Publicado por: bellinilima | Abril 21, 2009

PASSARINHO NA MUDA!

ugly-birdZé Hercilio é meu amigo de muitos anos. Assim como eu, chegou recentemente à faixa dos 60. Por mais que digam que a medicina de hoje está avançada a ponto de levar um individuo a casa dos 80 ou 90 com excelente qualidade de vida, só quem chega a barreira dos 60 é que consegue visualizar a coisa com clareza. Afinal, nós, atuais sessentões viemos de um tempo que chegada a barreira dos 60, o que viesse depois era lucro. É difícil não chegar nessa etapa sem a carga cultural trazida de tanto tempo. Portanto, essa maravilha toda prometida para depois dos limites da chamada terceira idade, só vendo pra crer e, olhem, acho que vamos ver sempre com um pezinho atrás.

 

Acho que conheço o Zé Hercílio muito bem. E ele a mim. Como já somos amigos há muitas décadas, adquirirmos certa prática um do outro. Eu percebo quando ele caminha desafinado e ele mata de cara quando passei do ponto. Zé Hercílio é um sujeito rigorosamente comum. Aliás, é tão comum que chega a se destacar entre os comuns. É um bom camarada, nunca soube que tivesse sido desleal com ninguém, anda na linha como poucos. Por outro lado e dentro da sua natureza de sujeito comum, o nosso Zé Hercílio é desses tipos que não ostentam nenhum talento em especial. Nunca soube que, quando criança ou adolescente, tivesse sido bom esportista. Depois de adulto, posso garantir que não foi. Aliás, nem nunca foi esportista. Também nunca tive noticia que fosse bom jogando sinuca ou baralho, peteca ou fosse lá que jogo fosse.

 

O meu amigo lê jornal, revistas e alguns livros assim como a grande maioria.  Não é e nunca foi um intelectual, mesmo nos tempos em que a juventude achava que era e vivia arrotando sabedoria pelas esquinas, manchando um livro qualquer com o suor das axilas, de onde dificilmente o exemplar saía.  Nem mesmo nesse tempo o Zé Hercílio passava por intelectual ou dono de grande cultura.  Também não tenho noticia que o simplório Zé Hercílio tivesse talentos artísticos que o diferenciassem de alguém.

 

A esta altura alguém poderia concluir que o meu amigo é um idiota completo, quase fronteiriço e me perguntar por que diabos estou escrevendo sobre ele. Não é assim.  Parando para pensar, vamos ver que o Zé Hercílio poderia ser facilmente, um representante fiel de uma grande massa de pessoas que nasce, cresce, vive e morre e compõe o cenário da vida.  Se formos imaginar a vida como uma grande peça teatral, vamos perceber que cada um tem seu papel. Há um autor, um diretor, cenógrafos, sonoplastas, iluminadores, os atores principais, os coadjuvantes, o pessoal da técnica, da limpeza, da bilheteria, uma turma grande, difícil de ser lembrada integralmente sem o risco de se cometer injustiças. E há a platéia, o público que comparece, paga o ingresso, assiste, aplaude, incentiva. A platéia é importante? Com absoluta certeza. E, no entanto, é inteiramente anônima, uma grande massa de gente desconhecida que não se destaca individualmente, mas, apenas, como massa, como público, como platéia. “O público da estréia foi dos melhores”, diria um crítico teatral. Quem compõe o público? Um contingente, maior ou menor, de Zé Hercilios, gente como o meu amigo.

 

Já faz tempo que o meu amigo me confidencia uma queixa da vida: tem, lá com ele, a impressão que as pessoas, principalmente as de sua convivência, estão sempre preocupadas em contestar tudo o que ele diz; Alguma coisa parecida com um desejo de vencê-lo, derrubá-lo, feito uma competição. Eu acho isso bastante curioso porque, pelo que conheço do meu amigo Zé Hercílio, ele é dessas pessoas a quem ninguém poderia ter interesse em vencer. Seria como vencer o último colocado na tabela do campeonato. E o mais curioso é que ele, Zé Hercílio, parece ter consciência de sua condição de ilustre desconhecido e anônimo. Digo isso porque, no meio de suas confidências, ele me diz exatamente isso. Reconhece que é um anônimo por vocação e, então, não consegue entender porque competem com ele.

 

Bem, essa idéia de que competem com o meu amigo é coisa dele. Não sei se isso é verdade ou não. Conhecendo-o como conheço, até acho que isso é coisa da cabeça dele.  Mas, se está na cabeça dele, a coisa existe. É impressionante o tanto de vezes que, durante a vida inteira, cada um de nós acaba vivendo esse tipo de situação. É possível que se formos fazer uma análise mais profunda, vamos acabar descobrindo que uma grande parte dos nossos problemas, queixas, ressentimentos, nem existem de verdade, estão só na nossa cabeça, na nossa percepção. Mas, isso não melhora em nada a situação porque, se estão na nossa cabeça, é como se existissem de verdade. Aliás, existem, mesmo, a ponto de nos incomodar.

 

Também é preciso considerar uma outra coisa: se o nosso Zé Hercílio acha que uma porção de gente age assim com ele, pode ser que haja algum fundo de verdade nisso. E, se for assim, deve haver uma razão para que isso aconteça. Afinal, não acho que ele seja do tipo de gente que acredita que o mundo está errado e só ele está certo. Portanto, o que será que o meu amigo anda fazendo ou sempre fez a ponto de levar as pessoas a reagirem da maneira que ele imagina e sente? Nada vem do nada. Meu caro, será que você não se porta de maneira um tanto arrogante? Será que você realmente se reconhece um ilustre “mais um” ou, no fundo, se acha o máximo e por conta disso age e fala naquele tom professoral que ninguém suporta? Pense, amigão, pense. Dê uma olhada em você mesmo. Você vai me dizer que é difícil e eu reconheço que é. Só que você é quem tem um problema e está se queixando dele. Então, mãos a obra, parceiro ou fique com o seu resmungo e não se queixe. Sempre há um espelho por aí que nos permite enxergar a nós mesmos. Tente prestar atenção nos outros. Deve haver uma porção de gente que se comporta assim e gera o mesmo tipo de reação nos outros. Vai ver que até você mesmo reage assim diante de uma porção de pessoas que você considera arrogantes e que pensam ser as mães da realeza, ou seja, têm o rei na barriga. 

 

Meu caro amigo Zé Hercílio, não sei o que te dizer. Afinal, eu não sou em nada diferente de você e certamente tenho cá os meus enguiços que são só frutos da minha própria cabeça complicada e da minha atitude.  No entanto, se você anda achando que o que você fala acaba sendo objeto de contestação e que as pessoas pegam isso para poder te derrotar, só posso te sugerir duas coisas. Uma delas é prestar atenção em você mesmo e ver se não está fazendo exatamente aquilo que você acha que os outros pensam que você está fazendo. Simples, não é? A outra coisa é: ao menos enquanto você não consegue esclarecer isso tudo com você mesmo, fale menos. Não se esqueça que passarinho na muda, não pia.


Respostas

  1. Dizem que a cara feia da gente é o reflexo da cara do outro. Será? No fundo, no fundo somos todos Zé Hercilio. Abraços, Suely


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