Há um sem número de coisas que parecem sobreviver e se manter apenas graças à imaginação das pessoas. Sem querer criar nenhuma polêmica, esses objetos voadores não identificados são um exemplo. Há quem jure que já viu e os mais ousados até afirmam ter viajado neles. Enquanto isso, as autoridades espaciais não confirmam nem desmentem e, então, entra em cena o imaginário popular espalhando à boca pequena que, na verdade, já existem provas de monte, mas não são reveladas para não assustar a humanidade inteira. Quem resiste a uma história fascinante como essa? E o fascínio reside exatamente no misterioso, no não provado. Se amanhã aparecer um sujeitinho de cor esverdeada (nunca entendi porque a eleição do verde para os extraterrestres) com duas anteninhas na cabeça (outro mistério dentro do mistério) pilotando um disco voador (não poderia ser um ovo voador ou um retângulo voador? Porque um disco?) e resolver pousar e dar uma coletiva em cadeia mundial, é capaz de não sustentar audiência por mais que uns quinze minutos. E vai estragar todo um enredo que vem acalentando e povoando os sonhos do pessoal há séculos.
O fato é que há, por aí, uma porção de coisas que desafiam a curiosidade, provocam e intrigam as pessoas desde que o mundo é mundo. Boa parte delas pertence a esse terreno imaginário, essa espécie de realidade fantástica. Mas há umas tantas outras que, ao contrário, são reais, ainda que possam ser abstratas. A razão, por exemplo. Se há um conceito que vive desafiando, provocando, pedindo para ser decifrado e compreendido, esse é a razão. Ela está aí, na nossa frente, nos nossos olhos, na atitude das pessoas, nos discursos, nas teses, no cotidiano de todo mundo. E tem diferentes significados, ainda que, no fundo, todos se interliguem. Pode ser a capacidade de avaliar, julgar, discernir, construir julgamentos e raciocínios. Também pode estar ligado à lei natural, moral, apanágio do bom senso, juízo, prudência. Age com razão quem age de forma correta, equilibrada. Está com a razão quem tem o direito e a moral ao seu lado e segue seus princípios. Pessoa racional é aquela que não se deixa levar pela explosão passional e segue sempre discernindo, julgando com equilíbrio e equidade, sem exageros ou injustiças. Todos esses significados são extremamente familiares a todos nós, têm a nossa cara, o nosso jeito. Afinal, quem tem mais razão que nós, os humanos que, por definição, somos animais racionais?
O filósofo francês brindou a humanidade com um ensinamento definitivo. “O coração tem razões que a própria razão desconhece” é tão verdadeiro que virou até letra de samba de tão popular. Os anarquistas, quando submetidos a algum tipo de truculência ou despotismo gritavam indignados que “quando a força e a razão contrastam, a força vence e a razão não basta”. E cheios de razão. E o que pode ser mais comum que um “você não acha que eu tenho razão” quando estamos no meio de uma discussão cujo final começa a parecer vacilante? “Desculpe, mas você não tem razão neste caso” também é comum, do dia a dia. Aliás, bem mais comum. E há um ditado antigo, mas não menos verdadeiro e atual, que alerta: “Em casa onde não tem pão, todo mundo grita e ninguém tem razão” Tem coisa mais presente e real que a razão? Provavelmente, não. Ela é o que distingue a raça humana, norteia a sociedade. Ou será que alguém duvida? Quem é que vive sem razão?
Mas, já que se está falando de razão, qual é, afinal, a relação entre ela e toda aquela história de discos voadores? Pois, a meu ver, eles são quase tão intrigantes quanto a razão. Vamos testar. Dois motoristas (ou duas motoristas, é claro) colidem na rua. Batidinha banal, coisa do dia a dia, um lucrozinho para o funileiro e nada mais. Quem tem razão? Os dois (ou as duas). Ou alguém já viu uma criatura reconhecer que a culpa pela batida foi sua? Em algumas oportunidades eu tive que desempenhar uma das tarefas mais desagradáveis em qualquer profissão: demitir alguém. Felizmente não foram muitas, mas em nenhuma delas o demitido reconheceu que a decisão era justa. Mesmo quando o indigitado havia sido apanhado em franco idílio com o alheio. E, quando acontece de, pelo menos, se repartir as culpas, o reconhecimento nunca dura mais que algumas horas. Bem rapidamente o demitido recupera integralmente a razão. Se a coisa acontece numa sexta-feira, a fúria volta multiplicada logo na segunda. E pode haver alguma coisa mais contraditória que dois ou mais indivíduos gritando uns com os outros em incontrolável estado de exasperação para provar que têm razão? Razão, justamente aquilo que é definido com equilíbrio, prudência, bom senso, capacidade de raciocinar e discernir. Alguma coisa não fecha.
Nós, pessoas, sujeitas e sujeitos, conseguimos embaraçar o novelo quando se trata de razão. Ou, mais particularmente, de definir com neutralidade de que lado ela está. A minha impressão é que, no fundo, a razão é muito dada. Está sempre do lado de todo mundo. E nós, os racionais, os únicos na escala biológica que a detemos, não abrimos mão disso. Um amigo me contou a poucos dias que marcou um encontro com a parceira em um dos “shopping center” da cidade. Não tinha exatamente uma hora marcada, só alguma coisa por volta disto ou daquilo, O meu amigo chegou antes dela e ficou andando um pouco, esperando que ela chegasse. Acontece que eles também não tínham determinado um lugar específico para o encontro. Mas isso deixou de ser um problema depois do telefone celular. Depois de algumas voltinhas pelos corredores do paraíso do consumo do dia, o meu amigo ligou para sua parceira. Respondeu aquela atendente insuportável que diz que está nos remetendo à caixa postal. Isso se repetiu por umas quinze vezes ou, em outra unidade de medida, por uns 30 minutos. Até que, finalmente, alguém atendeu. Era a brava e eficiente funcionária doméstica e guardiã da casa deles. A moça informou então que a dona da linha, a parceira, havia esquecido o aparelho em casa. Mas a própria, a parceira, já havia ligado para ela de um orelhão pedindo para que ela avisasse o meu amigo que ele deveria encontrá-la em frente a uma determinada loja. Lá se foi, então, o meu amigo. Ela não estava, mas apareceu logo em seguida. Para estocá-lo com a seguinte interpelação: “MAS POR ONDE VOCÊ ANDOU ATÉ AGORA”? Pode haver pergunta mais natural?
Zé Hercilio é meu amigo de muitos anos. Assim como eu, chegou recentemente à faixa dos 60. Por mais que digam que a medicina de hoje está avançada a ponto de levar um individuo a casa dos 80 ou 90 com excelente qualidade de vida, só quem chega a barreira dos 60 é que consegue visualizar a coisa com clareza. Afinal, nós, atuais sessentões viemos de um tempo que chegada a barreira dos 60, o que viesse depois era lucro. É difícil não chegar nessa etapa sem a carga cultural trazida de tanto tempo. Portanto, essa maravilha toda prometida para depois dos limites da chamada terceira idade, só vendo pra crer e, olhem, acho que vamos ver sempre com um pezinho atrás.
Dizem que a vida imita a arte. Pode ser que seja verdade, mas, qual delas? Afinal, arte é o que não falta, ainda que poucos sejam os verdadeiros artistas. Música, pintura, literatura, qual delas a vida costuma imitar? A minha resposta vai para o teatro. Por quê? Porque é no teatro, acima de qualquer outra forma de arte, que se destacam os papeis. Os atores representam personagens ou, em outras palavras, representam seus papeis. Os personagens, por sua vez, também significam diferentes papeis no contexto da trama, seja ela uma comédia, seja um pesado drama, seja um musical.
Desde os meus tempos de escola básica (chamava-se curso ginasial) sempre me intrigou aquela história de as paralelas se encontrarem no infinito. Para fazer justiça, é claro que isso foi só uma das milhares de outras coisas do mundo das ciências matemáticas que me punham louco.
Há umas tantas noites minha mulher e eu fomos ao teatro. Coisa boa demais. Ir à balada durante a semana é a melhor vingança. Uma amiga de minha filha, além de advogada também é atriz e estava atuando em uma peça extraordinária chamada A SENHORA DOS AFOGADOS. Texto de Nelson Rodrigues, um roteiro musical de primeiríssima linha, arranjos muito bem feitos, um desempenho emocionante dos atores que também cantam durante o trabalho, tudo foi encantador. A peça estava em cartaz no Centro Cultural de São Paulo.
Que importância tem se já existe no teu rosto uma ruga ou outra? Eu também já não tenho os mesmos olhos para enxergá-las. Hoje eu vejo muito mais com o coração do que com os olhos. E o coração está cada vez mais acurado.
“Dois motoqueiros hippies viajando pelos Estados Unidos de motocicletas em busca de uma grande partida de cocaína. Era Sem destino (Easy Rider, 1969) um pequeno filme de estrada, que mudaria Hollywood para sempre, sintetizando os medos e as esperanças dos anos 60. No lugar de John Wayne ou Gary Cooper, ali estavam eles, vivenciando plenamente a liberdade na estrada
O meu novo escritório fica em São Bernardo do Campo, bem perto de onde moro. Nunca pensei que fugir do trânsito de São Paulo fosse tão bom. É engraçado como, aos poucos, a gente vai se acostumando com tudo. Durante anos a fio eu fiz esse percurso diário. Cerca de 25 quilômetros de ida e outro tanto para voltar. Nada muito significativo sob o ponto de vista de distância. Mas, o tempo gasto é simplesmente bizarro. Habitualmente, esses 25 quilômetros eu os percorria em uma hora e meia, embora pudesse chegar à marca das duas horas com facilidade. Pois isso eu fiz durante muitos anos sem muita consciência do quanto é estressante, alucinante, enlouquecedor. No entanto, bastou iniciar meu processo de mudança de hábitos gerada pela perspectiva da aposentadoria e o tal trânsito se tornou simplesmente insuportável. Na verdade, ele é mesmo insuportável, mas como também não se tem como evitar, o nosso psiquismo ou equipamento emocional parece criar uma defesa interior. É como se fôssemos diariamente anestesiados para enfrentar tamanha insanidade.
A grande maioria de nós sofre de uma quase compulsão por registrar momentos felizes por meio de câmeras fotográficas ou filmadoras. Ainda mais agora, que os celulares fotografam e filmam com perfeição, nada mais escapa desse nosso terceiro olho que são as lentes. Em qualquer lugar que se vá, lá estão as maquininhas capturando tudo, reduzindo tudo a pixels, bitmap, jpeg e outras siglas misteriosas que, magicamente, se transformam em lindas imagens na tela do computador ou da própria televisão. E graças a um mundo de recursos e truques, até mesmo o que não é tão lindo assim acaba se tornando. Ou alguém nunca ouviu falar dos “photoshop” que transformam matronas e patronos em saltitantes e juvenis espécimes da raça humana?
“1. Falta de ação, de atividade; letargia, torpor; 2. Indolência, preguiça.”.