Mais servira se não fora para tão longo amor, tão curta a vida” Para quem não tem lá muito interesse por poesias muito velhas, esse verso foi escrito por Luiz de Camões, um soneto em que narra o amor de Jacó por Raquel, frustrado pelo pai dela, Labão que, em lugar da amada, só lhe concede casar-se com a irmã Lia. O verso, no contexto do poema, exalta o amor interminável do pastor por aquela a quem chama de “serrana bela” e a sua disposição de se dedicar àquele amor ainda mais tempo do que já dedicara. O único impedimento seria o fato de a vida ser curta demais para tão grande amor. Não sou capaz de imaginar se Camões pretendeu que seu verso abrangesse situações ainda mais extensas e gerais que a do amor do pastor por sua serrana. Se pretendeu, conseguiu. Se não pretendeu, atingiu assim mesmo. De que tamanho é a vida quando colocada diante de tudo o que se pode viver e de tudo o que se deixa de viver por conta de nossas próprias atitudes?
No auge dos vinte anos, a vida vai durar pelo menos uns duzentos. E assim mesmo, esse número é absolutamente aleatório porque simplesmente não se consegue vislumbrar que ela possa ter fim. Na medida em que o tempo vai passando, porém, os caminhos começam a se estreitar e vai pintando no horizonte um incômodo prenúncio de que, em algum momento, isso tudo vai acabar. Talvez seja por isso que, no verdor da adolescência e mocidade somos naturalmente impetuosos e sem maiores preocupações com muitos dos nossos atos, pensamentos e palavras. Em duzentos anos é perfeitamente possível refazer, corrigir, consertar qualquer coisa que se tenha feito. Quando a trilha começa a estreitar, essa meia-volta já fica mais difícil, não há muito espaço para manobrar e voltar atrás. Por conta disso tenho pensado muito em alguns dos nossos valores sociais, coisas pelas quais arriscamos a vida e o bem viver. As ofensas são uma delas. É claro que não há como generalizar. Existem algumas que, por mais que se tente, não há como relevar. Mas, boa parte delas pode muito bem ser reavaliada. A começar do conteúdo delas. Será que tudo o que julgamos ofensivo é mesmo assim? Até que ponto não foi alguma coisa dita de forma enviesada, infeliz, um mau uso de linguagem ou até mesmo de atitude e que nunca teve a mais remota intenção de ser ofensiva? Mas o mais comum é não se perder nenhum minuto com essa reflexão. Em vez disso, a coisa é rotulada como ofensa e pronto. E nunca mais tem conserto. Fica guardada nas nossas gavetas e, como qualquer outra coisa, vai deteriorando, apodrecendo, causando mau cheiro. Até mesmo as que tenham tido origem com ofensas, quando arquivadas indefinidamente, por tempo indeterminado, acabam empesteando o ambiente.
Em nome de que se conserva isso tudo? Aí está uma pergunta que eu me faço a todo instante e não consigo achar a resposta. Vamos imaginar que, mesmo passados muitos anos, se consiga dar o troco. Muito bem, o troco está dado. E então? Qual é o próximo passo? O que isso trás de conforto? Será que não seria mais útil para o nosso próprio bem estar se tentássemos neutralizar dentro de nós aquela impropriedade, secar a ferida em lugar de permitir que ela se mantenha aberta, com dor e risco de infeccionar? E o que nos custa manter viva a afronta? Na maioria das vezes o preço é uma boa parte do nosso bem estar pessoal, da nossa própria harmonia interior. Isso tudo se alimenta de nós mesmos, da nossa alegria, da nossa descontração. E, na mesma proporção, essa necessidade de dar o troco, de manter vivo o ressentimento, cobra um preço adicional: uma fatia da harmonia externa, do convívio social, profissional, familiar. No ímpeto de devolver ou de manter as quizilas acaba-se desfechando flechadas em quem estiver por perto. Em suma, o custo de se eternizar o que julgamos um ultraje, uma afronta, uma desconsideração acaba sendo a nossa paz interior e exterior. Vamos viver em guerra, nos ferindo por mais e mais tempo. Afinal, esse “dar o troco” consiste unicamente em retribuir a ofensa, com todos os respingos. Ou seja, vive-se o amargor da ofensa recebida e o da ofensa devolvida. Um jogo, enfim, onde só há perdedores. Se a vida fosse tão longa quanto nos parecia aos vinte anos, isso tudo talvez não fosse um grande problema. Em algum momento se colocaria tudo em pratos limpos e se recomeçaria do zero. Como, no entanto, a conta parece errada, muitas vezes nem dá mais tempo de lavar os pratos. Vamos comendo nos pratos sujos e o que é pior, comendo aquele prato azedo chamado vingança, o pior dos banquetes.
A vida em si, sozinha, já é um grande, um longo amor. O tempo sempre será curto para ela. Jacó nunca desistiu de nenhuma das duas, nem da vida, nem de sua serrana bela. E mais teria feito por elas se o tempo permitisse. Convenhamos, deixar essa riqueza se esvair pelos dedos apenas por conta de dar trocos não parece um desperdício?
Saber escrever e colocar no papel idéias claras, objetivas e de um significado tão profundo é um dom para poucos. A mensagem do texto realmente me comoveu, pois penso exatamente como transmite seus escritos, mas não saberia colocá-los desta forma, nem que passassem muitos anos. É muito bom ler um texto bem escrito e que nos diz muito ao coração, e que representam nssos pensamentos, e onde voce se vê. Magnífico. Obrigado. Odilon
Por: Odilon em maio 20, 2010
às 9:56 pm