Publicado por: bellinilima | Maio 5, 2009

AH, ESSA HUMANA CONDIÇÃO!

human-condition-reduzidaHá um sem número de coisas que parecem sobreviver e se manter apenas graças à imaginação das pessoas. Sem querer criar nenhuma polêmica, esses objetos voadores não identificados são um exemplo. Há quem jure que já viu e os mais ousados até afirmam ter viajado neles. Enquanto isso, as autoridades espaciais não confirmam nem desmentem e, então, entra em cena o imaginário popular espalhando à boca pequena que, na verdade, já existem provas de monte, mas não são reveladas para não assustar a humanidade inteira. Quem resiste a uma história fascinante como essa? E o fascínio reside exatamente no misterioso, no não provado. Se amanhã aparecer um sujeitinho de cor esverdeada (nunca entendi porque a eleição do verde para os extraterrestres) com duas anteninhas na cabeça (outro mistério dentro do mistério) pilotando um disco voador (não poderia ser um ovo voador ou um retângulo voador? Porque um disco?) e resolver pousar e dar uma coletiva em cadeia mundial, é capaz de não sustentar audiência por mais que uns quinze minutos. E vai estragar todo um enredo que vem acalentando e povoando os sonhos do pessoal há séculos. 

 

O fato é que há, por aí, uma porção de coisas que desafiam a curiosidade, provocam e intrigam as pessoas desde que o mundo é mundo. Boa parte delas pertence a esse terreno imaginário, essa espécie de realidade fantástica. Mas há umas tantas outras que, ao contrário, são reais, ainda que possam ser abstratas. A razão, por exemplo. Se há um conceito que vive desafiando, provocando, pedindo para ser decifrado e compreendido, esse é a razão. Ela está aí, na nossa frente, nos nossos olhos, na atitude das pessoas, nos discursos, nas teses, no cotidiano de todo mundo. E tem diferentes significados, ainda que, no fundo, todos se interliguem. Pode ser a capacidade de avaliar, julgar, discernir, construir julgamentos e raciocínios. Também pode estar ligado à lei natural, moral, apanágio do bom senso, juízo, prudência. Age com razão quem age de forma correta, equilibrada. Está com a razão quem tem o direito e a moral ao seu lado e segue seus princípios.  Pessoa racional é aquela que não se deixa levar pela explosão passional e segue sempre discernindo, julgando com equilíbrio e equidade, sem exageros ou injustiças.  Todos esses significados são extremamente familiares a todos nós, têm a nossa cara, o nosso jeito. Afinal, quem tem mais razão que nós, os humanos que, por definição, somos animais racionais?

 

O filósofo francês brindou a humanidade com um ensinamento definitivo. “O coração tem razões que a própria razão desconhece” é tão verdadeiro que virou até letra de samba de tão popular. Os anarquistas, quando submetidos a algum tipo de truculência ou despotismo gritavam indignados que “quando a força e a razão contrastam, a força vence e a razão não basta”. E cheios de razão. E o que pode ser mais comum que um “você não acha que eu tenho razão” quando estamos no meio de uma discussão cujo final começa a parecer vacilante? “Desculpe, mas você não tem razão neste caso” também é comum, do dia a dia. Aliás, bem mais comum. E há um ditado antigo, mas não menos verdadeiro e atual, que alerta: “Em casa onde não tem pão, todo mundo grita e ninguém tem razão” Tem coisa mais presente e real que a razão?  Provavelmente, não. Ela é o que distingue a raça humana, norteia a sociedade. Ou será que alguém duvida? Quem é que vive sem razão? 

 

Mas, já que se está falando de razão, qual é, afinal, a relação entre ela e toda aquela história de discos voadores? Pois, a meu ver, eles são quase tão intrigantes quanto a razão. Vamos testar. Dois motoristas (ou duas motoristas, é claro) colidem na rua. Batidinha banal, coisa do dia a dia, um lucrozinho para o funileiro e nada mais. Quem tem razão? Os dois (ou as duas). Ou alguém já viu uma criatura reconhecer que a culpa pela batida foi sua?  Em algumas oportunidades eu tive que desempenhar uma das tarefas mais desagradáveis em qualquer profissão: demitir alguém. Felizmente não foram muitas, mas em nenhuma delas o demitido reconheceu que a decisão era justa. Mesmo quando o indigitado havia sido apanhado em franco idílio com o alheio. E, quando acontece de, pelo menos, se repartir as culpas, o reconhecimento nunca dura mais que algumas horas. Bem rapidamente o demitido recupera integralmente a razão. Se a coisa acontece numa sexta-feira, a fúria volta multiplicada logo na segunda. E pode haver alguma coisa mais contraditória que dois ou mais indivíduos gritando uns com os outros em incontrolável estado de exasperação para provar que têm razão? Razão, justamente aquilo que é definido com equilíbrio, prudência, bom senso, capacidade de raciocinar e discernir.  Alguma coisa não fecha.

 

Nós, pessoas, sujeitas e sujeitos, conseguimos embaraçar o novelo quando se trata de razão. Ou, mais particularmente, de definir com neutralidade de que lado ela está.  A minha impressão é que, no fundo, a razão é muito dada. Está sempre do lado de todo mundo. E nós, os racionais, os únicos na escala biológica que a detemos, não abrimos mão disso. Um amigo me contou a poucos dias que marcou um encontro com a parceira em um dos “shopping center” da cidade. Não tinha exatamente uma hora marcada, só alguma coisa por volta disto ou daquilo, O meu amigo chegou antes dela e ficou andando um pouco, esperando que ela chegasse. Acontece que eles também não tínham determinado um lugar específico para o encontro. Mas isso deixou de ser um problema depois do telefone celular. Depois de algumas voltinhas pelos corredores do paraíso do consumo do dia, o meu amigo ligou para sua parceira. Respondeu aquela atendente insuportável que diz que está nos remetendo à caixa postal. Isso se repetiu por umas quinze vezes ou, em outra unidade de medida, por uns 30 minutos. Até que, finalmente, alguém atendeu. Era a brava e eficiente funcionária doméstica e guardiã da casa deles. A moça informou então que a dona da linha, a parceira, havia esquecido o aparelho em casa. Mas a própria, a parceira, já havia ligado para ela de um orelhão pedindo para que ela avisasse o meu amigo que ele deveria encontrá-la em frente a uma determinada loja. Lá se foi, então, o meu amigo. Ela não estava, mas apareceu logo em seguida. Para estocá-lo com a seguinte interpelação: “MAS POR ONDE VOCÊ ANDOU ATÉ AGORA”? Pode haver pergunta mais natural?

Publicado por: bellinilima | Abril 21, 2009

PASSARINHO NA MUDA!

ugly-birdZé Hercilio é meu amigo de muitos anos. Assim como eu, chegou recentemente à faixa dos 60. Por mais que digam que a medicina de hoje está avançada a ponto de levar um individuo a casa dos 80 ou 90 com excelente qualidade de vida, só quem chega a barreira dos 60 é que consegue visualizar a coisa com clareza. Afinal, nós, atuais sessentões viemos de um tempo que chegada a barreira dos 60, o que viesse depois era lucro. É difícil não chegar nessa etapa sem a carga cultural trazida de tanto tempo. Portanto, essa maravilha toda prometida para depois dos limites da chamada terceira idade, só vendo pra crer e, olhem, acho que vamos ver sempre com um pezinho atrás.

 

Acho que conheço o Zé Hercílio muito bem. E ele a mim. Como já somos amigos há muitas décadas, adquirirmos certa prática um do outro. Eu percebo quando ele caminha desafinado e ele mata de cara quando passei do ponto. Zé Hercílio é um sujeito rigorosamente comum. Aliás, é tão comum que chega a se destacar entre os comuns. É um bom camarada, nunca soube que tivesse sido desleal com ninguém, anda na linha como poucos. Por outro lado e dentro da sua natureza de sujeito comum, o nosso Zé Hercílio é desses tipos que não ostentam nenhum talento em especial. Nunca soube que, quando criança ou adolescente, tivesse sido bom esportista. Depois de adulto, posso garantir que não foi. Aliás, nem nunca foi esportista. Também nunca tive noticia que fosse bom jogando sinuca ou baralho, peteca ou fosse lá que jogo fosse.

 

O meu amigo lê jornal, revistas e alguns livros assim como a grande maioria.  Não é e nunca foi um intelectual, mesmo nos tempos em que a juventude achava que era e vivia arrotando sabedoria pelas esquinas, manchando um livro qualquer com o suor das axilas, de onde dificilmente o exemplar saía.  Nem mesmo nesse tempo o Zé Hercílio passava por intelectual ou dono de grande cultura.  Também não tenho noticia que o simplório Zé Hercílio tivesse talentos artísticos que o diferenciassem de alguém.

 

A esta altura alguém poderia concluir que o meu amigo é um idiota completo, quase fronteiriço e me perguntar por que diabos estou escrevendo sobre ele. Não é assim.  Parando para pensar, vamos ver que o Zé Hercílio poderia ser facilmente, um representante fiel de uma grande massa de pessoas que nasce, cresce, vive e morre e compõe o cenário da vida.  Se formos imaginar a vida como uma grande peça teatral, vamos perceber que cada um tem seu papel. Há um autor, um diretor, cenógrafos, sonoplastas, iluminadores, os atores principais, os coadjuvantes, o pessoal da técnica, da limpeza, da bilheteria, uma turma grande, difícil de ser lembrada integralmente sem o risco de se cometer injustiças. E há a platéia, o público que comparece, paga o ingresso, assiste, aplaude, incentiva. A platéia é importante? Com absoluta certeza. E, no entanto, é inteiramente anônima, uma grande massa de gente desconhecida que não se destaca individualmente, mas, apenas, como massa, como público, como platéia. “O público da estréia foi dos melhores”, diria um crítico teatral. Quem compõe o público? Um contingente, maior ou menor, de Zé Hercilios, gente como o meu amigo.

 

Já faz tempo que o meu amigo me confidencia uma queixa da vida: tem, lá com ele, a impressão que as pessoas, principalmente as de sua convivência, estão sempre preocupadas em contestar tudo o que ele diz; Alguma coisa parecida com um desejo de vencê-lo, derrubá-lo, feito uma competição. Eu acho isso bastante curioso porque, pelo que conheço do meu amigo Zé Hercílio, ele é dessas pessoas a quem ninguém poderia ter interesse em vencer. Seria como vencer o último colocado na tabela do campeonato. E o mais curioso é que ele, Zé Hercílio, parece ter consciência de sua condição de ilustre desconhecido e anônimo. Digo isso porque, no meio de suas confidências, ele me diz exatamente isso. Reconhece que é um anônimo por vocação e, então, não consegue entender porque competem com ele.

 

Bem, essa idéia de que competem com o meu amigo é coisa dele. Não sei se isso é verdade ou não. Conhecendo-o como conheço, até acho que isso é coisa da cabeça dele.  Mas, se está na cabeça dele, a coisa existe. É impressionante o tanto de vezes que, durante a vida inteira, cada um de nós acaba vivendo esse tipo de situação. É possível que se formos fazer uma análise mais profunda, vamos acabar descobrindo que uma grande parte dos nossos problemas, queixas, ressentimentos, nem existem de verdade, estão só na nossa cabeça, na nossa percepção. Mas, isso não melhora em nada a situação porque, se estão na nossa cabeça, é como se existissem de verdade. Aliás, existem, mesmo, a ponto de nos incomodar.

 

Também é preciso considerar uma outra coisa: se o nosso Zé Hercílio acha que uma porção de gente age assim com ele, pode ser que haja algum fundo de verdade nisso. E, se for assim, deve haver uma razão para que isso aconteça. Afinal, não acho que ele seja do tipo de gente que acredita que o mundo está errado e só ele está certo. Portanto, o que será que o meu amigo anda fazendo ou sempre fez a ponto de levar as pessoas a reagirem da maneira que ele imagina e sente? Nada vem do nada. Meu caro, será que você não se porta de maneira um tanto arrogante? Será que você realmente se reconhece um ilustre “mais um” ou, no fundo, se acha o máximo e por conta disso age e fala naquele tom professoral que ninguém suporta? Pense, amigão, pense. Dê uma olhada em você mesmo. Você vai me dizer que é difícil e eu reconheço que é. Só que você é quem tem um problema e está se queixando dele. Então, mãos a obra, parceiro ou fique com o seu resmungo e não se queixe. Sempre há um espelho por aí que nos permite enxergar a nós mesmos. Tente prestar atenção nos outros. Deve haver uma porção de gente que se comporta assim e gera o mesmo tipo de reação nos outros. Vai ver que até você mesmo reage assim diante de uma porção de pessoas que você considera arrogantes e que pensam ser as mães da realeza, ou seja, têm o rei na barriga. 

 

Meu caro amigo Zé Hercílio, não sei o que te dizer. Afinal, eu não sou em nada diferente de você e certamente tenho cá os meus enguiços que são só frutos da minha própria cabeça complicada e da minha atitude.  No entanto, se você anda achando que o que você fala acaba sendo objeto de contestação e que as pessoas pegam isso para poder te derrotar, só posso te sugerir duas coisas. Uma delas é prestar atenção em você mesmo e ver se não está fazendo exatamente aquilo que você acha que os outros pensam que você está fazendo. Simples, não é? A outra coisa é: ao menos enquanto você não consegue esclarecer isso tudo com você mesmo, fale menos. Não se esqueça que passarinho na muda, não pia.

Publicado por: bellinilima | Abril 15, 2009

QUANDO A VIDA IMITA A VIDA

theater-of-life-reduzidoDizem que a vida imita a arte. Pode ser que seja verdade, mas, qual delas? Afinal, arte é o que não falta, ainda que poucos sejam os verdadeiros artistas. Música, pintura, literatura, qual delas a vida costuma imitar? A minha resposta vai para o teatro. Por quê? Porque é no teatro, acima de qualquer outra forma de arte, que se destacam os papeis. Os atores representam personagens ou, em outras palavras, representam seus papeis. Os personagens, por sua vez, também significam diferentes papeis no contexto da trama, seja ela uma comédia, seja um pesado drama, seja um musical.

 

Papeis, tudo se resume em diferentes papeis. O público, por sua vez, reage diferentemente diante de cada um desses papeis. Normalmente é positivamente sensibilizado pelos heróis de bom caráter, se revolta contra os vilões, é indiferente ou pouco afetado por aqueles papeis mais mornos que, embora compondo a paisagem, tem pouco destaque. Os diferentes papeis determinam, portanto, a posição que cada um dos elementos componentes do teatro vai adquirir aos olhos e coração do público. Consequentemente, será a posição de cada um desses papeis que vai influir mais ou menos na vida social, emocional e cultural dos espectadores.

 

Alguém poderá argumentar: isso equivale a se acreditar no destino. Afinal, o texto encenado pelos atores é produzido por um autor que, a seu critério, determina a natureza e o destaque de cada personagem. Assim, a tal posição de cada personagem já está previamente determinada pelo autor da peça. Nada mais enganoso. E são muitos os exemplos. Quantas vezes já presenciamos espetáculos de teatro em que um personagem originariamente secundário acaba se sobressaindo aos olhos do público graças ao desempenho do ator que o representa? Para dar um exemplo concreto, quando entrou em cartaz a peça “Trair e coçar é só começar” mostrou uma Denise Fraga, atriz de qualidades superiores, levar a sua personagem, uma empregada doméstica, a uma posição de invejável destaque. Quem viu a mesma peça encenada por outras atrizes que ainda não alcançaram o mesmo grau de determinação pode constatar que a personagem não teve o vigor a ela conferido pela incomparável Denise.

 

Aqui, a vida imita a arte. Cada um de nós tem papeis a representar na sociedade, estejamos nos referindo à sociedade como um todo ou aos nossos próprios círculos sociais. Todo o tempo estamos representando nossos papeis. A própria sociedade, ao longo do tempo, tem se incumbido de, tal como um autor de teatro, escrever o texto e determinar a posição dos diferentes papeis. No entanto, é perfeitamente possível e chega a ser comum que um ator, indicado para um papel originariamente tido como menor, acabe dando a ele, seu papel, um destaque significativo enquanto outro, escalado para ser o personagem principal, faça de seu papel uma coisa opaca e insossa.

 

Aí reside a grandeza do homem. Contrariamente ao que pretendem aqueles que defendem o destino, ao homem é possível traçar seu próprio rumo. Basta que não se acomode ao papel que originariamente lhe é entregue, seja lá por quem for.

 

O que será preciso para, então, mudar a característica do papel eventualmente secundário que recebemos? Como fazer para transformar o brilho do nosso personagem quando ele não “está” no papel principal, mas, um coadjuvante? A meu ver, são precisas algumas poucas coisas. A primeira delas é ter respeito ao papel que recebemos e reconhecer sua importância. Tudo é importante. Oscar Niemeyer, o genial arquiteto que projetou Brasília, jamais veria sua obra concluída e materializada não fossem os chamados “candangos”, aquele pessoal humilde e anônimo que levantou as paredes e as vigas, que misturou o cimento e a areia, que instalou os encanamentos e fez as pinturas. Se, antes de tudo, não dermos importância ao papel que estamos desempenhando, certamente ele não ganhará brilho e, aí sim, se tornará um papel abaixo de secundário. É preciso enxergar o nosso papel como parte integrante, essencial e indispensável do contexto e encarnar, incorporar essa importância, se sentir parte do todo, parte imprescindível. 

 

A partir do reconhecimento da importância do nosso papel e de incorporarmos essa importância, o passo seguinte (e quase natural) é que passamos a nos sentir importantes e úteis, tanto quanto o nosso papel. Isso necessariamente vai alimentar e fortalecer a nossa auto-estima e nos impulsionar a desempenhar o nosso papel de maneira vigorosa e eficiente. Com isso ganhamos nós, ganha o nosso papel e ganha o contexto no qual estamos agindo. Se, contrariamente, não reconhecemos a importância de nosso papel e a nossa própria importância ao desempenhá-lo, a tendência é agirmos de maneira burocrática, como que “cumprindo tabela”, sem qualquer preocupação com os resultados finais do contexto no qual estamos agindo. Esse tipo de atitude só nos leva cada vez mais para o terreno da insignificância, da falta de brilho e de sabor.

 

E o que será necessário, afinal, para que nós, atores, transformemos o nosso papel temporariamente secundário em papel de destaque? Talento? Talvez. Honestidade de propósitos? Com certeza. Determinação e aplicação? Com absoluta certeza. O segredo, a chave do mistério, a fórmula milagrosa talvez esteja na conjunção desses dois fatores: HONESTIDADE DE PROPÓSITOS e DETERMINAÇÃO/APLICAÇÃO. O ato que se reveste dessas qualidades está fadado ao sucesso. Seus papeis, ainda que temporariamente secundários, vão se transformar em papeis principais ou, no mínimo, de grande destaque e importância sempre que ele, ator, sustentado por aquela fórmula miraculosa, entrar em cena. Então, o espetáculo assim conduzido será de gala e talvez seja possível concluir que, em vez de a vida imitar a arte, o certo seja que a vida imita a própria vida.

Publicado por: bellinilima | Março 29, 2009

FIM, MEIO COMEÇO

couple-of-old-dogs-on-the-road-again-mais-reduzida2Desde os meus tempos de escola básica (chamava-se curso ginasial) sempre me intrigou aquela história de as paralelas se encontrarem no infinito. Para fazer justiça, é claro que isso foi só uma das milhares de outras coisas do mundo das ciências matemáticas que me punham louco.  Também sofri verdadeiros suplícios diante das equações e cálculos de todo gênero. E se havia alguma coisa que despertava os meus instintos mais assassinos era aquele “CQD” dito com toda naturalidade pelos professores ao final de um teorema. “Como queremos demonstrar” Ora, o que é que se poderia querer demonstrar com aquela imensidão de números, letras e sinaizinhos? Mais raiva, ainda, me dava a falsidade de expressão da maioria dos meus colegas, com aquelas caras tranqüilas e serenas de quem havia entendido aquilo tudo e que tudo fazia todo sentido. Mas as tais paralelas, andando separadas pela eternidade afora e, de repente, se encontrando num lugar impossível de se imaginar, chamado infinito, essas sempre me intrigaram muito.

 

Reza a lenda que, depois de mais ou menos vinte dias caminhando por aí, sujeitos com residência fixa e ar circunspecto devem retornar ao lar. Não sei que lenda é essa, mas os ecos da tal residência fixa começaram a se fazer presentes. Os adolescentes modernos, esses que mantêm a condição por bem mais tempo, são razoavelmente exigentes. “Vocês não voltam mais, não?” “Mas, afinal, o que está acontecendo?” E mesmo os que já, atendendo aos preceitos bíblicos, deixaram pai e mãe para constituir novo núcleo, essas também não deixam de inquirir, questionar qualquer coisa que, no entender deles, não se ajuste muito bem ao que se espera de um casal mais provecto.  Ou, pelo menos, ao que eles esperam. Conclusão: de volta pra casa, a parceira e eu.  Meio contra vontade, xingando a tal lenda que fica rezando por aí, reclamando dessa indigesta circunspeção que rotularam na gente, fomos lá de volta ao lar.  Mas, também, não foi assim tão tranqüilo. Não entregamos os pontos com essa facilidade. “Quando é que vocês chegam”. “Em alguns dias” foi a nossa resposta rebelde e envelhescente aos nossos adolescentes temporões e caretas.

 

Depois de pingarmos em vários recantos chegou, afinal, a Antonio Prado, do “Quatrilho”. E não desapontou. É que a nossa expectativa era por um lugarzinho pequeno, simples, com raízes regionais e um pé no passado. Isso é uma fotografia mais ou menos fiel de Antonio Prado ou pelo menos o que a minha câmera modesta conseguiu refletir e registrar.  A rua principal, uma pracinha muito bem cuidada, casinhas antigas e com a porta de entrada e janela de madeira dando para a calçada e, uma curiosidade interessante: placas na parede da frente de quase todas as casas contando a história da família que viveu ali. E outra curiosidade também interessante: a maior quantidade de salões de beleza que se encontrou entre todas as cidades por que passamos.  Nem de longe imagino porque.

 

E foi em Antonio Prado que conseguimos, pela segunda vez, nos livrar do automóvel, sair a pé e jantar bebendo um vinho. O restaurante mais recomendado da cidade era, na verdade, uma espécie de bar com jeitão bem familiar, desses em que a gerência, o caixa e a cozinha ficam nas mãos do pai, da mãe e da filharada, quando não tem avôs e avós. Um macarrãozinho de quinta-feira (os de domingo são mais sofisticados) precedido de uma saladinha de alface, tomate e condimentos igualmente domésticos, tudo naquela louça até um pouquinho lascada. E um vinho que, em hipótese alguma, teria o atrevimento de se ombrear com os parentes muito mais nobres da região vinícola mais decantada do país.  Mas, o tempero do aconchego, esse foi de enternecer, quase tanto quanto a “mamma” que nos servia quando não era arrebatada pelo fascínio da novela das oito que rolava solta na TV. Eram os últimos capítulos.  O preço do jantar não há nem como dizer em público sem faltar com o pudor, de tão pequeno que foi.  Antonio Prado é um suspiro de nostalgia, daqueles puxados do fundo do peito e da alma como faziam os velhos italianos que a construíram. E até um friozinho respeitável nos brindou por aquelas bandas.

 

Mas, a hora chegou e fim é fim. E o caminho de volta sempre parece mais curto. Então, o jeito é encompridar. E nisso a parceira se mostrou uma verdadeira especialista. Antonio Prado a Blumenau, parada para o pernoite e, na manhã seguinte, Blumenau a Paulicéia. Roteiro razoável, distancias equilibradas. E vai que, chegando à altura de Lages, a parceira se lembra de um produto natural tirado a milagroso que ela já havia comprado, mas bem que poderia levar um pouco mais e tudo. A loja era mais ou menos no caminho, que diferença faz uma desviadinha no percurso. Dobramos a direita e fomos parar em São Joaquim, aquela mesma São Joaquim do começo do roteiro, onde fomos buscar neve e só encontramos o tal produto natural. O desvio foi, de fato, coisinha pouca: 80 quilômetros. Tem jeito melhor de quebrar essa escrita de que o caminho de volta sempre parece mais curto? E que sacrifício. Em vez de Blumenau tivemos que fazer a parada numa tal Florianópolis. Argh!!!

 

O resto foi de acordo com o que não tínhamos planejado, mesmo. E eu continuo intrigado com a história das paralelas. Como é que duas coisas distintas com as linhas das paralelas, podem se encontrar e ainda mais num lugar tão longe?  E mais ou menos como o fim e o começo. São simplesmente os opostos. E, no entanto, eles se encontram. Se encontram, sim, posso garantir. É que, quando se trata de uma tarefa com a que estamos concluindo, o fim é meio o começo da seguinte. Lá estão fim e começo se encontrando bem no meio. No meio da nossa vontade de começar tudo de novo, meio que até o fim.

 

Pé na estrada!!!!!

Publicado por: bellinilima | Março 27, 2009

CARA FEIA É FOME

going-to-jail-reduzidaHá umas tantas noites minha mulher e eu fomos ao teatro. Coisa boa demais. Ir à balada durante a semana é a melhor vingança. Uma amiga de minha filha, além de advogada também é atriz e estava atuando em uma peça extraordinária chamada A SENHORA DOS AFOGADOS. Texto de Nelson Rodrigues, um roteiro musical de primeiríssima linha, arranjos muito bem feitos, um desempenho emocionante dos atores que também cantam durante o trabalho, tudo foi encantador. A peça estava em cartaz no Centro Cultural de São Paulo.

 

Como éramos seis pessoas, estávamos em dois carros. Eu com meu bravo Corolla 2003 e um casal de amigos num Senic. Estacionamos em frente ao Centro Cultural, na Rua Vergueiro. Assistimos a peça, esperamos a saída dos atores para cumprimentar a nossa amiga (e, cá entre nós, “tietar” um pouco, que ninguém da minha geração conseguiu se livrar totalmente da Revista do Rádio). Chegamos ao estacionamento por volta de umas 11.30 horas. Aí começou o segundo ato.

 

Havia ocorrido uma espécie de arrastão. Cinco bandidos haviam invadido o estacionamento e roubado quatro veículos. O meu Corolla até foi alvo da cobiça dos infelizes, que, por sorte, não conseguiram manejar o câmbio automático. Tenho uma amiga que costuma dizer que, às vezes, a ignorância é uma benção. Endosso plenamente suas palavras. No entanto, tanto o Senic do casal de amigos, quanto o carro da nossa amiga atriz não estavam na lista de proteção do anjo da guarda de plantão e foram levados pelos ladrões.

 

Instalou-se o alvoroço, não antes, é claro, da indefectível incredulidade. “Como, meu carro foi roubado? Tá de sacanagem.” “Dentro do estacionamento???” . Passada a já protocolar fase da incredulidade e a do alvoroço, veio a etapa das providências: ligar para a policia, para os parentes, para o seguro. Felizmente não havia nenhum mal humorado no grupo. Coincidência um tanto rara e, por isso mesmo, extraordinária. Ao contrário, foi-se estabelecendo uma espécie de cumplicidade como se todos tivessem resolvido se unir para desmoralizar o azar e o crime. Ah, roubaram? Pois, dane-se. Vamos rir de tudo e de todos. Quero ver quem pode contra o riso”. Imagino que se os ladrões pudessem imaginar que a nossa reação seria essa, ou se sentiriam ofendidos com tamanha falta de respeito ou, quem sabe, até fossem procurar vítimas que soubessem se comportar de maneira mais convencional e digna diante de um assalto. Já não se fazem vítimas como antigamente. 

 

Uma das minhas primeiras surpresas foi constatar que, por unanimidade, todos os veículos roubados, bem como o próprio estacionamento, tinham seus seguros com a Porto Seguro. Passado o impacto inicial, o espanto e um outro palavrãozinho, foi aquele mar de telefonemas para o 333 Porto. Eu não pude deixar de me lembrar do porteiro que indica o endereço a todo mundo, menos a gostosona toda ensaboada a quem ele vai atender pessoalmente. Não houve esse incidente, mas também não houve como não lembrar tanto dele quanto, especialmente, dela. 

Dois dos veículos tinham rastreadores. Os outros dois, um pouco mais antigos, não tinham o equipamento. Lá ficamos por cerca de uma hora, já com a presença da policia que, diga-se, foi muito solícita e atenciosa. Nesse ínterim, um dos veículos rastreados já foi encontrado pelos agentes da Porto Seguro. Como era inevitável, lá fomos todos para a Delegacia. Já passava de meia-noite, mas o clima de bom humor tomou conta daquele pequeno grupo de vítimas e acompanhantes. E acho que o astral da turminha acabou contagiando os policiais que também transitavam entre nós com muita desenvoltura, respondendo com gentileza a todas as perguntas, prestando esclarecimentos. Até o Dr. Delegado, que a principio ensaiou uma atitude mais severa e a tentação de afivelar uma máscara de sisudez, acabou afrouxando a gravata e descobriu que o melhor era entrar no cordão dos bem humorados. Engatou-se uma conversa que mais lembrava um churrasco de sábado à tarde.

 

O carro do casal de amigos também foi rastreado pelo pessoal da Porto. As outras duas vítimas, a nossa amiga atriz e uma outra moça que, por sinal, também é atriz, não foram encontrados. O guincho da Porto foi acionado para remover o veículo do casal de amigos pois as chaves desapareceram. Alguém até perguntou por que, diabos, os sujeitos haviam levado as chaves. Ora, pensei comigo, com tamanha falta de respeito pela solenidade de um assalto, o que se poderia esperar? Da próxima vez, nós que nos comportássemos com mais respeito e menos deboche e, quem sabe, o meliante fosse mais gentil. 

 

Ficamos na Delegacia até as 3:00 horas. Os policiais fizeram os boletins de ocorrência e, em seguida, os autos de liberação dos dois veículos recuperados. Não houve quem não destilasse uma gozação sobre a necessidade se fazer o Boletim dos dois carros recuperados. Ora, se já encontraram, para quê registrar? Bem, a noticia já estava correndo entre os policiais da região. Agora imagine o motorista de um desses dois carros sair lépido e fagueiro com seu possante e ser gentilmente parado numa barreira com mimosas metralhadoras apontando para sua carinha espantada. Até o bom humor corria o risco de desaparecer. Que se cumpram os trâmites. 

 

Prá dizer a verdade, foi tudo memorável. Em dado momento havia um grupo composto só pelas nossas mulheres (esposas e amigas) se fotografando na porta do posto policial. Se eu tivesse que complementar a cena com um fundo musical, escolheria o DE FRENTE PRO CRIME, do João Bosco e Aldir Blanc, que fala de um corpo caído no chão e o pessoal em volta discutindo futebol, um camelô vendendo anel, cordão, perfume barato, um bar mais perto que depressa lotou, um sujeito que subiu na mesa e fez discurso para vereador. Enfim, uma verdadeira festa improvisada. Para completar, o pessoal do guincho da Porto distribuiu a todos os presentes, um lanchinho mito honesto que, àquela altura da madrugada, mais parecia um requintado banquete. Até os valorosos soldados da lei fizeram uma boquinha. Êta, coisa boa! .

 

Pouco depois, dando-se os trâmites for findos, a Porto providenciou táxis para as duas moças cujos veículos não haviam sido encontrados e nós, os demais, tomamos o caminho da roça no meu intrépido Corolla, salvo da sanha da criminalidade graças a abençoada ignorância do malfeitor.

 

Algumas lições: ninguém está a salvo de coisa alguma nesta cidade, mas a gente já está tão acostumado com isso que não faltaram os agradecimentos de todos pelo fato de só terem levado os carros. Como se isso fosse aceitável. A gente pode viver um episódio assim de várias maneiras. Nenhuma delas vai mudar coisa alguma. Assim, fica a critério de cada um entrar numa freqüência de ódio contra a sorte ou se sentir o mais infeliz dos viventes. A nossa escolha foi o bom humor. Também não mudou em nada a situação, mas, ao menos, garantimos o terceiro ato da peça teatral no tom da comédia. Nelson Rodrigues que nos perdoe.

 

Publicado por: bellinilima | Março 18, 2009

CICLOS E QUADRAS

sunset-city-reduzidaQue importância tem se já existe no teu rosto uma ruga ou outra? Eu também já não tenho os mesmos olhos para enxergá-las. Hoje eu vejo muito mais com o coração do que com os olhos. E o coração está cada vez mais acurado.

Que importância tem se os teus seios já não são tão altivos e soberbos. Eu também já não ando tão ereto quanto andava quando eles olhavam por cima de mim. Hoje, estamos iguais, olhamos de frente e na mesma linha de visão, como já disse antes de mim e mais bem dito, um versista de verdade.  

Que importância tem se o ponteiro da balança anda hoje um pouco mais do que andava tempos atrás?  Certamente, a gente também andou muito e muito mais do que cada marca da balança. Essa ficou muito atrás de onde o tempo já nos levou, de cada emoção, de cada sorriso, de cada paixão.

Que importância tem se, junto com o café da manhã, estão na mesa alguns discretos comprimidos? Afinal, eles não são nossos companheiros desde há muito? Antes eram vitaminas que nos ajudavam a aumentar a força. Hoje são conservantes da nossa integridade. Quem bom que eles existem!

Que importância tem se, apesar do clima tropical, alguns flocos de neve começam a aparecer nos cabelos? Afinal, já está provado que enquanto o preto é a ausência de todas as cores, o branco é exatamente o contrário: a presença de todas elas num majestoso arco-íris.

Que importância tem se, ao te enlaçar, é preciso um pouco mais de braços? Hoje você preenche os meus, tanto quanto preenche os meus sonhos e o meu repouso e a minha sede de paz. Que bom tê-los, os braços, em plena ânsia de enlaçar, de apertar, de acarinhar.

Importância tem é a história que estamos construindo desde muito tempo quando os sonhos eram outros, muito mais intensos e que termos sabido manter e prosseguir. Sonhos não envelhecem desde que os sonhadores saibam trata-los como bonsais que são.

Importância tem é a canção que há tanto tempo estamos compondo, acorde por acorde, modulando quando o tempo assim requer, agregando sustenidos e bemóis sempre que o dia-a-dia pede um tempero, respeitando as pausas quando elas se fazem necessárias, mas, harmonizando sempre, seja com acordes perfeitos, seja com as dissonâncias, seja com os tons maiores da alegria, seja com os menores de melancolia, todos parte integrante dessa grande sinfonia da vida.

Importância tem o poema que estamos escrevendo com o nosso cotidiano, ajustando a métrica ou nos permitindo as licenças poéticas, rimando quando assim se faz possível, poetando de maneira concreta quando o momento é de menos sonho e mais realidade, adicionando versos a cada dia de nossas vidas.

Importância tem a vida que resolvemos viver juntos, a caminhada que optamos por partilhar, os sonhos que resolvemos sonhar e os despertares que decidimos despertar juntos, a despeito da cara amassada das manhãs, do cabelo embaraçado, da necessidade de alongar nossos corpos já temperados pela chama da vida.

Importância tem, sim, o nosso pulsar de cada dia, o dia nosso de cada dia, os sonhos que temos colocado no forno para que dourem cada vez mais e recendam àquele cheirinho de café quente das manhãs no campo ou ao bolo de fubá da tardezinha.

Importância tem o que nós decidirmos que é importante, pois nada será mais importante do que o que nós decidirmos. Importante é não nos impor tanto. Importante é nos impor o tanto de beleza, de magia, de liberdade de que a vida é feita se quisermos que ela seja feita devida e fantasticamente.

 

 

 

 

 

Publicado por: bellinilima | Março 14, 2009

BERKELEY, HIPPIES E SONHOS

old-hippies-reduzida“Dois motoqueiros hippies viajando pelos Estados Unidos de motocicletas em busca de uma grande partida de cocaína. Era Sem destino (Easy Rider, 1969) um pequeno filme de estrada, que mudaria Hollywood para sempre, sintetizando os medos e as esperanças dos anos 60. No lugar de John Wayne ou Gary Cooper, ali estavam eles, vivenciando plenamente a liberdade na estrada. “(Sem destino (Easy Rider) – Lee Hill – Cinema, 104 páginas – Tradução: Pedro Karp Vasquez”. Aí está uma curta sinopse que dá uma pálida idéia do que foi esse filme que acabou virando uma espécie de símbolo, de hino da liberdade total, do completo desapego às regras, aos compromissos, aos preceitos da sociedade. Lá pelos idos dos anos 60 e 70 essa idéia de viajar sem destino fascinou toda uma geração de  jovens, ávidos de quebrar regras e não viver mais como os país, dando duro no trabalho, cultivando antigos preceitos sociais tidos como asfixiantes. Parecia a inauguração de uma nova era na história planeta e da sociedade humana.  E foi, mesmo, só que em muitos outros aspectos. Aquele sentido de liberdade, de vida sem destino, aquele esbarrou em alguns hábitos bem prosaicos,  tipicamente burgueses como os de comer umas duas ou três vezes por dia, vestir algo confortável e que protegesse do frio. Apesar de tudo, não se pode dizer que não deixou lá suas marcas na  história recente do planetinha e dos protagonistas.

 

Tirando as drogas, que essas não têm vez comigo em hipótese alguma, essa história de se atirar pelo mundo meio sem destino é fascinante, mesmo. Mas, cá entre nós, é preciso colocar um temperinho nisso. Em Berkeley, na Califórnia, considerada o berço da civilização hippie, ainda é mais ou menos freqüente encontrar uns sujeitos de barbas e cabelos longos, só que brancos, dirigindo carrões coloridos, ao mais fiel estilo psicodélico. É pitoresco, sem dúvida, mas depois que eu descobri os hotéis e os carros com ar condicionado, não me sinto muito tentado a meter o pé na estrada de qualquer jeito. E a parceira, nesse ponto, fecha comigo e não abre. Foi por isso que a nossa aventura sulina teve uns “quês” de “Easy rider”, mas sem exageros. Acho que até já fiz esta observação: quem é que vai sair pelo sul do país afora em pleno inverno no estilo “procurando caçapa”? Com todo o respeito pelo carisma da dupla e seu significado sócio-histórico, acho que nem os dois protagonistas do “Sem Destino”. Até porque, sair na aventura com a infra-estrutura de Hollywood não é tão intrépido assim.  Nós, dupla tupiniquim e já um tanto passada daqueles tempos, fomos na certeza. Mas, desde os rubros vales do vinho até o desvario da paulicéia, resolvemos nos encapetar e vagar pelas ondas do fácil galopador (tradução mais ou menos literal e que, como qualquer outra do gênero, fica bem idiota). Em outras palavras, depois de abençoados pelos fluídos de Bento Gonçalves, resolvemos que a volta seria ao Deus dará. E Ele deu.

 

O percurso entre o Vale dos Vinhos e Antonio Prado, o cenário do “Quatrilho” pode ser uma linha meio reta ou cheia de reentrâncias e saliências.  Seria mesmo preciso passar por Farroupilha? Segundo o mapa, não. Mas, sem passar por lá, adeus ao Santo Ventoso. Aí, nada de passar praticamente por baixo de uma cachoeira, exatamente o lugar onde o casal de atrevidos adúlteros do “Quatrilho” se beija pela primeira vez. E ficar ali, pensando nessa grandeza toda que a mãe natureza espalha por aí sem qualquer comedimento. E também não seria necessário desgarrar para Flores da Cunha, um mimo de lugar. Sabe aquele soninho gostoso que bate depois do almoço de um dia forte de calor? E sabe aquela rede que fica na varanda em frente à sala de almoço grande, colonial, piso de madeira que range um pouco quando se anda, como se cantasse uma cantiga secular? E sabe aquele olhar desmaiado que a rede joga sobre a gente logo depois do almoço, convite lascivo para nos deitar e nos deixar ficar tempo afora? É assim que Flores da Cunha nos olha, É assim que ficamos com vontade de nos deixar ficar por lá. Ali a calma se materializou para durar mais tempo que um carvalho. Mas também é por lá que se encontra uma garotinha de seus 17 anos que nos vai ciceroneando por uma das grandes vinícolas da cidade e que nos conta que até pouco tempo antes nada sabia sobre vinhos. Mas decidiu que era hora de buscar um trabalho e foi conquistar o seu, lá mesmo, na vinícola cheia de gente antiga e ciosa de seus conhecimentos adquiridos ao longo de décadas e gerações. Talvez os solenes senhores da vinicultura não tenham contado com aquele pequeno azougue, criança buliçosa que saiu aprendendo de tudo e que já sonha em se lançar para o mundo.

 

Essas coisas estão espalhadas por aí como flores nativas prontas para serem colhidas. É só sair mais ou menos como os dois motoqueiros do filme, só que sem precisar se sujar com porcarias, bobagens e drogas.  E Antonio Prado que ainda não chega. Alguém nos disse que por lá não há nada que não se possa ver por mais de quinze minutos. É possível que se consiga olhar tudo nesses quinze minutos. Já, ver o que há por lá talvez exija um pouco mais de tempo. Afinal, os olhos são apenas um dos vários sentidos que são necessários para ver certas coisas. E a gente foi com 5 ou mais deles. O caminho de volta promete.

Publicado por: bellinilima | Março 14, 2009

VAGAS PARA CARROS DE GRANDE PORTE

who-cares-alterado-e-reduzido-2O meu novo escritório fica em São Bernardo do Campo, bem perto de onde moro. Nunca pensei que fugir do trânsito de São Paulo fosse tão bom. É engraçado como, aos poucos, a gente vai se acostumando com tudo. Durante anos a fio eu fiz esse percurso diário. Cerca de 25 quilômetros de ida e outro tanto para voltar. Nada muito significativo sob o ponto de vista de distância. Mas, o tempo gasto é simplesmente bizarro. Habitualmente, esses 25 quilômetros eu os percorria em uma hora e meia, embora pudesse chegar à marca das duas horas com facilidade. Pois isso eu fiz durante muitos anos sem muita consciência do quanto é estressante, alucinante, enlouquecedor. No entanto, bastou iniciar meu processo de mudança de hábitos gerada pela perspectiva da aposentadoria e o tal trânsito se tornou simplesmente insuportável. Na verdade, ele é mesmo insuportável, mas como também não se tem como evitar, o nosso psiquismo ou equipamento emocional parece criar uma defesa interior. É como se fôssemos diariamente anestesiados para enfrentar tamanha insanidade.

Essa forma de defesa é bastante saudável. Se não fosse isso, acho que ninguém escaparia do manicômio, se é que já não estamos nele. No entanto, existe um efeito colateral: o de acabar entorpecendo a nossa consciência, a nossa capacidade de discernir sobre o que é aceitável ou não, mesmo quando se trata de coisas sobre as quais nós temos, sim, como interferir e atuar. Um exemplo disso é o péssimo hábito que muita gente conserva de despejar sujeira na rua. Quem é que já não viu alguém fazer sua faxinazinha dentro do carro e jogar pela janela todo o produto do seu asseio pessoal? O carro fica tinindo de limpo e a rua vai ficando cada vez mais aquela imundície de fazer a gente morrer de vergonha. E de raiva. Será que o sujeito que age assim é um malfeitor nato? Será uma criatura perversa tirada de um conto da carochinha, daquelas que conservavam a princesa guardada numa torre de castelo até que o príncipe a viesse resgatar? Às vezes parece. Mas o problema é que não é assim. Normalmente é um sujeito comum que simplesmente perdeu a capacidade de discernir, de pensar no que faz. É claro que isso não diminui a sua responsabilidade e nem faz com que a gente deixe de ter aquela vontade íntima de fazer o sujeito engolir o que atirou pela janela. Mas o problema é que se o tal ou a tal fossem uma daquelas criaturas malévolas, bastava chamar um super-herói qualquer e tudo se resolveria. Não é assim. É mais grave. Os tais  ou as tais não passam de pessoas com quem se convive diariamente e que simplesmente parecem ter perdido a sensibilidade, a capacidade de refletir sobre os limites de suas atitudes.

Aqui no prédio do meu escritório existem três andares de garagem. A primeira é destinada aos visitantes e as duas outras são para servir os condôminos. Como qualquer estacionamento de prédio, espaço é o que não sobra. Os funileiros é que adoram. Até acho que há um conluio secreto entre esses profissionais e os engenheiros e arquitetos que projetam as garagens dos edifícios. Pois exatamente por conta da falta de espaço, a administração do condomínio procurou reservar algumas vagas, as maiores, para os carros de maior porte. Não é obrigatório, não se trata de vagas reservadas. É apenas uma sugestão do condomínio. Nessas vagas maiores está escrito que “se destinam preferencialmente a veículos de grande porte”. Pois, dia desses, lá vinha eu chegando. O estacionamento estava quase vazio, muitas vagas a disposição, dentre elas as tais, destinadas “preferencialmente” aos veículos de grande porte. Eu estacionei o meu carro, que não é de grande porte, numa vaga comum. Bem atrás de mim chegou um cidadão dirigindo um carro de pequeno porte. Pois o cavalheiro não pestanejou. Foi direto para uma das vagas grandes, onde sobrava espaço para o seu miúdo. Estacionou, desceu, trancou o automóvel e foi-se embora sem o menor resquício de constrangimento.

Não sei quem é o distinto, mas suponho que exerça sua profissão aqui no prédio. Muito seguramente não é um marginal, um indivíduo nocivo, um perigo potencial para a comunidade. É apenas mais um sujeito a quem nem remotamente ocorre pensar que alguém poderia chegar ao estacionamento com um veículo grande e teria dificuldade de estacionar, coisa que, para o seu acanhado meio de transporte, não seria qualquer transtorno.  Imagine que ironia se, amanhã, ele mesmo comprar um carrão?

Nesses momentos eu me lembro daquele suíço amalucado, o tal Rousseau (também achava que era francês, mas é suíço), que vivia pregando que o homem é um animal social. Alguma coisa não está batendo. Ou o suiço era um maluco ou ninguém avisou o tal animal social que ele é isso. Sim, porque anda cada vez mais difícil conviver com a galera. Tivesse eu a ousadia de dizer alguma coisa ao meu colega de condomínio e possivelmente me envolveria em uma briga. Ele reagiria indignado com o meu atrevimento e bisbilhotice, e eu teria que ouvir que aquilo não era da minha conta. Realmente, da minha conta não é. Mas deveria ser da conta dele. Sim, porque o que deixa de ser da conta do autor da ação, passa a ser da conta da autoridade policial ou coisa parecida. E, por conseqüência, da conta de todo mundo. Então, como fica a natureza do homem, o animal que deveria ser naturalmente social, mas só se comporta assim quando a polícia está por perto?

É.  Eu preciso parar de pensar. Isso vai acabar me deixando de cabelo branco ou de olho roxo. Além do mais, essa história de pensar parece que anda completamente fora de moda.

Publicado por: bellinilima | Fevereiro 14, 2009

MELHOR QUE CHOCOLATE

emotion3-reduzidaA grande maioria de nós sofre de uma quase compulsão por registrar momentos felizes por meio de câmeras fotográficas ou filmadoras. Ainda mais agora, que os celulares fotografam e filmam com perfeição, nada mais escapa desse nosso terceiro olho que são as lentes. Em qualquer lugar que se vá, lá estão as maquininhas capturando tudo, reduzindo tudo a pixels, bitmap, jpeg e outras siglas misteriosas que, magicamente, se transformam em lindas imagens na tela do computador ou da própria televisão. E graças a um mundo de recursos e truques, até mesmo o que não é tão lindo assim acaba se tornando. Ou alguém nunca ouviu falar dos “photoshop” que transformam matronas e patronos em saltitantes e juvenis espécimes da raça humana?  Hoje em dia se pode ostentar a condição de galã por muito mais tempo, desde que não apareça nenhum desmancha-prazeres que resolva encontrar e reconhecer o bonitão ou bonitona em plena luz do dia e a meio metro de distância.

 

O curioso, no entanto, é que, apesar dessa nossa quase incontrolável necessidade de fotografar, filmar, registrar, o que acaba acontecendo é que a grande maioria de nós, registradores contumazes, só vêem as fotos uma vez. Antigamente era no momento em que ficavam prontas, depois da revelação. Hoje, que não há mais filme e é tudo imediato, costuma ser no momento em que se “baixa” as fotos para o computador.  Depois disso, muito dificilmente se revê as fotos ou os filmes. Álbuns de fotos ou discos com filmes vão parar em gavetas ou caixas de guardados que a gente só acessa quando muda de casa ou faz aquelas faxinas que terminam requisitando um caminhão de lixo. Mas, se é assim, o que nos leva a essa necessidade irrefreável de gravar, registrar, fixar quase tudo? Bem eu tenho cá a minha tese. Acho que é uma mistura de duas coisas: o desejo de preservar os bons momentos como se eles pudessem se tornar eternos e um outro desejo, mais oculto, de parar o tempo.  No fundo, registramos isso tudo porque alimentamos a ilusão de que, com isso, vamos conservar aquelas emoções e sensações agradáveis que se está vivendo no momento. E, de quebra, colocamos um freio nesse apressado impenitente chamado relógio.

 

Se a minha tese tem alguma procedência, andamos batendo cabeça por que não se consegue nem uma coisa, nem outra. Emoções a gente arquiva num escaninho do coração e pode ficar sossegado porque vão ficar protegidas. E acessíveis a qualquer momento. Ainda não inventaram equipamento que faça a mesma coisa. O relógio, obstinado, vai em frente e, a partir de um momento na vida, ele insiste em se mostrar sem qualquer pudor. Eu que o diga: acabei de ultrapassar a barreira da sexagenariedade. Até o nome é esquisito. Mas, se alguém me ouvir reclamar, por favor, me despache diretamente aos cuidados do capiroto sem mais formalidades. Afinal, quem ganhou um presente de aniversário como eu ganhei, tem que passar os próximos 50 anos agradecendo e enxugando as lágrimas. Pois é, a minha parceira, me deu de presente, um show musical particular. É isso, mesmo.  Resolveu convidar uns amigos para ajudar a empurrar a sessentice e, de repente, eu a vejo com um microfone na mão anunciando que, como ela mesma não tinha nascido com esses dons, havia pedido a alguém cheia de talento para representá-la na tarefa de me fazer esse agrado. O nome da representante: Marcia Tauil. Bem, essa moça Marcia transborda a talento e a graça e simpatia e tudo mais. Cantora de cantar coisas de Roberto Menescal, Eduardo Gudin e outros tantos. Tudo com a aprovação e aplauso desses tantos. E não é só de cantar, não. Também faz o que canta e faz com a mesma competência, com a mesma beleza, com a mesma emoção que faz a gente ficar de olho brilhante.  Mas, diga-se, também um pouco sem juízo. Imagine-se que resolveu aprender e cantar, bem na minha frente, uma canção minha. Porque sem juízo? Ora, coração tem um limite de resistência. Quem tiver dúvidas, que se exponha ao risco de ouvir uma canção sua cantada por uma Marcia Tauil. Se passar pelo teste, dê alta ao seu cardiologista.

 

Pois foi esse o presente que eu ganhei da minha parceira que há tanto tempo faz a minha vida ter cara, gosto e jeito de véspera de Natal. Passou a semana inteira conluiando com outros tantos cúmplices para que eu fosse apanhado no contrapé feito quem é pego roubando doce da despensa. E tem coisa melhor que roubar doce da despensa? Tem, sim. É ganhar um presente desses. Agora, haja imaginação e tutano para me manter à altura de uma coisa dessas. Retribuir, então, nem se fala. Pensei em buscar as flores de maio azuis para dar a ela de presente no seu aniversário, mas os autores da canção já decretaram que, agora, eu só sou um sapato velho e, portanto, me conforme em aquecer os seus pés. É menos que nada.  Pensei, então, que poderia dizer, outra vez, o que já andei me atrevendo há algum tempo. Dizer como é bom deitar no sofá da sala, dormir bem daí a pouco, e reclamar de acordar cedo e do trânsito tão louco. Buscar o queijo e o presunto, pro lanche domingo à tarde e, às vezes, caçar assunto que o silêncio é meio covarde. Mas, resolvi que vou buscar na fonte segura do mestre maior. Aí, parceira e rainha, vou ficar “num tempo da delicadeza, onde não diremos nada, nada aconteceu, apenas seguirei como encantado ao lado teu”.  Fotografar pra quê se tudo isso está mais do que registrado na retina e no coração? E eu posso acessar o dia inteiro, a noite inteira, a vida inteira.

Publicado por: bellinilima | Fevereiro 14, 2009

MEXA-SE, MANDRIÃO!

preguica-reduzida4“1. Falta de ação, de atividade; letargia, torpor; 2. Indolência, preguiça.”. Isso é apenas parte do verbete dedicado pelo Dicionário Aurélio à palavra “inércia”.  Existe mais um, utilizado pela física e que é descrito como “resistência que todos os corpos materiais opõem à modificação do seu estado de movimento”.  Este último sentido ainda consegue se safar, mas os demais são alvo inclemente de todo tipo de censura e condenação, seja moral, seja religiosa, seja social.  “Inércia”, “letargia”, “torpor” ainda gozam de uma certa condescendência, como se, apesar de não serem lá grande coisa, contassem com uma espécie de salvo conduto para circular por salões e ambientes respeitáveis. Já “indolência” e “preguiça”, essas são definitivamente a escória da família, aquele tipo de parente que todo mundo tem, mas faz o possível e o impossível para ignorar e evitar que alguém saiba. “Ovelhas negras da família”, isso é que elas são e essa seria a expressão mais eloqüente para designá-las, não fosse a afronta que ela passou a significar ao conceito de politicamente correto.

 

Apesar de tudo isso, o que é que se tem com mais freqüência: inércia, letargia, torpor ou aquela preguiça brava, aquela sensação de indolência própria das segundas-feiras, sobretudo chuvosas?  Quem é que já ouviu alguém, depois de um lauto almoço de domingo, esticar os braços até quase às costas (os “personal trainners” chamam isso de alongamento) e proferir um “Ai, que inércia!”. Ou será que há quem, diante de uma pilha de serviço para fazer logo no começo da semana, olha para aquilo com olhar meio desfocado e grunhe: “Eta letargia danada”. Mas, troque as duas por um engrolado e bocejante “Ai, que preguiça” e a verdade terá sido restabelecida.  A preguiça é um sentimento autêntico, espontâneo, natural. Todo mundo já foi acometido por ela e tenho quase certeza que não se trata de episódio único, não. Ela é muito mais freqüente do que talvez gostassem as almas candidatas à beatificação, os postulantes a uma nuvenzinha no céu para passar a eternidade tocando harpa.  Por favor, que ninguém me leve a mal. Não estou tentando fazer a apologia da preguiça, do ócio, da leseira. “Vade retro, mandriice”. Mas, a verdade é que aquela vontade incontrolável de não se fazer absolutamente nada costuma nos atacar quando menos se espera. Que dizer, então, de quando a gente espera e sabe que virá?

 

Mas, afinal, qual é o propósito dessa conversas? Qual será o propósito desse discurso a respeito desse pecado capital galhardamente colocado em sexto lugar (na frente da soberba e logo atrás da luxuria)? Simples: é que, a exemplo de todos os outros, este pecadinho é difícil de resistir.  Passeando pelos outros seis, pode-se até ficar com a impressão que, com o tempo, alguns deles acabam perdendo a força, mesmo que por absoluta falta de recursos pessoais. Gula, luxuria, ira, são coisas que, com o tempo, vão arrefecendo. Falta energia para mantê-los com o mesmo vigor.  Avareza talvez resista um poucos mais. Inveja e soberba, mais ainda. Mas a preguiça, ah!, essa tem tudo para durar até o último dia da nossa estada pela terrinha. Não é sem razão que a maldade popular costuma afirmar que tem gente torcendo para o mundo acabar em barranco, só para poder morrer encostado. Preguiça é como gripe. Vai tomando conta do vivente devagar, sem pressa, manemolente e, quando ele se dá conta, já está com metade do corpo na cama, seduzindo a outra metade.  Não há como resistir. Talvez por isso a preguiça devesse ser removida da lista fatal de atitudes que nos levam ao reino do coisa ruim.  Quem sabe e quando muito, um pecadinho venial, daqueles que dá um tempinho de purgatório com direito cumprir a pena em liberdade.

 

Muito bem. E isso, então, não é fazer a apologia da coisa? Já perdi a conta de quantas linhas gastei para falar da preguiça e sempre com justificativas. Não foi preciso nem metade disso para que toda a turma do mensalão saísse ilesa.  Está bem. Vou confessar. O problema é que o final do ano de 2008 chegou, com ele as festas de Natal e Ano Novo, chegou janeiro de 2009 que também já se foi, estamos às vésperas do Carnaval, inicio oficial do ano verde-amarelo e eu continuei na mesma pachorra do dezembrão. Ainda não fiz praticamente nada, não escrevi mais que meia dúzia de linhas, ando me arrastando como se estivesse em recesso parlamentar. E olhe que até eles, os honoráveis e dedicados integrantes das casas do congresso, prazenteiros adeptos da folgança, já estão fazendo das suas. Já apareceu castelo com torre e tudo, sem falar nos “fantasmas” que voltaram ao trono, um para cada casa congressual. E tudo em forte parceria com os habitantes do palácio que já estão no picadeiro abrindo as portas para fugitivos de justiça alienígenas, reunindo os saltimbancos do continente inteiro e organizando convescote para 3.500 talheres e mais caras metades (tome-se o “caras” na acepção que se preferir). Ou seja, os mais ativos colaboradores do cotidiano nacional já estão fornecendo material para toneladas de crônicas, artigos, análises, conversinhas, tertúlias e cavaqueiras. E eu aqui, na pasmaceira, cantando “jingle bell” em andamento de marchinha de carnaval. Daqui a pouco eles todos se cansam e resolvem entrar na linha. Aí, vai-se falar de quê?

 

Ora, mexa-se, mandrião que 2009 já está começando!

« Novos Posts - Postagens Antigas »

Categorias