Publicado por: bellinilima | Março 27, 2009

CARA FEIA É FOME

going-to-jail-reduzidaHá umas tantas noites minha mulher e eu fomos ao teatro. Coisa boa demais. Ir à balada durante a semana é a melhor vingança. Uma amiga de minha filha, além de advogada também é atriz e estava atuando em uma peça extraordinária chamada A SENHORA DOS AFOGADOS. Texto de Nelson Rodrigues, um roteiro musical de primeiríssima linha, arranjos muito bem feitos, um desempenho emocionante dos atores que também cantam durante o trabalho, tudo foi encantador. A peça estava em cartaz no Centro Cultural de São Paulo.

 

Como éramos seis pessoas, estávamos em dois carros. Eu com meu bravo Corolla 2003 e um casal de amigos num Senic. Estacionamos em frente ao Centro Cultural, na Rua Vergueiro. Assistimos a peça, esperamos a saída dos atores para cumprimentar a nossa amiga (e, cá entre nós, “tietar” um pouco, que ninguém da minha geração conseguiu se livrar totalmente da Revista do Rádio). Chegamos ao estacionamento por volta de umas 11.30 horas. Aí começou o segundo ato.

 

Havia ocorrido uma espécie de arrastão. Cinco bandidos haviam invadido o estacionamento e roubado quatro veículos. O meu Corolla até foi alvo da cobiça dos infelizes, que, por sorte, não conseguiram manejar o câmbio automático. Tenho uma amiga que costuma dizer que, às vezes, a ignorância é uma benção. Endosso plenamente suas palavras. No entanto, tanto o Senic do casal de amigos, quanto o carro da nossa amiga atriz não estavam na lista de proteção do anjo da guarda de plantão e foram levados pelos ladrões.

 

Instalou-se o alvoroço, não antes, é claro, da indefectível incredulidade. “Como, meu carro foi roubado? Tá de sacanagem.” “Dentro do estacionamento???” . Passada a já protocolar fase da incredulidade e a do alvoroço, veio a etapa das providências: ligar para a policia, para os parentes, para o seguro. Felizmente não havia nenhum mal humorado no grupo. Coincidência um tanto rara e, por isso mesmo, extraordinária. Ao contrário, foi-se estabelecendo uma espécie de cumplicidade como se todos tivessem resolvido se unir para desmoralizar o azar e o crime. Ah, roubaram? Pois, dane-se. Vamos rir de tudo e de todos. Quero ver quem pode contra o riso”. Imagino que se os ladrões pudessem imaginar que a nossa reação seria essa, ou se sentiriam ofendidos com tamanha falta de respeito ou, quem sabe, até fossem procurar vítimas que soubessem se comportar de maneira mais convencional e digna diante de um assalto. Já não se fazem vítimas como antigamente. 

 

Uma das minhas primeiras surpresas foi constatar que, por unanimidade, todos os veículos roubados, bem como o próprio estacionamento, tinham seus seguros com a Porto Seguro. Passado o impacto inicial, o espanto e um outro palavrãozinho, foi aquele mar de telefonemas para o 333 Porto. Eu não pude deixar de me lembrar do porteiro que indica o endereço a todo mundo, menos a gostosona toda ensaboada a quem ele vai atender pessoalmente. Não houve esse incidente, mas também não houve como não lembrar tanto dele quanto, especialmente, dela. 

Dois dos veículos tinham rastreadores. Os outros dois, um pouco mais antigos, não tinham o equipamento. Lá ficamos por cerca de uma hora, já com a presença da policia que, diga-se, foi muito solícita e atenciosa. Nesse ínterim, um dos veículos rastreados já foi encontrado pelos agentes da Porto Seguro. Como era inevitável, lá fomos todos para a Delegacia. Já passava de meia-noite, mas o clima de bom humor tomou conta daquele pequeno grupo de vítimas e acompanhantes. E acho que o astral da turminha acabou contagiando os policiais que também transitavam entre nós com muita desenvoltura, respondendo com gentileza a todas as perguntas, prestando esclarecimentos. Até o Dr. Delegado, que a principio ensaiou uma atitude mais severa e a tentação de afivelar uma máscara de sisudez, acabou afrouxando a gravata e descobriu que o melhor era entrar no cordão dos bem humorados. Engatou-se uma conversa que mais lembrava um churrasco de sábado à tarde.

 

O carro do casal de amigos também foi rastreado pelo pessoal da Porto. As outras duas vítimas, a nossa amiga atriz e uma outra moça que, por sinal, também é atriz, não foram encontrados. O guincho da Porto foi acionado para remover o veículo do casal de amigos pois as chaves desapareceram. Alguém até perguntou por que, diabos, os sujeitos haviam levado as chaves. Ora, pensei comigo, com tamanha falta de respeito pela solenidade de um assalto, o que se poderia esperar? Da próxima vez, nós que nos comportássemos com mais respeito e menos deboche e, quem sabe, o meliante fosse mais gentil. 

 

Ficamos na Delegacia até as 3:00 horas. Os policiais fizeram os boletins de ocorrência e, em seguida, os autos de liberação dos dois veículos recuperados. Não houve quem não destilasse uma gozação sobre a necessidade se fazer o Boletim dos dois carros recuperados. Ora, se já encontraram, para quê registrar? Bem, a noticia já estava correndo entre os policiais da região. Agora imagine o motorista de um desses dois carros sair lépido e fagueiro com seu possante e ser gentilmente parado numa barreira com mimosas metralhadoras apontando para sua carinha espantada. Até o bom humor corria o risco de desaparecer. Que se cumpram os trâmites. 

 

Prá dizer a verdade, foi tudo memorável. Em dado momento havia um grupo composto só pelas nossas mulheres (esposas e amigas) se fotografando na porta do posto policial. Se eu tivesse que complementar a cena com um fundo musical, escolheria o DE FRENTE PRO CRIME, do João Bosco e Aldir Blanc, que fala de um corpo caído no chão e o pessoal em volta discutindo futebol, um camelô vendendo anel, cordão, perfume barato, um bar mais perto que depressa lotou, um sujeito que subiu na mesa e fez discurso para vereador. Enfim, uma verdadeira festa improvisada. Para completar, o pessoal do guincho da Porto distribuiu a todos os presentes, um lanchinho mito honesto que, àquela altura da madrugada, mais parecia um requintado banquete. Até os valorosos soldados da lei fizeram uma boquinha. Êta, coisa boa! .

 

Pouco depois, dando-se os trâmites for findos, a Porto providenciou táxis para as duas moças cujos veículos não haviam sido encontrados e nós, os demais, tomamos o caminho da roça no meu intrépido Corolla, salvo da sanha da criminalidade graças a abençoada ignorância do malfeitor.

 

Algumas lições: ninguém está a salvo de coisa alguma nesta cidade, mas a gente já está tão acostumado com isso que não faltaram os agradecimentos de todos pelo fato de só terem levado os carros. Como se isso fosse aceitável. A gente pode viver um episódio assim de várias maneiras. Nenhuma delas vai mudar coisa alguma. Assim, fica a critério de cada um entrar numa freqüência de ódio contra a sorte ou se sentir o mais infeliz dos viventes. A nossa escolha foi o bom humor. Também não mudou em nada a situação, mas, ao menos, garantimos o terceiro ato da peça teatral no tom da comédia. Nelson Rodrigues que nos perdoe.

 


Respostas

  1. Bom humor: eis a chave de tudo. Quando falo das gracinhas que fazem com nossos times é a isso a que me refiro: humor.

    Na verdade, quem briga em estádio, que incita torcidas a brigar e matar, dirigentes a jogar copos, é também a falta desse ingrediente mágico e que tem andado em falta em nossas prateleiras: o humor !

    Quem dera todos fossem assim, tão de bem com a vida, que até diante de um fato triste, tem ainda a capacidade de rir de si mesmo, de sorrir.

    O mundo está mais a necessitar de humor mesmo.
    Parabéns Doc!

  2. Caro Dr Causídico –
    Roubar um Corolla já seria um ultraje. Roubar meu amigo Papai Noel seria o maior de todos. Fico imaginando a sra Noel desfilando toda sua simpatia e bom humor em frente a Delegacia que nessas alturas do acontecimento já tinha virado samba do crioulo doido ao som de tamborins e reco-recos e entre uma cervejinha e um petisco histórias hilárias de uma Delegacia de Policia.
    Caro Bellini – fazer o que? Nesse País aonde o mais dificil é achar o mocinho do filme …

    Antenor Giovannini

  3. “A Vida é uma Comédia”, de Fábio Moraes e, como um dos personagens (ou uma), Edicreuza. Mas pode ser de qualquer autor e ter qualquer personagem.

    Gentil Gimenez

  4. É essa capacidade de rir da nossa desgraça que faz a gente suportar melhor esse cotitidiano por vezes cruel. Belo relato!


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