Desde os meus tempos de escola básica (chamava-se curso ginasial) sempre me intrigou aquela história de as paralelas se encontrarem no infinito. Para fazer justiça, é claro que isso foi só uma das milhares de outras coisas do mundo das ciências matemáticas que me punham louco. Também sofri verdadeiros suplícios diante das equações e cálculos de todo gênero. E se havia alguma coisa que despertava os meus instintos mais assassinos era aquele “CQD” dito com toda naturalidade pelos professores ao final de um teorema. “Como queremos demonstrar” Ora, o que é que se poderia querer demonstrar com aquela imensidão de números, letras e sinaizinhos? Mais raiva, ainda, me dava a falsidade de expressão da maioria dos meus colegas, com aquelas caras tranqüilas e serenas de quem havia entendido aquilo tudo e que tudo fazia todo sentido. Mas as tais paralelas, andando separadas pela eternidade afora e, de repente, se encontrando num lugar impossível de se imaginar, chamado infinito, essas sempre me intrigaram muito.
Reza a lenda que, depois de mais ou menos vinte dias caminhando por aí, sujeitos com residência fixa e ar circunspecto devem retornar ao lar. Não sei que lenda é essa, mas os ecos da tal residência fixa começaram a se fazer presentes. Os adolescentes modernos, esses que mantêm a condição por bem mais tempo, são razoavelmente exigentes. “Vocês não voltam mais, não?” “Mas, afinal, o que está acontecendo?” E mesmo os que já, atendendo aos preceitos bíblicos, deixaram pai e mãe para constituir novo núcleo, essas também não deixam de inquirir, questionar qualquer coisa que, no entender deles, não se ajuste muito bem ao que se espera de um casal mais provecto. Ou, pelo menos, ao que eles esperam. Conclusão: de volta pra casa, a parceira e eu. Meio contra vontade, xingando a tal lenda que fica rezando por aí, reclamando dessa indigesta circunspeção que rotularam na gente, fomos lá de volta ao lar. Mas, também, não foi assim tão tranqüilo. Não entregamos os pontos com essa facilidade. “Quando é que vocês chegam”. “Em alguns dias” foi a nossa resposta rebelde e envelhescente aos nossos adolescentes temporões e caretas.
Depois de pingarmos em vários recantos chegou, afinal, a Antonio Prado, do “Quatrilho”. E não desapontou. É que a nossa expectativa era por um lugarzinho pequeno, simples, com raízes regionais e um pé no passado. Isso é uma fotografia mais ou menos fiel de Antonio Prado ou pelo menos o que a minha câmera modesta conseguiu refletir e registrar. A rua principal, uma pracinha muito bem cuidada, casinhas antigas e com a porta de entrada e janela de madeira dando para a calçada e, uma curiosidade interessante: placas na parede da frente de quase todas as casas contando a história da família que viveu ali. E outra curiosidade também interessante: a maior quantidade de salões de beleza que se encontrou entre todas as cidades por que passamos. Nem de longe imagino porque.
E foi em Antonio Prado que conseguimos, pela segunda vez, nos livrar do automóvel, sair a pé e jantar bebendo um vinho. O restaurante mais recomendado da cidade era, na verdade, uma espécie de bar com jeitão bem familiar, desses em que a gerência, o caixa e a cozinha ficam nas mãos do pai, da mãe e da filharada, quando não tem avôs e avós. Um macarrãozinho de quinta-feira (os de domingo são mais sofisticados) precedido de uma saladinha de alface, tomate e condimentos igualmente domésticos, tudo naquela louça até um pouquinho lascada. E um vinho que, em hipótese alguma, teria o atrevimento de se ombrear com os parentes muito mais nobres da região vinícola mais decantada do país. Mas, o tempero do aconchego, esse foi de enternecer, quase tanto quanto a “mamma” que nos servia quando não era arrebatada pelo fascínio da novela das oito que rolava solta na TV. Eram os últimos capítulos. O preço do jantar não há nem como dizer em público sem faltar com o pudor, de tão pequeno que foi. Antonio Prado é um suspiro de nostalgia, daqueles puxados do fundo do peito e da alma como faziam os velhos italianos que a construíram. E até um friozinho respeitável nos brindou por aquelas bandas.
Mas, a hora chegou e fim é fim. E o caminho de volta sempre parece mais curto. Então, o jeito é encompridar. E nisso a parceira se mostrou uma verdadeira especialista. Antonio Prado a Blumenau, parada para o pernoite e, na manhã seguinte, Blumenau a Paulicéia. Roteiro razoável, distancias equilibradas. E vai que, chegando à altura de Lages, a parceira se lembra de um produto natural tirado a milagroso que ela já havia comprado, mas bem que poderia levar um pouco mais e tudo. A loja era mais ou menos no caminho, que diferença faz uma desviadinha no percurso. Dobramos a direita e fomos parar em São Joaquim, aquela mesma São Joaquim do começo do roteiro, onde fomos buscar neve e só encontramos o tal produto natural. O desvio foi, de fato, coisinha pouca: 80 quilômetros. Tem jeito melhor de quebrar essa escrita de que o caminho de volta sempre parece mais curto? E que sacrifício. Em vez de Blumenau tivemos que fazer a parada numa tal Florianópolis. Argh!!!
O resto foi de acordo com o que não tínhamos planejado, mesmo. E eu continuo intrigado com a história das paralelas. Como é que duas coisas distintas com as linhas das paralelas, podem se encontrar e ainda mais num lugar tão longe? E mais ou menos como o fim e o começo. São simplesmente os opostos. E, no entanto, eles se encontram. Se encontram, sim, posso garantir. É que, quando se trata de uma tarefa com a que estamos concluindo, o fim é meio o começo da seguinte. Lá estão fim e começo se encontrando bem no meio. No meio da nossa vontade de começar tudo de novo, meio que até o fim.
Pé na estrada!!!!!