Publicado por: bellinilima | Abril 15, 2009

QUANDO A VIDA IMITA A VIDA

theater-of-life-reduzidoDizem que a vida imita a arte. Pode ser que seja verdade, mas, qual delas? Afinal, arte é o que não falta, ainda que poucos sejam os verdadeiros artistas. Música, pintura, literatura, qual delas a vida costuma imitar? A minha resposta vai para o teatro. Por quê? Porque é no teatro, acima de qualquer outra forma de arte, que se destacam os papeis. Os atores representam personagens ou, em outras palavras, representam seus papeis. Os personagens, por sua vez, também significam diferentes papeis no contexto da trama, seja ela uma comédia, seja um pesado drama, seja um musical.

 

Papeis, tudo se resume em diferentes papeis. O público, por sua vez, reage diferentemente diante de cada um desses papeis. Normalmente é positivamente sensibilizado pelos heróis de bom caráter, se revolta contra os vilões, é indiferente ou pouco afetado por aqueles papeis mais mornos que, embora compondo a paisagem, tem pouco destaque. Os diferentes papeis determinam, portanto, a posição que cada um dos elementos componentes do teatro vai adquirir aos olhos e coração do público. Consequentemente, será a posição de cada um desses papeis que vai influir mais ou menos na vida social, emocional e cultural dos espectadores.

 

Alguém poderá argumentar: isso equivale a se acreditar no destino. Afinal, o texto encenado pelos atores é produzido por um autor que, a seu critério, determina a natureza e o destaque de cada personagem. Assim, a tal posição de cada personagem já está previamente determinada pelo autor da peça. Nada mais enganoso. E são muitos os exemplos. Quantas vezes já presenciamos espetáculos de teatro em que um personagem originariamente secundário acaba se sobressaindo aos olhos do público graças ao desempenho do ator que o representa? Para dar um exemplo concreto, quando entrou em cartaz a peça “Trair e coçar é só começar” mostrou uma Denise Fraga, atriz de qualidades superiores, levar a sua personagem, uma empregada doméstica, a uma posição de invejável destaque. Quem viu a mesma peça encenada por outras atrizes que ainda não alcançaram o mesmo grau de determinação pode constatar que a personagem não teve o vigor a ela conferido pela incomparável Denise.

 

Aqui, a vida imita a arte. Cada um de nós tem papeis a representar na sociedade, estejamos nos referindo à sociedade como um todo ou aos nossos próprios círculos sociais. Todo o tempo estamos representando nossos papeis. A própria sociedade, ao longo do tempo, tem se incumbido de, tal como um autor de teatro, escrever o texto e determinar a posição dos diferentes papeis. No entanto, é perfeitamente possível e chega a ser comum que um ator, indicado para um papel originariamente tido como menor, acabe dando a ele, seu papel, um destaque significativo enquanto outro, escalado para ser o personagem principal, faça de seu papel uma coisa opaca e insossa.

 

Aí reside a grandeza do homem. Contrariamente ao que pretendem aqueles que defendem o destino, ao homem é possível traçar seu próprio rumo. Basta que não se acomode ao papel que originariamente lhe é entregue, seja lá por quem for.

 

O que será preciso para, então, mudar a característica do papel eventualmente secundário que recebemos? Como fazer para transformar o brilho do nosso personagem quando ele não “está” no papel principal, mas, um coadjuvante? A meu ver, são precisas algumas poucas coisas. A primeira delas é ter respeito ao papel que recebemos e reconhecer sua importância. Tudo é importante. Oscar Niemeyer, o genial arquiteto que projetou Brasília, jamais veria sua obra concluída e materializada não fossem os chamados “candangos”, aquele pessoal humilde e anônimo que levantou as paredes e as vigas, que misturou o cimento e a areia, que instalou os encanamentos e fez as pinturas. Se, antes de tudo, não dermos importância ao papel que estamos desempenhando, certamente ele não ganhará brilho e, aí sim, se tornará um papel abaixo de secundário. É preciso enxergar o nosso papel como parte integrante, essencial e indispensável do contexto e encarnar, incorporar essa importância, se sentir parte do todo, parte imprescindível. 

 

A partir do reconhecimento da importância do nosso papel e de incorporarmos essa importância, o passo seguinte (e quase natural) é que passamos a nos sentir importantes e úteis, tanto quanto o nosso papel. Isso necessariamente vai alimentar e fortalecer a nossa auto-estima e nos impulsionar a desempenhar o nosso papel de maneira vigorosa e eficiente. Com isso ganhamos nós, ganha o nosso papel e ganha o contexto no qual estamos agindo. Se, contrariamente, não reconhecemos a importância de nosso papel e a nossa própria importância ao desempenhá-lo, a tendência é agirmos de maneira burocrática, como que “cumprindo tabela”, sem qualquer preocupação com os resultados finais do contexto no qual estamos agindo. Esse tipo de atitude só nos leva cada vez mais para o terreno da insignificância, da falta de brilho e de sabor.

 

E o que será necessário, afinal, para que nós, atores, transformemos o nosso papel temporariamente secundário em papel de destaque? Talento? Talvez. Honestidade de propósitos? Com certeza. Determinação e aplicação? Com absoluta certeza. O segredo, a chave do mistério, a fórmula milagrosa talvez esteja na conjunção desses dois fatores: HONESTIDADE DE PROPÓSITOS e DETERMINAÇÃO/APLICAÇÃO. O ato que se reveste dessas qualidades está fadado ao sucesso. Seus papeis, ainda que temporariamente secundários, vão se transformar em papeis principais ou, no mínimo, de grande destaque e importância sempre que ele, ator, sustentado por aquela fórmula miraculosa, entrar em cena. Então, o espetáculo assim conduzido será de gala e talvez seja possível concluir que, em vez de a vida imitar a arte, o certo seja que a vida imita a própria vida.


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