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	<title>O DIA NOSSO DE CADA DIA</title>
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	<description>Bellini Tavares de Lima Neto</description>
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		<title>O DIA NOSSO DE CADA DIA</title>
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		<title>LIMITES E FRONTEIRAS</title>
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		<pubDate>Wed, 04 Nov 2009 01:45:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Já ouvi gente dizendo coisas estapafúrdias, mas acho que ninguém supera o meu amigo Zé Hercílio: “Eu não me perdôo por não ter nascido gênio”. Essa ele lascou quando tinha seus vinte ou vinte e poucos anos. Não que o meu caro Z.H. fosse algum curto de cabeça, um desses tipos para quem você conta [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=320&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-321" title="Little helper (Lampadinha) - reduzida" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/11/little-helper-lampadinha-reduzida.jpg?w=154&#038;h=171" alt="Little helper (Lampadinha) - reduzida" width="154" height="171" />Já ouvi gente dizendo coisas estapafúrdias, mas acho que ninguém supera o meu amigo Zé Hercílio: “Eu não me perdôo por não ter nascido gênio”. Essa ele lascou quando tinha seus vinte ou vinte e poucos anos. Não que o meu caro Z.H. fosse algum curto de cabeça, um desses tipos para quem você conta uma piada e precisa explicar depois. Ao contrário, sempre foi um sujeito mais ou menos igual à maioria. Mas exatamente isso é que sempre o matou de desespero. Sei lá porque razão o sujeito resolveu achar que tinha que ser superior à média, Q.I. acima dos 120 ou 130, coisas que distinguem os chamados super dotados. Aliás, apenas para esclarecer, já que essa história de Q.I. já está fora de moda há muito tempo, a siglazinha significava “Quociente de Inteligência”. Já faz um bom tempo que Q.I. quer dizer apenas “Quem Indicou”, coisa muito comum em alguns redutos públicos aqui da “terra brasilis”. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>A vida inteira o meu amigo tem se debatido com esse mesmo e velho tema: não ter nascido um gênio, não ser uma inteligência ou um talento ilimitados. E, talvez por pura ironia dos astros ou deuses, a única coisa ilimitada com que o meu caro Zé Hercílio nasceu e definitivamente tem, são os seus próprios limites. Desde coordenação motora até perspicácia, o meu dileto amigo é limitado na quase totalidade do que faz ou se aventura a fazer. O que não quer dizer exatamente nada de mais. Como já disse, ele não é nenhum fronteiriço, incapaz por oficio, desses que simplesmente se destacam por não conseguiram fazer absolutamente nada direito. Em outras palavras, é um sujeito na média, tem os mesmos limites que a média, só não se confunde com aquela parcela da população que nasceu com talentos ou capacidades diferenciadas. Dia desses ele me contava que estava assistindo a um jogo de futebol pela televisão e, de repente, começou a observar com mais atenção a capacidade dos jogadores de dominar a bola. Alguém dá um chute forte à frente, lá num dos cantos do campo e um outro jogador, apesar de estar em pleno movimento, correndo, consegue dominar a bola que quase cola no seu pé como se tivesse um poderoso imã. “Puxa, eu não consigo fazer aquilo nem com as duas mãos”, comentou o meu caro amigo em tom claramente queixoso. Bem, disso eu sei. Conheço a criatura desde pequeno e sei como era ruim de bola. Sei até que ele só conseguiu jogar no timinho da rua enquanto foi, por uma curta temporada, o dono da bola e do jogo de camisas. Quando seus dois talismãs se acabaram, também terminou sua fase de glória. Não ter nascido bom de bola não é privilégio de poucos. A grande maioria também não tem esse dom. Mas, nem por isso se fica por aí em auto-condenação, se mandando queimar nas chamas do inferno três vezes ao dia. A menos que se seja o meu amigo Zé Hercílio que, para si mesmo, não consegue aceitar menos que ser o melhor em todas as atividades humanas conhecidas e até mesmo nas desconhecidas já que, a qualquer momento elas podem se tornar conhecidas. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Como já disse, não tenho a menor idéia do que possa ter causado isso tanto ao meu amigo como a uma infinidade de gente por aí, que sofre do mesmo mal. Seria o caso de se tentar entender como essas pessoas se sentiriam se, um dia, por alguma conspiração dos astros, elas acordassem com todos os atributos e qualidades pelos quais vivem clamando e por cuja ausência vivem sofrendo. O que faria o meu amigo se acordasse o gênio que vive lamentando não ter nascido ou o talentoso ilimitado que nunca foi. O que faria com isso? Seria feliz, finalmente? Ou será que iria começar a procurar outros defeitos ou incapacidades para se lamentar deles e culpar sabe-se lá quem ou o quê pela ausência? Cada vez me fica mais forte a suspeita de que o segredo da vida pode ser exatamente a capacidade de se aceitar como se é, de se conviver com todos os limites e faltas de talento com que se nasceu. O problema é que pode ser muito fácil dizer isso no plano teórico, mas aceitar é outro assunto. Afinal, quem é que aceita com naturalidade o fato de não ser o sucesso mais exponencial da história da humanidade ou, ao menos, do seu bairro, da sua vizinhança ou cosa assim? Se a chave do mistério é a tal aceitação dos limites, talvez ainda esteja para se descobrir a fórmula mais acertada para conseguir chegar a esse ponto. Enquanto isso não acontece, o que se vê, de um modo geral e tirando os realmente expoentes e os mais sábios que aprendem a conviver com eles mesmos, são dois tipos de pessoas: aquelas, como o meu amigo, que passam a vida se condenando por não terem nascido gênios e os outros que, embora estejam a anos-luz desse brilho, desenvolvem uma incrível capacidade de achar que realmente são o máximo. Será que esses são mais felizes que os primeiros? E os dois seriam mais felizes que os brilhantes de verdade? Sei, não. Só perguntando ao Zé Hercílio, embora não adiante nada porque ele vai dizer que nunca se perdoará por não ter nascido um gênio para ter a resposta. </strong><strong> </strong></p>
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		<title>BICHOS ESTRANHOS</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 17:51:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[“O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. Deve haver alguma razão para que os personagens das cantigas infantis, em grande parte, não sejam os animais charmosos da natureza, mas, isto sim, aquela turminha de segunda. É o sapo, o rato, a barata, só bicho sem prestigio.  Sem prestígio, mas com personalidade. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=317&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-318" title="Happy frogs" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/10/happy-frogs.jpg?w=168&#038;h=168" alt="Happy frogs" width="168" height="168" />“O sapo não lava o pé, não lava porque não quer”. Deve haver alguma razão para que os personagens das cantigas infantis, em grande parte, não sejam os animais charmosos da natureza, mas, isto sim, aquela turminha de segunda. É o sapo, o rato, a barata, só bicho sem prestigio.  Sem prestígio, mas com personalidade. Veja o caso do sapo. Apesar de morar na beira do lago, como continua esclarecendo a cantiga, e ainda acabar ouvindo exclamações pejorativas acerca do odor de seus simpáticos pezinhos (“mas, que chulé!”), ele simplesmente não lava o pé e pronto. Por que não quer. Isso é ou não é personalidade? </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Registrada a dúvida sobre a escolha dos bichos nas cantigas infantis e consignada a inquestionável personalidade do batráquio não muito afeito aos ditames da higiene, cumpre deixar claro que, disso tudo, pouco ou nada se aproveita, exceto a ponderação relativa a se fazer as coisas por que se quer.  É o caso de um grupo de senhores, já integrantes do chamado clã da terceira idade que resolve, mais ou menos às pressas, se reunir bem no meio da semana, noite de um dia útil e véspera de outro, para se entregar aos prazeres de um jantar.  Mais precisamente, meia dúzia de sujeitos consegue arrastar as respectivas parceiras para se reunirem num restaurante numa noite em plena metade da semana. Nem todas elas, as parceiras, se conhecem. Já eles, ao contrário, se conhecem de longa data. É que um deles, que vive do outro lado do país, resolveu dar um pulo até as bandas do sul para cuidar de uns negócios. Avisou os demais rigorosamente em cima da hora. Aí, celulares e e-mails entram em ação e pronto: lá estão os doze cavaleiros e cavaleiras reunidos em volta de uma távola retangular já que redonda é bem mais difícil. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Mas, afinal, o que há de tão surpreendente em seis casais se reunirem no meio da semana para um jantar, mesmo que tudo se organize de improviso? Na verdade, nada de extraordinário. E, sendo assim, por que todo esse palavrório em torno de um fato tão corriqueiro. Bem, aí é o caso de se pensar porque apenas episódios inusitados merecem ganhar uma descrição ou registro. Afinal, no balanço geral, do que mais a vida é composta: de situações raras ou do prosaico cotidiano? Nem é preciso responder. Então, porque não dar destaque a um momento do cotidiano? Sobretudo porque há nessa história uns pontos, não menos prosaicos e cotidianos que talvez mereçam ser lembrados. De onde será que vem a ligação desses senhores? Serão amigos de longa data que viveram uma infinidade de situações, enfrentaram tempestades e batalhas juntos? Monteiro Lobato, em um de seus contos magistrais, descreve duas velhas que passam a vida juntas e, ao ensejo da morte de uma delas, sente-se a falta da outra no velório. E, perguntada sobre porque não tinha estado no enterro da sua grande amiga, ela esclarece que, na verdade, não eram amigas porque nunca haviam chorado juntas. Não, esses senhores, na verdade, nunca choraram juntos nem lutaram lado a lado contra algum inimigo comum. </strong></p>
<p><strong>O que os une é o fato de haverem dedicado a totalidade ou quase a totalidade da vida profissional à mesma organização. Pois é, um bando de ex-empregados da mesma empresa, agora no doce ofício da aposentadoria. Enquanto estiveram debaixo do mesmo patrão, não foram de se aproximar além dos limites da própria organização a que estiveram filiados. E, como colegas de trabalho, é mais do que certo que, em algumas vezes, estiveram em trincheiras adversárias, se desentenderam, conflitaram como é normalíssimo dentro das corporações. E não é que, transcorrida essa etapa da vida, começa a aflorar essa ligação sem compromissos ou propósitos outros que não a própria ligação por si mesma? E também é interessante notar como as desavenças de antes, os conflitos de interesse que seguramente aconteceram, podem ser superados pelo santo remédio da maturidade. Não quer dizer que necessariamente seja assim. Isso tudo costuma gerar ressentimentos. E ressentimentos costumam ser resistentes ao tempo e ao esquecimento. Às vezes essa parece ser a regra. Mas, se for, sempre resta o consolo das exceções, as tais que existem para que existam as regras. Há de haver muitas outras pessoas que, tendo que escolher entre manter as divergências ou deixá-las de lado em troca de construir um grupo agradável, que consegue se enternecer e se emocionar a ponto de se reunir às pressas (coisa mais comum e usual aos jovens cheios de energia), fazem a opção pela segunda hipótese. E aí, se dão muito bem porque os ressentimentos têm um gosto amargo enquanto o cabrito que o tal grupinho enfrentou no improvisado encontro, disseram que estava divino. Isso sem contar as fofocas e piadas sobre os velhos tempos, as gozações mútuas, além, é claro, dos inevitáveis comentários e avaliações sobre planos de saúde e bons hospitais, tema recorrente e contumaz no clima da terceira idade.  Não precisa nem de sobremesa.</strong></p>
<p><strong>E o sapo que não lava o pé? Pois é, não lava porque não quer, porque resolve que é chegada a hora de fazer aquilo que deseja e não se prender mais a dogmas, crenças ou convenções. Feito os velhinhos aí de cima, que vão ao encontro marcado de última hora somente porque é isso que queriam. Coisas desse cotidiano que não costuma merecer destaque ou atenção de ninguém importante, que não vai para as colunas sociais, nem vai preencher as estantes de nenhuma biblioteca, mas que faz a vida ficar boa como morar na beira do lago. </strong></p>
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		<title>FALTOU ESPAÇO NA SALA</title>
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		<pubDate>Mon, 12 Oct 2009 17:11:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Decerto há de haver uma razão para que eu não consiga pensar no meu pai com tristeza. Ou, quem sabe, mais que uma razão, duas, três, várias. O que vale, no entanto, não é saber contar, é saber entender cada uma delas, sejam lá quantas forem. Vida fácil, isso ele não teve. Isso eu posso [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=313&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="alignleft size-full wp-image-314" title="No room for sadness - reduzida" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/10/no-room-for-sadness-reduzida.jpg?w=150&#038;h=150" alt="No room for sadness - reduzida" width="150" height="150" />Decerto há de haver uma razão para que eu não consiga pensar no meu pai com tristeza. Ou, quem sabe, mais que uma razão, duas, três, várias. O que vale, no entanto, não é saber contar, é saber entender cada uma delas, sejam lá quantas forem. Vida fácil, isso ele não teve. Isso eu posso assegurar.  Quanto mais buscou quase com febre um sucesso profissional e financeiro atrás do outro, mais conheceu tropeços, mais topou com as portas fechadas, mais experimentou o sabor de não chegar em primeiro, gosto amargo especialmente num país onde o vice é só o primeiro dos perdedores. Vagueando hoje no sentido anti-horário eu consigo voltar lá longe nos meus sete anos de idade, quando comecei a perceber seus esforços em busca de águas calmas e seus momentos de reflexão sobre as voltas da maré, movimento que mais conheceu enquanto navegou. As noites quentes na Rua Cardeal Arcoverde no. 105, a casa em completo silêncio e semi-escuridão, ele, cabelo começando a embranquecer, sem camisa, debruçado na janela que dava para a rua, bem em frente ao cemitério do Redentor, fumando mais do que devia e olhando além dos muros altos com um olhar que me assustava. E eu apenas o vigiava, acordado e escondido, estômago doendo de medo de que o desânimo tomasse conta dele e ele pudesse resolver que o melhor, mesmo, era atravessar a rua e se reunir àqueles vizinhos solenes e silenciosos.  Qual o quê, receio de criança, de quem ainda não tinha convivência suficiente com aquele tipo meio caboclo, mistura de mineiro com espanhol nascido no interior da sua amada São Paulo e que, desde muito jovem, se tornou um verdadeiro paulistano. Eu sabia que alguma coisa andava errada e sofria com o medo disso. O que eu não sabia é que aquela alguma coisa errada era só mais uma das muitas que ele enfrentou sem nunca entregar os pontos, só mais um nocaute que ele sofreu sem nunca deixar que a contagem chegasse até 10, sempre conseguindo se levantar e continuar no ringue, recuperando energias, tomando iniciativas e nunca, nunca, sequer cogitando de jogar a toalha.</p>
<p>Olhando com os olhos gastos de hoje, vejo meu velho pai como um trapezista que nunca pestanejou em se lançar de uma barra de trapézio em busca de outra mais alta, que pudesse gratificar mais generosamente o esforço e a ousadia. E foram muitas as vezes em que, abrindo mão de uma, não logrou alcançar a outra e assim se lançou no espaço, corpo caído ao chão, doído, mas já em movimento de recuperação, se ajeitando para retomar os cursos e sonhos. E bastava um novo sonho para que ele, sua cabeça cada vez mais branca, seu entusiasmo, montassem as asas do devaneio e se lançassem no espaço cavalgando um Pégaso em pêlo, encharcado de adrenalina e suor. E se danassem as experiências anteriores, as lições de fracasso indicando com sisudez os riscos de uma nova queda. Lá ia ele no lombo de seu cavalo alado voar novos céus, rasgar novas nuvens, sonhar novos sois sempre mais brilhantes e cheios de calor, tudo movido à firme convicção de que o fim do arco-íris estava prestes a ser conquistado. E ali estaria o pote de ouro com o qual iria nos colocar a nós, sua mulher amada, seus filhos queridos, em confortável carruagem para percorrer os caminhos feitos de leite e mel que ele tinha traçado para as nossas vidas, tudo proporcionado por ele, nosso anjo protetor, feliz de ter cumprido seu papel cuja recompensa única seria o orgulho que sentiríamos por ele.</p>
<p>Mas, cada arco-íris que se desfez não foi suficiente para tisnar as cores que permaneceram em suas retinas e que permitiram que novos sonhos se materializassem e fossem perseguidos. Sem que o ânimo, a fé, a garra e a coragem cedessem lugar ao entregar de pontos. Sem que o humor, as tiradas jocosas e inteligentes, os conselhos nutridos pela experiência de caminhos percorridos e, acima de tudo, a dose imensurável de generosidade e dignidade perdessem espaço e tempo em seu coração de guerreiro. Para não dizer que foi assim até a última página do livro, houve, sim, um período nublado em sua fisionomia sempre altiva. Mas que não foi suficiente para tingir o todo, a trajetória inteira.</p>
<p>Meu pai teve o cuidado e a gentileza de não terminar sua turnê no dia consagrado às crianças. Certamente se preocupou em não ensombrar com uma despedida, um dia tão feliz como aquele. Discretamente, desceu as cortinas um dia antes, precisamente num 11 de outubro, para empreender seus vôos mais altos. E eu, que tanto temi a vida inteira aquele momento de desvalia, aquela perspectiva do desenlace eterno, rapidamente fui tomado por mais uma de suas artes. Apesar das dificuldades sofridas, dos sonhos seguidos de decepções, de não ter atingido suas metas como as imaginou, tudo, enfim, que justificaria lembranças amargas, memórias chorosas e tristes, não foi nada disso que aconteceu. Na verdade, não foi preciso mais que umas poucas semanas para que ele voltasse a compor a nossa paisagem pessoal com seu jeito sempre surpreendente, suas frases entre jocosas e ferinas, seus conselhos, seus exemplos de como andar com a dignidade à mão como estandarte desse grande bloco. E, aí, bem mais livre, solto, descontraído, só com os lados bons. Isso tudo talvez explique porque eu não consigo pensar no meu pai com tristeza, mesmo quando já lá se vão duas décadas inteiras desde que ele alçou novos vôos. É que, com certeza, tudo o que ele pretendeu nos legar, conseguiu e bastante. Ainda que por maneiras transversas, diferentes das que imaginou, ele conseguiu nos dar o conforto da carruagem mágica que tanto perseguiu. Apenas veio sob uma forma um pouco diferente, forma e ação que se fundiram em formação, patrimônio pessoal que a ninguém jamais será possível subtrair. E sempre com o riso iluminado, o calor da fé, o entusiasmo quase irreverente de quem veio ao mundo para não perder uma só chance de mostrar que essa barafunda vale a pena. E tudo muito divertido. Onde é que cabe tristeza nisso?</p>
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		<title>OS ESCONDIDINHOS DA CIDADE</title>
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		<pubDate>Tue, 29 Sep 2009 23:57:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Quantas cidades existem nesta mesma São Paulo? Resposta difícil, não é? Sempre se pode argumentar que, graças à diversidade de raças e origens instaladas por aqui, a cidade acabou desenvolvendo diferentes pólos culturais e com isso, diferentes comunidades foram florescendo. Não é à toa que em São Paulo se encontram restaurantes de qualquer parte do [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=307&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-308" title="Wall-Clock in cartoon - reduzida" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/09/wall-clock-in-cartoon-reduzida.jpg?w=180&#038;h=129" alt="Wall-Clock in cartoon - reduzida" width="180" height="129" />Quantas cidades existem nesta mesma São Paulo? Resposta difícil, não é? Sempre se pode argumentar que, graças à diversidade de raças e origens instaladas por aqui, a cidade acabou desenvolvendo diferentes pólos culturais e com isso, diferentes comunidades foram florescendo. Não é à toa que em São Paulo se encontram restaurantes de qualquer parte do próprio país e do planeta. Desde os mais tradicionais aos mais específicos e incomuns, um sujeito nesta metrópole pode se dar ao luxo de se sentir em qualquer lugar do mundo em matéria de comida. E, embora sem o mesmo tom acentuado que já houve no passado, também se encontram ainda em São Paulo, o aglomerado de italianos, o de chineses, japoneses, coreanos e assim por diante. Só que não é a nada disso que me refiro quando tento imaginar quantas cidades existem nesta mesma São Paulo. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Por conta de dar uma mãozinha ao empreendimento que nossa filha resolveu desenvolver, lá fomos nós, a parceira e eu, bater nossos costados em um dos antigos bairros de São Paulo: Pompéia. A guria resolveu abrir um pequeno depósito para armazenar mercadorias e, por uma questão de praticidade, escolheu a Pompéia.  E quem poderia ser escalado para se plantar à porta do pequeno estabelecimento enquanto eram descarregadas, em um dia,  caixas e caixas de papelão que acondicionarão os produtos e, no dia seguinte, os próprios produtos? Quem? Lá fomos nós. Como cada um dos processos de descarga levou alguma coisa em torno de duas ou três horas, o que mais se poderia fazer senão caminhar pelos arredores? Lá fomos nós, outra vez. E desta vez, confesso, o tempo foi curto. Paulistano de muito tempo, confesso que nunca havia andado pelas ruas da Pompéia. A impressão é que ali há uma espécie de fenda no tempo da cidade ou uma outra dimensão à qual se chega por alguma fresta escondida no corpo das décadas. Os anos quarenta ou cinqüenta parecem ter estacionado por aquelas ruas e se recusado a dar lugar à modernidade. As casinhas, inúmeras, devem ter aí uns cinco metros de frente. E quase todas com porta de entrada e janela dando para a calçada, sem recuo ou entrada para automóvel. A maioria são sobradinhos geminados. Algumas diferem um pouco e tem uma modesta garagem em que deve caber um automóvel no máximo e não dos grandões. Só falta estar escrito em cima que é um lar, como disse o poeta. Mas, sinceramente, nem precisa. Qualquer um que sabe o que seja um lar percebe de cara que o clima é de lar. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Sempre há quem veja o antigo com olhos distorcidos. O antigo, visto por olhos pouco atentos, acaba sugerindo um tom de desânimo ou desinteresse, coisa de quem já viveu e espera pelo fim. Não na Pompéia. A arrumação das casinhas, o toque caprichoso das mãos domésticas nos vasinhos com flores que enfeitam as paredes, as diferentes cores de portas e janelas, tanto as que dão para a rua quanto as que ostentam o recuo, tudo deixa claro que ali ninguém está esperando fim nenhum. E se vier, não será pela vontade de ninguém. Não fosse pela presença incômoda das grades de proteção tanto nas portas quanto nas janelas, seria o caso de se dizer que aquele canto da cidade não foi atingido pela marca completamente sem graça da violência. Mas, apesar das grades de proteção, as pessoas circulam pelas ruas naquele passo descontraído de quem está em casa e se sente dono dos atalhos. A garotada vai e vem para as escolas fazendo aquele barulho que só os jovens em grupo são capazes de fazer. E cruzam com donos de cabeleiras brancas ou de grande carecas que não parecem se incomodar com a zoada. É a própria vida em movimento,  seus infinitos e variáveis movimentos. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>A vida em ação talvez seja o que mais chame a atenção nesse pedaço de São Paulo. Apesar da predominância das casas residenciais, não faltam os pequenos comércios. São lojinhas de material de construção, pequenos mercados, salões de beleza, bazarzinhos, restaurantes com comida caseira e por quilo para atender aos que trabalham pelas redondezas. Tudo com cara e jeito de negócios de família. São as pessoas do dia a dia tocando suas vidas e alimentando, como ribeirões, os rios caudalosos da econômica paulistana. É a vida pulsando, na plenitude do movimento, no ápice de seus mistérios. Numa das casinhas, das que tem recuo, em lugar do automóvel, uma cadeira de barbeiro e os demais petrechos que compõe uma modesta barbearia, daquelas que havia na cidade nos tempos em que esse profissional não se incomodava de ser chamado de barbeiro. Ali, naquele lugarzinho simples, avesso à sofisticação, alguém ganha a vida diariamente e, com toda certeza, não desistiria dela por absolutamente nada deste ou de qualquer outro mundo. Vida em pleno movimento, florescendo linda e viçosa. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Como disse antes, o que fizemos por aquelas ruas não foi nenhuma incursão, expedição de reconhecimento, pesquisa cultural, nada disso. Foram só algumas voltas por uns poucos quarteirões, tudo muito sem propósitos. A magia nostálgica do lugar é que nos pegou de frente. Esse, às vezes, também é o risco quando se anda desprevenido pelas ruas de São Paulo. Encontrar esses oásis de velhos tempos, de quando a cidade parecia mais consigo mesma, não tinha vergonha de ser humana. E, então, fiquei pensando em qual daquelas surpresas me ajudaria a tentar registrar o espírito do lugar, a simplicidade, descontração, a alegria sem ranços. Acho que achei. No cartaz que um morador afixou no portão de sua casinha, um primor de humanismo, um cartaz que talvez traduza fielmente o que parece ser o espírito que prevalece por aquelas bandas: “CUIDADO CÃO Super Simpático – corre o risco de você se apaixonar”.  <img class="aligncenter size-full wp-image-309" title="Cuidado cão - reduzida" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/09/cuidado-cao-reduzida.jpg?w=120&#038;h=160" alt="Cuidado cão - reduzida" width="120" height="160" /></strong></p>
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		<title>AS MUITAS FACES DO CANIBALISMO</title>
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		<pubDate>Thu, 17 Sep 2009 03:47:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Circula atualmente uma campanha publicitária de uma grande rede de supermercados cujo mote é a pergunta: “O que é que faz você feliz?” Todo mundo ou quase todo mundo já viu e ouviu as mais diferentes e rimadas respostas. E o que, aparentemente, ´”faz você feliz” é uma porção de situações simples, cotidianas, cheias de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=302&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-303" title="Loneliness - cartoon (1)" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/09/loneliness-cartoon-1.jpg?w=137&#038;h=189" alt="Loneliness - cartoon (1)" width="137" height="189" />Circula atualmente uma campanha publicitária de uma grande rede de supermercados cujo mote é a pergunta: “O que é que faz você feliz?” Todo mundo ou quase todo mundo já viu e ouviu as mais diferentes e rimadas respostas. E o que, aparentemente, ´”faz você feliz” é uma porção de situações simples, cotidianas, cheias de ternura e docilidade, uma paz de causar inveja a muito monge tibetano ou monge ermitão. Um paizão brincando descontraído com seus pimpolhos, aquela mãe sempre sorridente e que parece nunca lascar uma boa chinelada nos filhotes, avós de bom humor inalterável que nunca mostram a menor irritação, maridos e esposas saltitantes nos corredores dos supermercados e por aí afora. Quem é que pode colocar em dúvida que essas cenas todas nos fazem felizes? O que merece uma reflexão um pouco mais profunda é se apenas situações dessa natureza têm o condão de nos fazer felizes ou se existe coisas menos confessáveis que também geram esse tipo de euforia? </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Nunca fui um apreciador de corridas de automóvel, mas sempre ouvi  dizer por aí que há uma enorme quantidade de gente que assiste na expectativa secreta de que aconteça algum acidente. Não sei se isso é verdade e, ainda que seja, não autoriza a se concluir que uma desgraça dessas faça alguém feliz. Mas, caso isso aconteça de fato, não há como negar que mancha bem a reputação da espécie. E o que dizer dessa curiosidade mórbida que nos faz diminuir a marcha do automóvel e causar congestionamento para ver um motoqueiro estirado no chão, alguém ser removido para uma ambulância ou, mais tristemente, o volume por baixo do jornal. E basta acontecer alguma dessas tragédias, espontâneas ou provocadas, para que comecem a circular fotos e mais fotos, invariavelmente horripilantes, duramente realistas ou, até mesmo, sadicamente retocadas para realçar os aspectos mais chocantes. Não há episódio, por mais chocante, que seja poupado. A queda das torres gêmeas que o diga. Havia uma foto em que, em meio à fumaça e nuvens, aparecia uma sugestão de imagem meio escondida do demônio e sua satânica e canastrona risada. Será que há como negar que as pessoas parecem se comprazer com as mazelas alheias? </strong></p>
<p><strong> </strong><strong>Os recursos fantásticos da “internet” têm servido a essa espécie de submundo psicológico e emocional que as pessoas carregam escondido. Andou circulando pela “net”, um filmezinho de uns quase 5 minutos no qual a cantora Vanuza sofreu uma reação alérgica que a prejudicou no momento em que interpretava o Hino Nacional Brasileiro em uma cerimônia oficial qualquer. A noticia foi estampada na própria “internet” que, naturalmente, oferecia o material para ser devorado. Um incidente como esse não passa de uma dessas armadilhas em que qualquer um de nós pode cair. E o que se poderia ou deveria esperar dos que ali compareceram diante de um semelhante em momentânea desproteção, acometido e, consequentemente, entregue a um súbito descontrole emocional? Solidariedade? Sem dúvida. Mas o que se viu foi a cantora vivendo aquele instante penoso enquanto os circunstantes se limitaram a demonstrar  seu incômodo, constrangimento por alguma coisa que parecia nublar o evento ao qual se dedicavam. Apenas isso. Foram precisos quase 5 minutos para que alguém tomasse a óbvia iniciativa de ir em sua direção, ampara-la como ela precisava naquele instante e encerrar o incidente. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Mas, pouco tempo depois, o filmezinho ganhou as ondas da “net” e, tem circulado vivamente. É de se imaginar que passe de tela em tela sob os apupos, grunhidos e esgares de hienas que parecem se nutrir desse tipo de indignidade, alimentar os porões dos próprios sentimentos.  A cena durou cerca de 5 minutos e a ninguém ocorreu, por exemplo, cortar os microfones da cantora preservando-a daquele instante crítico e flagrantemente fora dos padrões habituais de seu consolidado e respeitável desempenho.  Tampouco o triste da situação sensibilizou a quem tudo registrava, ávido de uma boa matéria ainda que a custa de fragmentos da alma de um semelhante.  Tudo ficou devidamente gravado, como devem mandar os bons manuais. E, ainda que se queira suavizar a inação dos presentes por conta da surpresa, não houve quem se dispusesse a inutilizar aquele material inconveniente.  Ao contrário, alguém teve o rápido expediente de colocar aquilo em um dos mais poderosos veículos de comunicação do momento. Tudo para que os canibais da dignidade alheia pudessem dar inicio ao seu festim. Aí surgiram, das frestas, os guardiões da moral vigente para criticaram a cantora por concluírem que se encontrava embriagada. Outros se limitaram a rir, a se lambuzar de escárnio, como se o sofrimento alheio tivesse o sabor da ambrosia de que se alimentavam os comensais do Olimpo. E, por fim, chegou a versão de que aquilo tudo se devera a ingestão equivocada de medicamentos. </strong><strong> </strong></p>
<p><strong>Pouco importa o que possa ter acontecido à cantora Vanuza. E pouco importa que a armadilha tenha capturado alguém com sua fama e passado. Ainda que fosse um ilustre desconhecido, tratava-se de um ser humano em momento de desamparo. Seu sofrimento poderia e deveria ter sido minimizado com a intervenção digna de quem se achava ali presente. Teria sido fácil, não fosse a paralisia que parece ter tomado conta de todos, incomodados, talvez, pelo constrangimento, mas sem se incomodar com o que afligia um ser humano.  Perdida a primeira chance, ainda havia a segunda: destruir aquela fita indesejável. Qual o quê. Ela teve o ignominioso destino da divulgação fácil, barata, bem à altura moral de quem lhe abriu as portas e porteiras. Desprezadas as duas chances de se resgatar um pouco da dignidade humana, como se poderia esperar que a massa tivesse algum pudor e respeito? </strong></p>
<p><strong> </strong><strong>Paciência, senhora Vanuza. Degradante, sim, foi a atitude de cada uma daqueles que participaram do incidente. O seu desequilíbrio foi momentâneo, causado por fatos externos, não compõe a sua integridade como pessoa e como profissional. Já os que ali se isentaram de qualquer atitude, os que registraram e optaram por divulgar o registro, esses não estavam alterados por medicamentos ou qualquer outro elemento que não fosse a sua própria indignidade. Que se refestelem, portanto, os que se uniram, não em prol de estender a mão a um semelhante em momento de carência mas, em volta do que mais lhes apetece: esse banquete composto da carniça da informação inútil, desnecessária, indigna. Resta o consolo de que a lista do faz felizes a boa parte das pessoas é aquela dos momentos do filmezinho da propaganda, esse sim, que pode correr livremente por onde quiser.  Ao outro, lhe falta tudo, vai virar pó na deslembrança.   </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
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		<title>CONTRAPÉ E CONTRA-MÃO</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Sep 2009 20:26:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[O sujeito vai dirigindo seu automóvel por uma estrada. Estrada boa, visibilidade satisfatória, velocidade permitida em torno de 110 quilômetros por hora, automóvel novo, em excelentes condições, lá vai o individuo auferindo das maravilhosas conquistas da tecnologia, das prerrogativas da juventude e do conforto de não estar classificado abaixo da linha da miséria.  Se alguém [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=299&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="alignleft size-full wp-image-300" title="Traffic signal" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/09/traffic-signal.gif?w=123&#038;h=147" alt="Traffic signal" width="123" height="147" />O sujeito vai dirigindo seu automóvel por uma estrada. Estrada boa, visibilidade satisfatória, velocidade permitida em torno de 110 quilômetros por hora, automóvel novo, em excelentes condições, lá vai o individuo auferindo das maravilhosas conquistas da tecnologia, das prerrogativas da juventude e do conforto de não estar classificado abaixo da linha da miséria.  Se alguém quiser, pode incluir, no banco de passageiros, uma loira curvilínea ou uma morena de cabelos esvoaçantes, agitando a cabeça ao som do ritmo dolente produzido por um poderoso “Ipod” conectado a um ultra moderno aparelho de som com falantes espalhados pelo interior da quase espaçonave deslizante.  E, de repente, os primeiros sinais de que alguma coisa vai vir pela frente para nublar esse céu de brigadeiro. Os primeiros policiais rodoviários já batem a mão direita para baixo naquele sinal característico de que é preciso reduzir a velocidade. Os veículos em sentido contrário já diminuíram sensivelmente a velocidade e caminham como se andassem na espreita de alguma coisa ou fugindo silenciosamente dela, pé ante pé, pisando macio e com cuidado. E, então, o sujeito e sua estonteante acompanhante chegam ao local do acidente. Veículos destroçados, gente à volta, um mar de curiosos com caras assustadas. Um dos aglomerados principais indica que ali, sob os olhares desconcertados, incrédulos, impotentes, duas ou três vítimas fatais. Mais adiante, outras vítimas sendo transportadas para as ambulâncias que impregnam a paisagem com as luzes das sirenes que, em minutos, também começarão a gritar estridentemente seu grito de alerta pedindo passagem em busca de, talvez, alguns milagres.</p>
<p>Quem é que nunca viveu uma cena dessas? É uma verdadeira turbulência sacudindo a nossa calmaria, a nossa tranqüilidade. E o que vem em seguida, via de regra, é quase sempre a mesma coisa. Depois de passar lentamente pelo ocorrido, os veículos vão se afastando cuidadosamente, vagarosamente, velocidade reduzida, controlada. No interior dos veículos, aquele silêncio, aquela sensação de vulnerabilidade, de fragilidade. Cada um, para si mesmo, vai experimentar, nos próximos minutos, a perturbadora constatação de que tudo pode mudar radicalmente em fração de segundos. O nosso personagem lá de cima, por exemplo, do carrão confortável, da mulher alucinante, provavelmente vai se sentir pequeno, se reduzir a uma criança desprotegida que talvez, de muito bom grado, trocasse a ninfa pelo colo materno e por aquele sentimento de que, no regaço dela, nada o atingiria, nada o alcançaria, estaria a salvo de tudo e de todos. E assim vai ficar pelos, talvez, dez minutos seguintes. Até que, gradativamente, a cena infernal começa a se esfumaçar na sua mente e os botões dos controles da máquina que tem nas mãos retomam o lugar de origem. A deusa escultural ao seu lado volta a ocupar todo o espaço do banco de passageiros e de sua libido subitamente abalada. E a vida continua.  Talvez venha a ter noticias do acidente que acabou de presenciar, mas isso, se acontecer, será bem mais tarde, no jornal da noite. E o impacto já será bem menor, quase banal. </p>
<p>Será que somos incorrigíveis? Será insensibilidade? Descaso? Não. Meu palpite é que se trata apenas da própria vida se defendendo, se preservando, se recusando a acabar ou a se precipitar ladeira abaixo pelos abismos da depressão. O filósofo Blaise Pascal dizia que o homem é a mais frágil das criaturas, um caniço, mas um caniço pensante. A idéia da fragilidade é assustadora e talvez a nossa principal defesa contra ela seja essa incrível capacidade de sublimar os temores e receios e retomar a vida, essa mesma vida do dia a dia. Com infelizes exceções, isso vale para todos e para todas as situações. O personagem pode não ser o invejável motorista da cena acima, mas, isto sim, um dos que vivem abaixo daquela indesejável linha da miséria. Pode não haver carro algum ou acompanhante de alucinar. A vida sempre é maior que tudo e, mesmo subitamente impactada, se re-equilibra e prossegue seu rumo em busca da impossível imortalidade. Por que é assim que nos sentimos. Talvez a vida não fosse possível se cada um de nós adquirisse a consciência plena e inclemente de nossa própria fragilidade, de nossa finitude. E, não só voltamos a nos sentir eternos como retomamos o cotidiano, ainda que, nos momentos que se seguem à cena trágica, sempre nos entreguemos às reflexões de que temos que trabalhar menos e nos divertir mais, nos aborrecer menos e perdoar mais e todo esse mecanismo que parece ter força para nos proteger e salvaguardar. Mas que transformaria a vida num enredo rigorosamente artificial. E vida artificial só cabe em obra de ficção científica.</p>
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		<title>A BOLA DA VEZ OU A POESIA DA LISTA TELEFÔNICA</title>
		<link>http://blcon.wordpress.com/2009/08/06/a-bola-da-vez-ou-a-poesia-da-lista-telefonica/</link>
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		<pubDate>Thu, 06 Aug 2009 15:38:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Há muito, muito tempo, num fim de noite, todo mundo mais do que suficientemente etilizado, eu tive um entrevero com um sujeito que acabou terminando em empurrões e quase troca de tapas. Até hoje, quando me lembro disso, fico um pouco envergonhado. E o motivo dessa cretinice foi uma frase dita pelo então meu desafeto [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=293&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-294" title="Vila Sonia - A bola da vez - reduzida" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/08/vila-sonia-a-bola-da-vez-reduzida.jpg?w=274&#038;h=139" alt="Vila Sonia - A bola da vez - reduzida" width="274" height="139" />Há muito, muito tempo, num fim de noite, todo mundo mais do que suficientemente etilizado, eu tive um entrevero com um sujeito que acabou terminando em empurrões e quase troca de tapas. Até hoje, quando me lembro disso, fico um pouco envergonhado. E o motivo dessa cretinice foi uma frase dita pelo então meu desafeto e que, seguramente por conta da dosagem alcoólica, chegou aos meus ouvidos como ofensa das mais graves. É que o sujeito, um dos muitos pseudo intelectuais que se multiplicavam naqueles tempos, moleque como eu e, assim como eu, metido a filósofo de botequim, declarou que naqueles dias até lista telefônica podia ser poesia. A prova incontestável do nosso sólido e inabalável conteúdo intelectual é que o porre nos levou aos tapas. Nada mais cerebral.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Passados tantos anos, não sou capaz de me lembrar nem da fisionomia e faço um esforço danada para tentar chegar ao menos ao nome do meu adversário daquela madrugada. Mas sua frase me voltou à lembrança quando, casualmente, folheava o caderno de imóveis do jornal de domingo. Confesso que, normalmente, todos esses classificados dos jornais vão direto para a despensa onde se guardam os jornais velhos que servirão para forrar o chão e outras finalidades menos nobres.  Quando muito, dou uma passada pelos automóveis apenas para ter uma idéia de quanto anda custando para satisfazer os egos, os sonhos de consumo e todos esses fascínios que as pessoas desenvolvem pelas máquinas semoventes. Portanto, folhear o caderno com ofertas de casas, apartamentos, terrenos e outras formas de bens de raiz é tão raro que só se pode atribuir aos desígnios de esferas mais elevadas do universo, coisa um pouco paranormal. Mas, na verdade, não teve nada de estranho, esotérico, ultra-dimensional. É que, logo no inicio do caderno de imóveis, com direito a foto e reportagem nas páginas interiores lá estava estampado: “Vila Sonia é a bola da vez”.  </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Wilson era o seu nome, sim o nome do meu ex-adverso naquela noite das bruxas encachaçadas. Ao me deparar com a chamada no caderno de imóveis do jornal de domingo dei de cara comigo começando a entender o que havia dentro da frase do Wilson: “Hoje em dia até lista telefônica é poesia”. Classificado de imóvel e empreendimento imobiliário também. Vila Sônia é o nome do bairro onde eu cresci e passei quase toda a minha infância e adolescência. Naquele tempo isso durava aí uns 18 anos, já incluídos nascimento, primeiros passos, primeiras bobagens. Desses, pelos menos uns doze eu vivi nessa Vila Sônia. Bairro de periferia, o ônibus que nos levava até o ponto civilizado mais próximo, o bairro de Pinheiros, gastava qualquer coisa entre 30 a 45 minutos, dependendo do estado do coletivo que, em algumas vezes, era desesperador. Trânsito não tinha muito. Nem ônibus. A minha Vila Sônia era daqueles lugares perdidos na cidade e que geravam panfletos de venda de terrenos a perder de vista. Nos panfletos, uma expressão de propaganda que não podia faltar: “farta condução”. E o candidato pensava consigo mesmo. “Não faz mal, eu tenho bicicleta”.  Isso era a cara da Vila Sônia.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Mas a minha Vila Sônia era aquela para onde meu velho pai nos levou lá pelos fins da década de cinqüenta, cheio de sonhos e esperanças de que, finalmente, a vida ia decolar. Sua farmácia haveria de fazer com que ele chegasse ao tão almejado conforto financeiro que faria dos filhos, estudantes até o final da universidade com direito a carro ao completar 18 anos. Ele nunca conseguiu entender que nos deu muito mais que isso e que a falta disso não fez falta alguma.  E foi por lá que nós três, irmãos em seqüência de escadinha, enfrentamos o desafio da contradição de tirar boas notas, exigência implacável de pai e mãe, e ser meio cafajeste, imperativo não menos implacável da molecada do lugar, o meio social onde vivíamos e que tínhamos que integrar sob pena de nos tornar eremitas ou coisa parecida.  Resultado: caderneta escolar com notas em azul e anotações as mais variadas com direito a uma repreensão aqui, uma suspensão ali. A minha Vila Sônia tinha o bar do Joaquim Patrício, com duas mesas de sinuca, ponto de encontro da fina flor da sociedade local, onde, aos sábados à noite, invariavelmente estourava um sururu regado a cachaça. Mas nunca teve morte. Nem policia. Só um olho inchado, uns dentes a menos. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>A uma respeitosa distância ficava o nascente Morumbi, bairro de ricos pelo qual só se passava vez ou outra. Entre os dois pólos opostos, muito terreno baldio com campinho de futebol, uns morrinhos que lembravam aqueles desfiladeiros e penhascos do velho oeste que se via nas matinês do cine Paladium ou do cine Caxingui, que disputavam o titulo de pulgueiro mor. Dois filmes, um seriado e os complementos nacionais com direito ao canal 100 ao som do “que bonito é” do Valdyr Calmon. Ruas, em regra, eram de terra, com direito a se transformar em barro bravo com a chuva. Ruas de asfalto até havia, mas não eram a maioria. Aliás, ruas de paralelepípedo porque asfalto, só na Francisco Morato que, para nós, era “a estrada” e só ganhou o nome pomposo de Av.  Professor Francisco Morato quando a nossa velha vila começou a entrar para os informativos sobre o trânsito. Mas isso foi agorinha que lá para traz não se falava disso. Nem de Francisco Morato nem de trânsito. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Falar de tudo é tarefa para muitas páginas e o dobro em lágrimas. Quem sabe não é o tempo me espicaçando para botar os dedos no teclado e começar o livro que a parceira me cobra sem trégua ou moratória. Lembrar de tudo isso, no entanto, foi muito mais fácil do que eu imaginava. Só não consegui foi conter o susto de ver a minha Vila Sônia se transformando em “Vila Sonia é a bola da vez”, em pleno caderno imobiliário. Agora não farta condução. Até deve estar sobrando. Assim como sobra a saudade. </strong></p>
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		<title>NOS TEMPOS DA PASTEURIZAÇÂO</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Aug 2009 23:18:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[A que fator se poderia atribuir a velocidade vertiginosa com que os gestos, atitudes e palavras vão se transformando? Uma das primeiras candidatas é a “internet”. E divide as honras com a globalização. Ao menos aos olhos da maioria, as duas disputam a responsabilidade por tudo ou quase tudo o que acontece nos nossos dias. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=288&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><img class="alignleft size-full wp-image-289" title="Applause" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/08/applause.jpg?w=156&#038;h=160" alt="Applause" width="156" height="160" />A que fator se poderia atribuir a velocidade vertiginosa com que os gestos, atitudes e palavras vão se transformando? Uma das primeiras candidatas é a “internet”. E divide as honras com a globalização. Ao menos aos olhos da maioria, as duas disputam a responsabilidade por tudo ou quase tudo o que acontece nos nossos dias. Os gestos, por exemplo. Nunca me esqueço de uma matinê num cinema da minha infância quando, bem no fim do filme, para saudar alguém, o herói olhava para um grupo e fazia aquele sinal em forma redondinha juntando o polegar e o indicador. A molecada na platéia morreu de rir. É que, para quem não sabe, esse sinalzinho, aqui na ”terra brasilis” de antigamente, correspondia ao hoje popular dedo do meio em riste. Era assim que os americanos mandavam os outros fazer aquilo que todo mundo sabe quando mostram o dedo do meio a alguém. O outro sinal, que para nós significa o mesmo que o dedo do meio em riste, era para eles um ingênuo “OK”, “está tudo bem”, “tudo certo”. Agora, se naqueles tempos pré-históricos algum americano educado e bonzinho quisesse dizer a um brasileiro que alguma coisa estava em ordem e fizesse o sinal a que estava acostumado, corria o risco de levar um pé-de-ouvido sentido e, o que é pior, ia ficar sem entender nada.  O jeito foi adotarmos o dedo do meio e esquecer o outro que, em completo desuso, acabou agonizando em total solidão e só é lembrado quando se quer dar algum exemplo de como as coisas vão sendo ultrapassadas.  É a globalização das agressões verbais e gestuais. </p>
<p>Quando não mudam completamente o significado, as palavras, gestos e atitudes também podem perder seu conteúdo ou vigor. O palavrão é um bom exemplo. Hoje em dia se usa o palavrão como forma necessária e quase essencial de comunicação. Nem é preciso reproduzi-los. Os mais jovens, aliás, já incorporaram o palavrão ao vocabulário cotidiano com tal intensidade que, quando são proibidos de usar, ficam completamente desconcertados e alguns até preferem o silêncio. Ninguém mais se escandaliza e eu fico imaginado o que seria da pobre Dercy Gonçalves nos dias de hoje. Outro exemplo? O aviso de “URGENTE”. Nas empresas, por exemplo, tudo é urgente. Tanto faz que a tarefa pedida só vá ser utilizada em seis meses. Não há uma única solicitação ou ordem que não venha, carimbada em vermelho, com a indicação “URGENTE”. E ninguém mais dá a menor importância. Tanto é que agora já se usa algo mais contundente: a “urgência urgentíssima”. Se se for considerar o significado da palavra “urgente”, o “urgente urgentíssimo” seria alguma coisa como uma premonição. O sujeito a executa antes mesmo de o outro pedir. Na prática, nem o “urgente”, sozinho ou acompanhado do “urgentíssimo” impressionam mais ninguém. Quem sabe se vierem acompanhados de um soco na mesa e um palavrão, de preferência em Inglês. Aí, pode ser. </p>
<p>Outra prática curiosa e que tem se tornado comum é preparação para tecer uma crítica. Cria-se uma espécie de clima amistoso usando a expressão introdutória “adoro fulano, mas&#8230;” Isso pode valer tanto entre amigos de longa data como entre pessoas que acabaram de se tornar colegas de trabalho.  Os religiosos mais ferrenhos usam da expressão “adorar” para refletir o sentimento que nutrem por seu deus. Os amantes assim se referem à figura amada e isso tem valido poemas e mais poemas, obras musicais, peças de artes plásticas.  Adorar alguém tinha uma força danada. Hoje a criatura prestes a dar o bote em outra e inocular o veneno, opta por prefaciar seu discurso com o “adoro o fulano, mas&#8230;” Observado o intróito, o resto perde a importância ou a severidade. Ainda que o inoculado tombe apoplético, cataléptico ou definitivamente morto. Isso já é detalhe. </p>
<p>É pena porque muitas dessas manifestações que se tornaram maquinais traduziam valores notáveis, magníficos. Uma delas era a reação de uma platéia no final de uma peça de teatro. Quando a peça se distinguia do comum ou os atores se superavam em talento e emoção o público se levantava e aplaudia de pé. Aplaudia-se de pé o que era digno de destaque, o que se diferenciava pela excelência. E os músicos, instrumentistas, cantores e cantoras, brindava-se com o pedido de bis. Se o artista realmente arrebatasse o público, pedia-se bis várias vezes. Havia quem voltasse ao palco duas, três, quatro ou mais vezes. Consagração plena. No entanto, as duas formas de se reagir à majestade do talento foram perdendo o caráter de distinção aos especiais. Tornaram-se uma espécie de praxe, uma quase obrigação, um costume sem qualquer significado. Todas as peças de teatro terminam com o público aplaudindo de pé, seja uma Fernanda Montenegro, seja um mambembe qualquer. Todos os espetáculos musicais se encerram, necessariamente, com o público mecanicamente pedindo o retorno dos músicos ao palco. Pouco importa se realmente agradaram ou agrediram os ouvidos dos presentes com desafinações e mau gosto. Tudo não passa de um burocrático desempenho de papeis. O artista cumpre sua obrigação no palco, o público cumpre a sua na platéia, a função termina, todos se levantam para aplaudir de pé ou pedir bis por meio daquela marcação de palmas que já se tornou convencional. O artista, então, volta ao palco e agradece no mesmo tom mecânico dos aplausos que ele sabe que são destinados a qualquer um ou a qualquer coisa. O músico volta ao instrumento ou ao microfone e repete alguma coisa que, evidentemente, ensaiou, pois agora se ensaia o bis. E ensaiar o bis só perde para ensaiar o improviso. </p>
<p>No dias de hoje, elogiar alguém já está se tornando um produto em escassez no mercado. E fica pior, ainda, quando os elogios ganham esse jeitão de obrigação social, de enlatado exposto em prateleira de supermercado. Meio quilo de parabéns ao cavalheiro aqui. Um litro de louvores à moça ali do lado. É bom verificar o prazo de validade. Pagamento no caixa. E aí: isso é coisa da internet ou da globalização? Ou somos nós que estamos caindo na vala comum da mesmice?</p>
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		<title>PAROU POR QUE?</title>
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		<pubDate>Mon, 27 Jul 2009 18:57:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Crises, quem não tem delas de vez em quando? Não se trata de crises como a que o mundo anda enfrentando ultimamente com o sumiço do dinheiro que andava espalhado por aí e o fim do período das vacas gordas. Essas são para os economistas se fartarem de escrever, promover seminários e palestras, organizar consultorias [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=283&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-286" title="Crisis - turtle" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/07/crisis-turtle.jpg?w=297&#038;h=215" alt="Crisis - turtle" width="297" height="215" />Crises, quem não tem delas de vez em quando? Não se trata de crises como a que o mundo anda enfrentando ultimamente com o sumiço do dinheiro que andava espalhado por aí e o fim do período das vacas gordas. Essas são para os economistas se fartarem de escrever, promover seminários e palestras, organizar consultorias e vender conselhos salvadores até que o dinheiro se desentoque porque, convenhamos, ele não desapareceu, ninguém rasgou ou ateou fogo. Ele apenas se escondeu no fundo dos baús, cofres e burras de alguns e, logo, logo, volta a passear por aí. Dinheiro adora desfilar, badalar e ser reverenciado, acariciado e outras saliências. As crises a que me refiro são as pessoais, aquelas em que entramos pelas mais variadas razões. Crise da adolescência, crise do fim do primeiro amor, aquele que invariavelmente é eterno, crise do fim da escola, crise dos quarenta, crise da meia idade. Para cada período da vida parece que existe uma crise guardada num armário qualquer e lá vamos nós nos servir, nos fartar dela. Os mais pessimistas transformam as crises em verdadeiras catástrofes existenciais e tem gente que se afunda de vez. Difícil voltar à tona. Os otimistas, ao contrário, enxergam nelas verdadeiras oportunidades de crescimento. Mas esses são os extremos. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Apesar da má fama intelectual, de ser considerada o período das trevas, a idade Média consagrou uma frase que nunca deixou de valer: “in medio, virtus”. A virtude reside no meio, na região intermediária entre os extremos. Portanto, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Nem tanto aos pessimistas, nem tanto aos otimistas. A maioria das pessoas acaba ficando mesmo é na média. Vive as crises, se afunda um pouco com elas se tiver uma tendência para as trevas ou tem seus momentos de efusão se for mais voltada para o sol e a foto-síntese. Mas, provavelmente, não vai chegar às regiões abissais do negativismo nem vai dar voltinhas pelo espaço sideral da euforia. A crise do primeiro amor dificilmente vai levar alguém a um desfecho aos moldes de Romeu e Julieta. Pode, quando muito, render um porre ao mancebo e muito lenço molhado de lágrimas à donzela, se é que, nos dias de hoje, isso não for descontraidamente invertido.  As crises que marcam o fim de cursos escolares não vai muito além das primeiras semanas quanto todos firmaram seus pactos de sangue de que jamais se separarão, jamais se dispersarão. Um novo curso, uma oferta de trabalho ou até mesmo o chamado ano sabático a que uns poucos tem acesso, tudo isso costuma coagular o sangue usado no pacto da não separação e da não dispersão. Depois é só jogar o lenço onde foi firmado o pacto numa boa máquina de lavar e tudo se ajusta. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>As crises de idade costumam deixar marcas. Eu me lembro claramente da que vivi quando completei 30 anos. Exatamente no dia em que adentrei a faixa dos trinta em senti completamente indefeso neste mundo de perigos a que eu estava inteiramente sujeito, sem exceções. Tudo poderia acontecer comigo. Morrer, contrair doença grave, perder emprego, ser traído pela mulher, ver meu time ser rebaixado para a segunda divisão. Tudo o que é de fato altamente grave poderia acontecer comigo. Aí dei razão ao meu velho pai que dizia que o mundo é o lugar mais perigoso do universo porque ninguém sai dele com vida. Mas,quando se está na casa dos trinta dificilmente esses encostos ficam por muito tempo. E a crise dos trinta acabou superada pelo primeiro problema de trabalho que me apareceu pela frente, sobretudo porque problema de frente implica em chefe por trás pronto para desferir o pontapé em caso de fracasso. E se a dos trintas não teve muito espaço para estragos, a dos quarenta não mereceu nem um alô, como vai. Pois se aos trinta já não havia tempo para as mazelas, aos quarenta não havia tempo nem para pensar nas mazelas. A ambição acaba levando o candidato à crise a se cercar de muito mais desafios, a se soterrar de problemas, sempre pensando em galgar o último andar do prédio, a cobertura onde fica a sala grande de fazer eco abrigando um só sujeito que tem todos os habitantes de todos os andares inferiores bem na palma da sua mão. Veja lá se alguém tem tempo ou disposição ou sequer se lembra de que aos quarenta convém ter uma crise. Bolas para o convencional. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Crise boa, ao menos no meu caso, foi a dos cinqüenta. Nela tudo foi ao contrário. Muita coisa já tinha sido conseguida, sobretudo para quem nunca almejou conseguir tanta coisa assim. Com cinqüenta eu me dei o direito a uma alforria: a de ter que ser um predador de mulheres. Os homens não conseguem abdicar desse papel, ainda que prefiram apenas ir para casa assistir novela. Mulher que se aproxime tem, no mínimo, que merecer aquele olhar de alto a baixo, aquela perscrutação que dispensa qualquer exame ginecológico mais acurado. E isso é só a fase preliminar que requer, sob pena de pena de ostracismo, que o troglodita desfira um golpe de maça em sua presa e a arraste até a caverna mais próxima, mesmo que disfarça de motel.  Eu, que sempre fui um grande fracasso na arte de exalar varonilidade, decidi que, aos cinqüenta, bastava buscar na secretaria dos direitos do macho, a minha carta de alforria, minha carteira de integrante da pré-terceira idade que me isentava da caça. Tudo ficou bem mais fácil. Conferi a mim mesmo o direito de conversar com as mulheres sobre qualquer coisa, até futebol e novela. E, no campo das relações profissionais, descobri o prazer inusitado, incomparável de declarar, em plena reunião de doutores, executivos e capitães de indústria que a respeito do assunto levantado pelo secretario da mesa, eu nunca ouvi falar e nem imagino do que se trata. Quando muito os circunstantes afivelam na cara uma máscara de surpresa forçada que dura o tempo necessário a que algum outro participante se sinta encorajado pela minha declaração de ignorância e resolve desembuchar a sua. Aí, falta pouco para a reunião virar um torneio de bolinha de gude.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Crises, quem não tem delas de vez em quando? E eu, agora, por exemplo, estou vivendo a crise da memória. Estou com uma sensação incômoda de que já falei sobre as minhas crises. Mas, é graças à do relaxamento que me dou o direito de não lembrar e falar de novo. Coisa boa!  Na verdade, as coisas só ficam um pouco mais complicadas quando esses devaneios abandonam o terreno da confusão emocional e se transformam em baldes de água fria, a água fria da realidade da nossa própria limitação temporal, da nossa finitude sem poesia ou filosofia.  Os principais responsáveis por esses choques de concretitude, de finitude costumam ser os exames médicos. Esses conseguem nos tirar do âmbito da elucubração mental e nos joga no meio da rua, aquela onde passam os carros que podem nos atropelar. Aí, tudo fica diferente, não tem otimismo nem pessimismo. Tem só um realismo determinado, voluntarioso que não pára para ouvir ponderações, argumentos, tergiversações e segue em frente, atropelando. Nós somos aqueles mortais que vivem a vida inteira absolutamente seguros de que essa tal mortalidade é rigorosamente dos outros. </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Essas coisas realmente acontecem e não tem barreira que nos proteja delas. Aliás, até tem, sim. Não que nos proteja delas, mas pode nos ajustar a elas. E essa barreira é exatamente a reflexão de que, como qualquer outra, essa é só mais uma crise. E se se resolve dar a ela uma importância exagerada, acaba acontecendo que nos tornamos reféns dela, seu alimento, sua vitamina, seu ar, seu tudo. E paramos de fazer tudo o que fazíamos só para nutrir a crise com comidinha na boca. Aí, a gente fica quase dois meses sem colocar uma linhazinha que seja no “blog”, por exemplo. Coisa feia, hein? Arreda, crise, vai se tratar. Exatamente como eu ando fazendo.</strong></p>
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			<media:title type="html">Crisis - turtle</media:title>
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		<title>Magos, quem pode cercá-los?</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 17:39:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bellinilima</dc:creator>
				<category><![CDATA[COISAS QUE EU PENSO NO DIA NOSSO DE CADA DIA]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem pela manhã me ligou uma amiga. Eu não estava em casa e quem atendeu foi minha mãe.  Percebendo quem havia atendido, minha mãe já bastante idosa, e talvez receosa de abordar o assunto que pretendia tratar comigo, a amiga fez alguns rodeios. E finalmente perguntou como eu estava naquela manhã, se estava muito abalado [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=blcon.wordpress.com&blog=3560269&post=278&subd=blcon&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><strong><img class="alignleft size-full wp-image-279" title="Zé Rodrix - Quem Sabe - 1974 - capa" src="http://blcon.files.wordpress.com/2009/05/ze-rodrix-quem-sabe-1974-capa.jpg?w=155&#038;h=160" alt="Zé Rodrix - Quem Sabe - 1974 - capa" width="155" height="160" />Ontem pela manhã me ligou uma amiga. Eu não estava em casa e quem atendeu foi minha mãe.  Percebendo quem havia atendido, minha mãe já bastante idosa, e talvez receosa de abordar o assunto que pretendia tratar comigo, a amiga fez alguns rodeios. E finalmente perguntou como eu estava naquela manhã, se estava muito abalado e por aí afora. Como minha “velhinha” mostrasse não estar entendendo o tom da conversa, a amiga acabou se revelando por inteiro. Perguntou se ela havia sido informada a respeito do Zé Rodrix.  E, em seguida, complementou que tinha ficado preocupada comigo, pois imaginava que eu estivesse tido um grande impacto já que éramos, Zé Rodrix e eu, amicíssimos. </strong></p>
<p><strong>Isso tudo minha velha mãe só me contou depois, talvez no dia seguinte. E, claro, ficou curiosa por saber se, realmente, eu era assim tão próximo do Zé Rodrix, já que ela nunca soubera disso.  Expliquei a ela que, na verdade, eu não tinha essa proximidade tão grande com ele. Então, porque razão a minha amiga tinha essa impressão?  Ah, aí está alguma coisa que merece ser contada. Tem pouco mais que um ano, eu e a parceira fomos assistir a um show de música lá no Villagio Café.  O artista que ia se apresentar era ninguém menos que o Tavito. Imperdível. Lá fomos nós e, a tiracolo, resolvemos levar uma amiga, exatamente essa do telefonema. E ela, por sua vez, levou junto uma outra que nós não conhecíamos. Quem conhece o Villagio sabe que, se por um lado costuma sobrar talento, por outro lado falta espaço. E é claro que a equação se agrava na medida em que, quanto mais talento, mais sério fica o espaço a menos.  Chegamos quase em cima da hora ou, para ser mais realista, quase em cima do que em tese seria a hora já que isso não é valor a que se dê muita importância. Afinal, quem gosta de relógio é suíço que, em descompensação, não tem Tavito. </strong></p>
<p><strong>O Villagio já estava consideravelmente lotado. Mas a sorte estava do nosso lado. E não apenas ela. A generosidade também. É que, assim que chegamos, bem na entrada, meio que fazendo as vezes de mestre de cerimônia, estava ninguém menos que Zé Rodrix. Para ser muito honesto, eu estive pessoalmente com o Zé Rodrix umas poucas vezes. Meus primeiros contatos com ele foram por meio de uma lista de internet. Lá ele representava o papel do polemista, o que provocava a todos com uma contundência que chegava a intimidar.  Trocamos e-mails e, cá entre nós, algumas farpazinhas de nada.  E, finalmente um dia, eu o conheci pessoalmente na noite de autógrafos do lançamento do livro de uma poetiza que também participava da lista e que todos chamavam carinhosamente de Etelinda. Nessa noite eu descobri um Zé Rodrix completamente diferente daquele personagem cáustico da troca de e-mails. Conheci um cavalheiro que manuseava as noções mais profundas de respeito humano com uma familiaridade de quem já nasceu sob esse signo. Foi nessa noite que ele me brindou com um ensinamento dos mais interessantes: “pior que levar lista de internet a sério é se levar a sério em lista de internet”.</strong></p>
<p><strong>Tempos depois voltamos a nos encontrar e desta vez em causa nobre. Organizamos, ainda pela lista, um show aqui em São Paulo com o propósito de arrecadar alimentos para necessitados. Era época de natal e o evento ganhou o nome de “Natal sem fome”. Zé Rodrix foi incansável e, outra vez, cavalheiresco. Trabalhou como um mouro para que o evento se realizasse e, claro, deu sua contribuição maior no palco. Quando o show terminou, um monte de alimentos arrecadados, eu apresentei a ele a minha parceira. Ele, então, se curvou e beijou sua mão. Caso alguém não consiga vislumbrar o que isso significa, nem vale a pena explicar. </strong></p>
<p><strong>Nessa noite no Villagio, chegando em cima da hora, lá estava ele. E Zé Rodrix nos recebeu como quem recebe velhos amigos. Efusivo, cheio de um calor humano que quase já não se usa mais, fez questão de nos conseguir uma ótima mesa quase no palco para que pudéssemos nos integrar com o clima do show que Tavito nos ofereceu. E nem é preciso dizer que não demorou muito para que ele mesmo também fosse para o palco transformar aquela noite numa dessas que não há tempo que apague. </strong></p>
<p><strong>Depois disso ainda encontrei Zé Rodrix num outro show. Não faz muito tempo, ele esteve ministrando uma palestra em uma loja maçônica freqüentada por um outro amigo. Além das fotos de praxe, fez questão de me mandar um abraço caloroso quando soube que esse amigo era meu amigo também.  E agora, eu me pego tentando explicar à minha velha mãe porque a nossa amiga acreditava que Zé Rodrix e eu fôssemos amicíssimos.  E, enquanto contava isso tudo, fui perdendo um pouco o rumo da história. É claro que eu poderia simplesmente confirmar a impressão da minha amiga. Isso só faria enriquecer a minha imagem perante ela e quem mais aparecesse. Mas talvez fosse um desrespeito à honestidade e à integridade de Zé Rodrix. Afinal, a vida não me honrou com a possibilidade de privar com ele o tanto que seria necessário a ponto de permitir que eu pudesse sair por aí alardeando que fomos amicíssimos. Mas, foi isso que ficou marcado na retina da memória da minha amiga. Nada mais natural. Afinal, como eu tentei dizer antes, aquela noite foi distinguida, dentre outras coisas, pela sorte de ter encontrado Zé Rodrix logo na entrada. E isso, traduzido em palavras mais concretas, significa dizer que foi marcada por ter encontrado a própria generosidade. Generosidade, sim, no sentido de grandeza, magnanimidade humana. Foi com isso que Zé Rodrix nos contemplou naquela noite e em todas as poucas, mas intensas oportunidades em que a vida me colocou frente a frente com ele. É difícil compreender como tantos atributos podem se harmonizar em uma só pessoa. Talentos múltiplos, personalidade, honestidade, senso crítico e, ao mesmo tempo, uma dose enorme de respeito, gentileza, cavalheirismo e generosidade, muita generosidade. </strong></p>
<p><strong>Minha mãe, se não éramos amicíssimos, passamos a ser agora. E vamos continuar a ser, de agora em diante. E não me venham com contra-argumentos ou obstáculos de qualquer espécie porque gente do porte do Zé Rodrix não se limita por meros conceitos de espaço e tempo. </strong></p>
<p><strong>23 de maio de 2009</strong></p>
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