aquilo não era da minha conta. Realmente, da minha conta não é. Mas deveria ser da conta dele. Sim, porque o que deixa de ser da conta do autor da ação, passa a ser da conta da autoridade policial ou coisa parecida. E, por conseqüência, da conta de todo mundo. Então, como fica a natureza do homem, o animal que deveria ser naturalmente social, mas só se comporta assim quando a polícia está por perto?

É.  Eu preciso parar de pensar. Isso vai acabar me deixando de cabelo branco ou de olho roxo. Além do mais, essa história de pensar parece que anda completamente fora de moda.


Respostas

  1. Bellini: Belo texto. Há uma lembrança sobre cidadania, nesse texto. Recordei-me de um fato ocorrido há poucos dias. Estava eu no estacionamento de um Shopping (em Itaquera, bairro da Zona Leste de São Paulo), procurando, sem sucesso, uma vaga que ficasse mais perto de uma das entradas do referido recinto. Não por comodidade apenas pessoal, mas porque ao meu lado estava minha mãe, com 86 anos e com a saúde andando aos trancos e barrancos. O Shopping em questão é grande e moderno. Está acoplado ao Poupatempo do bairro e aos terminais de Metrô, trem e ônibus. E o estacionamento tem um tamanho para ninguém botar defeito, embora seja inteiramente na horizontal. Se estacioanr o carro longe da entrada, o caminho é longo até chegar lá. E há um número razoável, atendendo a lei, de vagas para idosos e deficientes. Nunca vagas, infelizmente. E naquele dia, mais uma vez, nenhuma vaga. Pensei comigo mesmo: os velhinhos (e os deficentes) estão todos contentes e fagueiros passeando no Shopping hoje. Ledo engano. Fiquei parado alguns minutos e logo vi, na outra fileira de carro (também para idosos), chegar um idoso de mais ou menos 30 anos, entrar no carro, dar a partida e ir embora, numa “boa”. Antes que eu tivesse agilidade mental e física para ligar o motor e tentar pegar aquela vaga, um outro idoso, esse por perto de 25 anos, com a companheira idem, o fêz. É um mau elemento, como perguntaria o Bellini? Não. Apenas um cidadão, ops!, apenas um sujeito onde no cerébro jamais passou uma lição sobre cidadania. Se não passou pelo cerébro, com certeza não está também no canto escondido do coração (acompanho a teoria de que tudo passa pelo cérebro antes, mesmo a mais tórrida paixão). E fiquei pensando comigo mesmo, até porque não está adiantando muito entabular conversas sobre grandes questões com minha mãe, atualmente. O Shopping em questão, e creio que os outros também, cumpriu a lei, isto é, deixou vagas à disposição para idosos e deficientes (e para mulheres grávidas, também, quase esqueço). Mas apenas fez isso e pensa que sua parte está feita. Fiscalizar o bom uso da vaga, creio que já não está mais nas suas obrigações, devem pensar os representantes desses centros comerciais. Estou pensando em levar esse assunto ao ilustre “parquet”, aquele do Ministério Público, para ver se essa matéria nada banal talvez se caracterize como um direito difuso. O que voce acha?

    Gentil Gimenez


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias