Publicado por: bellinilima | agosto 15, 2015

PESSOA BEM RESOLVIDA

Já há algum tempo e cada vez mais se ouve pessoas dizendo sobre si mesmas que são bem resolvidas. Em proporção mais ou menos igual se ouve, também, referencia a terceiros que são mal resolvidos. Que eu me lembre, isso começou lá pelos anos 60 quando a sociedade ou parte dela resolveu dar inicio a uma quebradeira de valores que tinham suas origens no pré-guerra e se mantiveram meio abaladamente no pós-guerra. É que o pós-guerra, assim como um pós-operatório, certamente afetou muito a mente e o conjunto de valores principalmente das sociedades europeias que viveram e sofreram aqueles horrores todos. Nada mais natural, portanto, que os sobreviventes e os herdeiros desse tempo se pusessem a pensar em tudo aquilo, sobretudo em porque, diabos, havia necessidade de, de tempos em tempos, o continente se ver submerso naquele inferno.

É claro que isso tudo não passa de mera conjectura de minha parte para tentar compreender a origem dessa história de “bem ou mal resolvido”. Mas, não é menos verdade que, há algum tempo e sobretudo nos dias atuais, a figura do “bem resolvido” e “mal resolvido” ganhou versões curiosas. Uma delas é que não demorou muito para começarem a aparecer as listas de caracteristicas dessas pessoas, os mandamentos que identificam o que é ser bem ou mal resolvido. Nos velhos tempos da ditadura militar houve uma campanha pública visando conscientizar as pessoas sobre a necessidade de se preservar a limpeza. O personagem vilão era o Sujismundo, um sujeitinho que jogava lixo na rua e outras barbaridades. Mas, o mote da campanha passou a ser “povo desenvolvido é povo limpo”. Era um dos mandamentos do povo desenvolvido. Ora, ser limpo não faz nenhum povo se tornar desenvolvido. Quando muito, melhora um pouco a convivência porque sujeira é coisa triste, mesmo. Exatamente da mesma maneira, adotar este ou aquele tipo de conduta não faz ninguém se tornar bem ou mal resolvido, se é que isso comporta algum tipo de definição ou, quem sabe, se isso existe realmente.
Como, no entanto, os tais mandamentos parecem irresistíveis, já existem alguns comportamentos que indicam a condição de “bem resolvido”. Uma delas é ser um tanto diferente dos padrões habituais, com certo ênfase para a irreverencia. Causar um choque nos circunstantes é um forte indicativo de que se é bem resolvido. Os outros é que se incomodam. Eu, não, que sou bem resolvido. Um outro mandamento dos bem resolvidos parece ser o individuo dizer tudo o que bem entende e da maneira que bem entende. É o tipo que “fala na cara”, Em considerável parte das vezes, as falas não são precedidas de qualquer reflexão, quer seja em prol da procedência do argumenrto e sua sustentação, quer seja na maneira pela qual é externado. Fala-se e pronto. Porque se é bem resolvido. Ou não se fala porque se é mal resolvido. E, quem se incomodar, que se mude porque não é bem resolvido.

Lá pelos anos 60 surgiu um ramo alternativo da sociedade cujos integrantes ganharam o nome de “hippies”. É claro que todo mundo conhece. Tinham lá sua filosofia que primava por ser contra os padrões sociais tradiciionais. Eram contra o dinheiro, a sociedade capitalista e tudo o que mais vigorava no mundo. Tinham sua maneira própria de vestir, de se alimentar, de morar, de conviver. Mas, de alguma forma, tinham que vestir, se alimentar, morar e conviver. Então, a turminha foi aumentando, aumentando e acabou se tornando mais um ramo do mercado consumidor. Havia roupas para “hippies”, calçados para “hippies” e assim por diante. Os tais mandamentos acabam sendo um perigo.
Afinal, o que é, exatamente, ser bem ou mal resolvido? Aurelio Buarque de Hollanda registra nada menos que dezessete significados diferentes para o verbo “resolver”. O de número 3 define “resolver” como “Achar a solução de; explicar, esclarecer, aclarar”. O próximo, de número 4, diz: “Decidir depois de exame e discussão; deliberar a respeito de; dar a solução a”. O seguinte assim se manifesta:”Deliberar-se ou resolver-se a; decidir, resolver”.

Avaliando por qualquer desses ângulos, o sujeito bem resolvido deve ser o que acha solução, explica, esclarece. Mas, o que isso tem a ver com o voluntarismo quase que sempre agressivo pelo qual essas pessoas costumam se expressar? Afinal, se o individuo tem lá um conflito interior qualquer e conseguiu solucionar, porque precisa ser beligerante com os circunstantes? Afinal, a quem se dirige a agressividade? Se é aos que o cercam, parece um tanto fora de propósito porque, afinal, o tal conflito interior deve ser do autor da declaração de guerra. Então, porque enviar suas tropas ao exterior? Ou será que essa encenação não passa de um disfarce impingido a si mesmo por não ter conseguido “resolver” coisa alguma?

Eu, que não sou psicólogo nem nada, entendo cada vez menos isso tudo. Só fico observando com que fervor as pessoas se apegam a esse “bem ou mal resolvido” enquanto a vida vai passando, passando, sem dar muita importância a ninguém. Aí, vem um certo John Lennon e diz, com simplicidade, que “a vida é isso que está acontecendo lá fora, enquanto você se prepara para o futuro” ,

Ou se preocupa em ser bem resolvido. Sei não…
Em 13 de agosto de 2015

Publicado por: bellinilima | janeiro 1, 2012

DOCES E AZEDOS

Bem agora que eu me sento em frente ao teclado neste último dia do ano, o ano que vem já veio em muitos outros lugares do mundo. Por várias outras partes do planeta já tem gente dando inicio a tudo aquilo que sonhou e desejou, a si e aos outros, para o ano que começa. É claro que, por enquanto, tudo ainda é euforia, mesmo que algumas horas do novo tempo já tenham se passado. E daqui a uns três meses, todas as promessas e planos já terão entrado no ritmo da rotina. Por mais que possa doer, todo esse clima de harmonia e solidariedade já terá passado e cedido lugar à luta pela vida que nós optamos por tornar árdua, áspera, impiedosa até. Que estranhos somos nós todos, não? 

Entra ano, sai ano, tudo se repete. Chegamos a essa época desarmados, humanizados, saboreando o gosto bom do bem querer, da paz, da tranqüilidade. Nem os congestionamentos das estradas, nem os atropelos das lojas, nem os preços de tudo aquilo que sonhamos comprar conseguem quebrar esse arco-íris de sentimentos brandos, amenos, suaves. Vivemos pouco mais de um mês nessa boa vida, mesmo que o corre-corre aumente e quase não dê tempo para nada. Mas, nesses dias lamentamos não ter conseguido falar com todos os nossos amigos, sentimos não ter sido possível enviar um cartãozinho que seja a todos aqueles que nos vêem à superfície da lembrança. Em outras palavras, nesses dias simplesmente nos importamos com as pessoas. Estranho, não? 

Ano passado foi assim. O anterior, também. E todos os que vieram antes. Há quem diga que esses tempos de festas só são bons assim porque duram pouco. Se fossem mais demorados, durassem mais, cairiam no comum, as pessoas se habituariam ao clima e eles perderiam a magia, deixariam de ser especiais. Sempre que o encanto se torna rotina, deixa de ser encanto. Pode ser que seja verdade. Eu tiver um amigo que, ao se aposentar, começou a reformar a casa que possuía em sua cidade natal. Eu perguntei, então, se ele pretendia se mudar para lá. E ele me disse que não. E, satisfazendo a minha curiosidade, explicou que todas as vezes que ia até sua terra, era recebido e tratado como visita. Se se mudasse para lá, viraria morador e acabaria o encanto. Faz muito sentido. E talvez seja necessário, então, concluir que, no fim das contas, a felicidade não pode fazer parte do dia a dia, pois vira coisa rotineira e deixa de ser felicidade. Será? 

Pensando que seja assim, porque, então, todos se desejam tantas felicidades nesta época do ano e fazem questão de insistir que dure por todo o novo ano? Se a felicidade não resiste a mais que uns poucos momentos, de que adiantam tantos votos? Pois é. No fundo, pode ser que todo mundo saiba disso ou pelos menos ficaria sabendo se parasse um instante para refletir. No entanto, apesar de tudo, o ritual se repete desde que o mundo existe ou, quem sabe, um pouco menos que isso. Mas existe há muito, muito tempo. E ninguém se cansa de viver o que, no fundo, talvez não passe de uma grande ilusão. E se tudo não passa de ilusão, porque é que insistimos? Eu desconfio que, mesmo com tudo isso, com toda essa crueza, o homem tem uma necessidade incontrolável de ser bem mais que essa máquina de sobreviver em que conseguimos nos transformar. Da mesma forma que expulsamos a natureza das cidades e depois vivemos correndo atrás dos sítios e praias, é possível que tenhamos abolido os sonhos e ilusões do nosso cotidiano e, no fim, vivemos atrás disso mesmo. Não deve ser à-toa que a música ainda comove até os mais empedernidos, que as cenas dramáticas de um teatro arrancam lágrimas até mesmo dos mais sérios e sisudos e que o sorriso de uma criança fascinada pela vista do mar faça até mesmo os mais apressados darem uma parada para contemplar. Ou que aplaudimos o por do sol ainda que o astro principal não nos possa ouvir.  

O que fica difícil de entender, de fato, é que a felicidade repetida corra o risco de perder a magia, mas o acinzentado do dia a dia amargo, não. Porque, afinal, o azedo repetido a vida inteira não enjoa e o doce, sim? Porque a frieza diária é suportável e a gentileza não sobrevive? Sei não. Acho que está faltando pensar melhor nesse tal ano novo…

Publicado por: bellinilima | agosto 12, 2011

AS LUZES DA CAVERNA

“Ai, a rua escura, o vento frio, esta saudade, este vazio, esta vontade de chorar”. Talvez os mais jovens não saibam, mas este é o inicio de uma canção de autoria de uma antiga compositora e cantora chamada Dolores Duran. É possível que nem mesmo saibam quem foi Dolores Duran que deixou o mundo nos já perdidos anos de 1959. Mas Dolores foi, segundo consta dos relatos e depoimentos de pessoas de sua época e convívio, uma mulher depressiva que buscou caminhos alternativos para enfrentar as tristezas e desgostos que esse estranho mal causa em suas vítimas. Morreu em 1959 depois de ter sido vítima de um infarto quatro anos antes, o que não pareceu servir de freio para sua vida atribulada, em particular a noturna, onde ela brilhava. Ainda de acordo com os relatos da época, ela teria chegado a casa já de manha, depois de uma noitada boêmia. Teria afagado sua filha e dito à empregada para não acorda-la pois queria dormir até morrer. E não acordou mais. Nunca se definiu com precisão se Dolores foi vítima de um ataque cardíaco ou se deu cabo da vida por meio de excesso de barbitúricos.  Ou, quem sabe, as duas coisas tenham se juntado para chegar ao final a que chegaram.

Mas o que não deixa dúvida foi sua vida atribulada, marcada pelo desassossego, pelas frustrações, pelas desilusões, pela tristeza, enfim. E eu me recordo que, alguns anos após a morte de Dolores e todo aquele mistério sobre se havia sido natural ou suicídio, um velho tio ouvia Ternura Antiga numa antiga eletrola e teceu um comentário que invadiu a minha memória para nunca mais me deixar. Ele me disse: “É só prestar atenção no começo dessa música e a gente consegue entender perfeitamente o que levou a moça a fazer o que fez.” De fato, que saídas poderia ter alguém que se talvez se visse diante de uma rua escura, de um vento frio, de uma saudade, de um vazio, de uma vontade de chorar? A idéia de por um fim nisso tudo começa a se tornar tentadora, familiar, quase solução doméstica. Se se considerar que, quatro anos antes de partir, a então jovem Dolores já havia sofrido um infarto e nem mesmo assim se decidiu a conter as extravagâncias, a tese do apressamento da caminhada ganha reforço. E, se a morte é triste, a vida vivida nesse clima é ainda mais.  

Os exemplos são muitos. E, ainda agorinha, o mundo vê a cena se repetir com a jovem cantora e compositora inglesa Amy Winehouse. Não passou da casa dos 27 anos de idade como, aliás, vários outros de gerações anteriores. E, se ao longo de seu curto estágio de vida ocupou a atenção da mídia com sucessivas situações desastrosas, não se poderia esperar nada diferente no momento em que essa triste seqüência de inconseqüências é coroada com um fim trágico, embora mais do que anunciado e previsível. Sua figura estranha, aparentemente produzida com o intuito de chocar, invade as telas de televisão e as páginas de jornal atirando na cara de todos a derrota acachapante da vida. Sim, porque, além dela mesma, jovem oprimida por si mesma e dos que por ela choram, chora também a vida por se ver mais uma vez de joelhos diante da tragédia. Sempre que um jovem morre vítima do que poderia ter sido evitado, da inconseqüência, da imprudência, do desequilíbrio, morre um pouco da vida enquanto espetáculo mágico e maravilhoso.  

Que tristeza foi essa que deve ter acompanhado essa moça em todos os dias de sua vida a ponto de neutralizar nela aquilo que de mais forte possui o ser humano, a força pela sobrevivência? Quanto deverá ter sofrido essa menina diante de si mesma, de suas frustrações, decepções, derrotas cotidianas a ponto de se lançar em vingança contra si mesma? Quanto de colorido faltou aos seus dias a ponto de levá-la a adotar a aparência de alguém portador de uma alma daltônica, cinzenta? Essa garotinha, tanto quanto outros que seguiram pelos mesmos labirintos, talvez tenham sido crianças sorridentes, leves como quaisquer outras. Em algum momento enveredaram por essa caverna escura cuja luz no final era apenas o precipício, o vazio, o nada. E, até que chegasse o momento de mergulhar nesse nada, que tristeza viveram, que dores experimentaram? Quantos terão sido os momentos que preferiram ser simples colegiais barulhentos fazendo algazarra pelos corredores de alguma escola anônima, dessas que preparam aprendizes de gente a serem gente comum pela vida afora?  

Ninguém nunca vai responder nada disso porque os únicos depoentes a esclarecer não mais dirão nada. Nem mais escandalizarão a ninguém com atitudes que foram verdadeiros pedidos de socorro desesperado por alguém que lhes retirasse daquele caminho escuro e lúgubre. Mas, ainda mais tristemente, se tornarão ícones de uma rebeldia incompreensível e sem bússola, uma luta contra coisa alguma além de si mesmos. Tanto quanto os que a precederam, serão vistos como mártires de uma causa vazia, eloqüentes oradores de um discurso de mudos dirigido a surdos. Ou de um espetáculo de malabares executado por manetas a um público de cegos. Os mecanismos sociais se encarregarão de transformá-los em símbolo de gerações, porta-vozes de um grito sem nexo, mas fatal que, em algum momento adiante, fará mais vítimas. E tudo se repetirá sem que alguém se incomode com a tristeza que acompanhou a curta vida de cada um deles, como parece ter sido a vida dessa menina compositora e cantora que traduziu seu desespero por meio de sons harmoniosos e ruídos desesperados.  

A sociedade, ironicamente, erguerá um brinde a ela com o mesmo cálice que serviu de arma contra si mesma. E contra a rua escura, contra o vento frio…

Publicado por: bellinilima | julho 27, 2011

Distração

De repente, me bateu uma saudade do meu “blog”. Dessas saudades que parecem vir do nada. Eu estava navegando à toa na “internet” e, sem qualquer explicação razoável me lembrei que simplesmente abandonei o meu “blog. Desde o final do ano passado, de 2010. Quando o Natal foi chegando, preparei a mensagem que costumo escrever para a festa do dia 24, normalmente lida pela parceira já que eu sou meio atrapalhado para essas coisas mais públicas. E, como não poderia deixar de ser, o tema da mensagem do Natal ano de 2010  foi a grande preciosidade com que fui contemplado: o meu neto. Primeiro neto tem dessas coisas. Dizem que avô fica literalmente babão com a chegada do primeiro neto. Eu tinha minhas dúvidas sobre isso até acontecer comigo. E continuo com uma grande dúvida sobre o assunto. Será que esse efeito meio alucinógeno se resume ao primeiro neto ou corre-se o risco de aumentar na medida em que outros eventualmente cheguem? Pelo que tenho podido observar em alguns amigos, o risco é grande.

Mas, independente disso tudo, o fato é que depois dessa mensagem de Natal, passado o mês de Janeiro, inteiramente dedicado ao que os irmãos italianos batizaram de “dolce far niente”, não inseri mais nenhum texto no “blog”. Não deixei de escrever, o que é ainda pior. Pura falta de gratidão. Afinal, quando comecei com ele há mais ou menos três anos, nós dois, ele e eu, firmamos uma espécie de parceria. Eu iria rabiscar as coisas e ele as receberia, ao menos para manter registrado. E houve até quem se dispusesse a ler, o que já foi uma vitória e tanto. E, de uma hora para outra, sem mais esta nem aquela, simplesmente o deixei lá, perdido numa região virtual que nem conheço, não visitei mais, virei as costas. Coisa feia!

Fiquei pensando nessa tal súbita saudade nascida aparentemente do nada e comecei a ficar com a sensação de que o que me bateu, mesmo, foi uma espécie de sentimento de culpa pelo abandono. E, em seguida, comecei a me perguntar: “bem, agora, você está perdendo o juízo de vez. Sentimento de culpa por abandonar uma ferramenta da “internet?. O próximo passo deve ser uma depressão seguida de uma boa consulta a um psiquiatra e um monte de tarjas pretas para controlar eventuais rompantes de fúria e ameaças a terceiros”. Reconheço que parece, mesmo, meio sem sentido, mas, como o pensamento não tem limites e acaba nos levando para onde menos se espera, acho que isso tudo tem a ver com a forma pela qual se abandona uma porção de outras coisas ao longo da vida e sem perceber. Por conta dos novos tempos e conceitos em geral, abandona-se canções e livros que tiveram significado fundamental em momentos cruciais na nossa vida. Será que simplesmente esquecê-los, aos livros e canções, é uma atitude inteligente? E justa? Não custava nada ouvir de vez em quando aquelas coisas que nos emocionavam há algum tempo, mesmo que não se ouça mais no rádio ou na televisão. Perca um tempinho, por exemplo, para ouvir um “Samba de benção” cantado pelo Vinicius com Baden Powell no fundo. Deus do Céu, como é lindo! E como é atual!. E, que tal dar uma olhadinha no texto, até mesmo para ver como ele soa agora. Por exemplo, ler Machado de Assis hoje, anos e anos depois que se era obrigado a isso na escola, tem um sabor extraordinário. Incrível como a gente nao percebia nada!

E as pessoas, então? Com quantas delas se deixa de manter contato e se permite que se percam nas vielas só porque “não dá tempo”, “a vida anda corrida” ou, então e até mais freqüentemente, “ele é meu amigo, não vai se incomodar”. Quanto amigo de infância ficou por lá apenas por essas razões de conveniência que aprendemos a usar para nos justificar nos momentos em que damos de cara com a nossa própria cara no quarto escuro do tempo. E, será que esses velhos amigos, os parentes que ficaram para trás, será que eles não se incomodam, mesmo? O melhor termômetro somos nós mesmos. Será que nós não nos incomodamos?

O pensamento é assim mesmo, vai fazendo cabriolas, pega atalhos, vielas e não se consegue nem perceber por onde ele está nos conduzindo. Aí, de repente, se dá de cara com alguma coisa que nem se poderia imaginar no começo. Pois eu comecei com a saudade esquisita do meu “blog” para me ver frente a frente com uma personagem com quem nunca tive ligação alguma durante a vida inteira, tanto a minha quanto a dela. Que, por sinal, se encerrou não faz muito tempo. Pois é, quando menos esperava me vi frente a frente com a ex-vedete, ex-atriz que se tornou conhecida como Wilza Carla. Ela mesmo, aquela antiga moça magra e linda que, por razões diversas, acabou se tornando gorda e extravagante. Como atriz, entrou em nossas casas inúmeras vezes, mexeu com os nossos sentimentos de diferentes maneiras, foi famosa, conhecida, esteve rodeada de gente. E, quando. Finalmente, chegou seu dia final, não contou com mais de duas ou três almas para lhe fazerem companhia no trajeto. Assim como, conforme noticiaram os jornais, não contou com a companhia dos amigos durante os últimos e longos anos de vida que nada tiveram de glamurosos. Onde é que estavam os amigos de Wilza Carla? Onde estiveram durante tanto tempo? Que ocupação tamanha tomou conta deles todos a ponto de não poderem revê-la ainda que fosse de vez em quando? Será que ela compreendeu que estavam todos cuidando de suas vidas e sem tempo para mais nada? Será que não se incomodou?

Projetos novos são como um sopro de renovação na vida. Sem eles a coisa corre o risco de cair num marasmo de criar teia de aranha. É por isso que eu vivo em busca deles. Mas, de uns tempos para cá tenho percebido que ando incidindo nesse erro de me envolver com uma idéia nova e, simplesmente, deixar outras de lado. Isso acaba virando hábito e, quando se menos espera, se está fazendo a mesma coisa com coisas e pessoas sem nem mesmo notar. Só tem que o preço que se acaba pagando não pergunta se se notou ou não. Cobra e pronto. E acabei achando que esse tipo de sentimento de culpa por ter abandonado o “blog” não me veio à toa, não. Isso é coisa lá de dentro, aquelas complicações que o doutor Freud descobriu que a gente carrega consigo a vida inteira e parece nunca aprender a lidar com elas.

Vou ver se me reconcilio com o meu “blog”. Com um pouco mais de atenção, consigo ajeitar as coisas. Já com gente, não sei, não. Os amigos da Wilza Carla perderam essa oportunidade para sempre. Eu devo ter feito o mesmo com outras pessoas. Quem sabe tanto ela quanto as minhas pessoas possam compreender. Ou não. Mas, bem que poderia ter sido evitado.

Publicado por: bellinilima | dezembro 27, 2010

REVIVÊNCIA

Neste ano nasceu um jesus. Eu sei que a afirmação pode soar estranha. Afinal, segundo a tradição do Natal, ele renasce todos os anos nesta mesma data, apesar de alguns já começarem a afirmar que o fato não ocorreu nesse dia. Isso, no entanto, é o de menos. Ultimamente qualquer acontecimento importante atrai a atenção dos polêmicos de plantão. Há quem ainda jure que o homem não chegou à lua, que fulano ou sicrano não morreu e por aí afora. Deixando tudo isso de lado, neste ano nasceu um jesus. Devo confessar que faço uma pequena confusão porque, ao menos de acordo com os meus arquivos pessoais, existe a Páscoa que, segundo consta significa renascimento. Mas, para sanar a dúvida seria preciso que eu fosse capaz de compreender melhor os mistérios todos. Como eu mal consigo compreender o que é evidente, ainda estou tentando entender um sem número de coisas que estão bem aí na minha frente, à luz do dia, seria muita pretensão compreender os mistérios.  

Mas, independente disso tudo, neste ano nasceu um jesus. Mais correto seria dizer que nasceram muitos, mas como o alcance da minha visão é bem limitado, vou ficar apenas nas cercanias do que posso enxergar melhor. Nasceu um jesus bem à minha volta, à nossa volta, bem aqui pertinho. Chegou de mansinho, não fez quase nenhum alarde. Nós é que fizemos muito mais barulho. Ele, mesmo, chegou quietinho e quietinho se manteve pelos primeiros tempos. Mas já começava a produzir efeitos. O principal deles é o que, segundo a tradição do natal, é a sua marca principal: o efeito do renascimento. Aliás, não sei se a palavra mais correta é, mesmo, “renascimento”. Mais adequado talvez fosse “revivência”. Mas o dicionário ainda não registrou essa. Em lugar dela existe “revivescência” ou “revivescimento” que são bem mais longas e difíceis de escrever e falar. Por isso, vou pedir licença aos mestres (que certamente não vão nem me ouvir pedir a tal licença) e adotar a minha “revivência” para os fins e efeitos desta prosinha.  

Porque não “renascimento”? Porque, na verdade, ninguém nasceu de novo. Estávamos todos vivos já, quando esse jesus nasceu. Só quem nasceu foi ele. Segundo a minha forma de enxergar, veio de algum lugar que a minha vista não alcança, mas, para os efeitos do planetinha, por aqui ele nasceu. Portanto, “renascimento” fica um pouco fora do lugar. Já a idéia de “revivência” é bem o caso dos que estavam por aqui quando o cavalheiro nasceu. Porque, de um modo geral, todos os viventes que tomaram conhecimento da sua chegada ganharam uma dose extra de extrato de vida. Tudo começou com a inauguração de uma nova geração que já fazia um bom tempo que não acontecia aqui pelo nosso grupinho. Esse jesusinho assumiu a função de arauto desse tempo novo. Sabe-se lá de que tamanho será a fila que ele vem puxando. Tomara que seja grande, barulhenta, que ponha fim ao sossego que tinha se instalado e já vinha incomodando por falta de novas lufadas de vento. Temos, por aqui, uma brisa fresca e perfumada.   

Inaugurar uma nova geração talvez seja a forma de expressão mais eloqüente da dinâmica da vida. Afinal, é ela que dá o sentido, o movimento. As novas gerações são as marés do oceano da vida. Sem elas tudo seria calmo como um lago que, apesar de bonito e sereno, não conseguirá jamais inspirar tanto aos poetas quando a soberania do mar. Ao inaugurar uma nova etapa, esse jesus recém surgido invadiu a todos com os cristais da dinâmica, ondulou nosso beira-mar, fez quebrarem em nossas praias calmas, as espumas da emoção, da revivencia.  

Nosso jesus não é o único. Muitos outros chegaram neste ano e certamente trouxeram na bagagem os mesmos tesouros mágicos que o nosso. Isso, no entanto, não faz do nosso jesus menos magnífico. Porque, para cada um de nós, ele é majestoso, imperial, assim como são os demais para os seus respectivos súditos, suas respectivas côrtes. Importante é reverenciar esse nosso pequeno jesus por tudo o que nos trouxe, tal como farão os muitos outros reinos em relação às suas próprias majestades. O nosso jesus vem nos coroar a todos pela caminhada que empreendemos até agora e que culminou com essa graça. Estamos, por isso, todos abençoados, glorificados, recompensados. Há de ser permitido e possível que todos os jesuses chegados neste ano possam juntar suas forças e transformar este recanto do universo num cantinho de paz e felicidade. 

24 de dezembro de 2010

Publicado por: bellinilima | setembro 30, 2010

OS LUGARES E SEUS TITULARES

Apesar de toda a modernidade, da famosa quebra de valores e tudo mais, cerimônias de casamento não saem da moda. As pessoas continuam se casando e, o mais importante, continuam sonhando e se emocionando com todo o ritual. Nunca vou me esquecer de um casamento em que, exatamente no momento em que o padre perguntou alguma coisa ao noivo, o tecladista responsável pela música começou a tocar repetidamente dois acordes, só aqueles dois acordes. Foi se estabelecendo na igreja um silêncio de incompreensão entre os presentes e, ao mesmo tempo, um clima de incômodo porque o moço não respondia. Os dois acordes soando ritmadamente até que o jovem noivo começou a cantar uma conhecida canção de um compositor chamado Guilherme Arantes chamada “Êxtase” que começa com a frase: “Eu nem sonhava te amar desse jeito”.  Isso já tem uns quinze anos e até hoje a imagem me emociona, como emocionou a todos os que lá estiveram.

Acabei de comparecer ao casamento de uma ex-colega de trabalho. Uma jovem que se juntou ao nosso grupo de funcionários quando devia ter uns tenros dezenove ou vinte anos. Chegou uma verdadeira criança, começo de faculdade, para estagiar e foi se firmando. E foi ficando até concluir o curso e se tornar profissional. Profissional das boas, que acabou sendo efetivada. O meu tempo passou, eu me retirei e ela continua por lá, crescendo e brilhando. Recentemente ela se casou com o namorado de longo tempo com quem costumava ter brigas adolescentes por telefone e umas tantas lágrimas que nós tentávamos secar com os nossos anos a mais na bagagem.  Os dois ainda tem um ar adolescente, jovens cheios de sonhos, especialmente para quem viu, ao menos a ela, dar os primeiros passos na vida adulta. E, então, lá estavam eles, compenetrados, dando inicio ao mais magistral de todos os milagres, o milagre da vida.

Casar uma filha é dessas marcas que cirurgia plástica alguma remove. Aliás, a expressão até carece de maior fundamento nos dias de hoje. Nenhum pai, na verdade, casa a filha. Ela e seu parceiro é que fazem tudo, exatamente tudo. Aos pais cabe apenas se derreter em emoções e lágrimas. No meu caso me coube, além disso, escrever uma crônica para ser lida no momento da cerimônia. Leitura que seria feita por qualquer um, menos por mim, ciente de que aquilo não ia dar certo. Mas, no momento crucial, fui abandonado à minha própria sorte, mais ou menos como dizem que acontecia nos programas de calouro em que o candidato, nervoso para entrar no palco, levava um proverbial pé no traseiro e era praticamente arremessado para o meio da ribalta. Assim fizeram comigo e eu tive que ler aquilo tudo segurando choro e engasgos. Se não fosse pelo finalzinho, até que poderia dizer que fui bem. A última frase me traiu. Mas, de qualquer maneira, o percurso entre os bastidores do casamento até o altar e a entrega da filha ao noivo e futuro marido corresponde a uma espécie de viagem no tempo e pelas galáxias da emoção. É preciso tomar um cuidado danado nessa caminhada para não tropeçar nas imagens que vão cruzando a nossa frente, ainda mais porque a vista, inevitavelmente, vai ficando embaciada. As lágrimas parece que ganham vida própria, autonomia, ficam rebeldes e não dão trégua. Toda a ansiedade do nascimento, as impublicáveis bobagens feitas com a criança em casa, as trapalhadas, as peraltices, as brigas, os desafios da adolescência, os assombros da idade adulta, haja cuidado e atenção para se segurar em pé e fazer de conta que se está dando conta da situação.  

Ao pai da minha coleguinha não foi dada a ventura de viver esse momento. Esse e outros igualmente sublimes, a experiência gratificante e incomparável de assistir o avanço de um pequeno projeto de vida desabrochar e brilhar como mais um integrante do universo fascinante, mais uma estrela dessa constelação que é o conjunto de almas humanas. Ao pai da minha coleguinha não foi permitido estar presente nesse trajeto. Partiu cedo, talvez cedo demais, se é que estamos em condições de julgar essas coisas. Não pode vê-la florescer, se tornar uma mulher cheia de energia, contagiando de alegrias a quem tem o privilégio de conviver com ela. E eu confesso que não me dei conta disso quando estava em pé na igreja, assistindo a todo o cerimonial que ela e o noivo haviam preparado. E vieram os padrinhos e em seguida o jovem noivo trazido pelos braços entre orgulhos e vacilantes de uma mãe que, invariavelmente, vive o conflito de entregar o filho a outra mulher e o império da perpetuidade. Até que clarins anunciaram o momento culminante de toda cerimônia; a entrada da noiva. E, deslumbrante no seu vestido branco, sorriso de felicidade suprema e queixo erguido, apontou a minha coleguinha. E, talvez para surpresa da maioria, mas, seguramente, para a minha surpresa, entrou sozinha, sem ninguém que a acompanhasse, ao menos aos olhos de quem estava por ali.

Não sei como os demais enxergaram isso. Pode ser até que tudo não passe de fruto da minha imaginação que já se manifesta em sépia, de tão envelhecida. Mas, naquele momento, eu fiquei pensando de que outra maneira mais dignificante e majestosa a minha coleguinha poderia ter homenageado ao seu pai, esteja ele em que plano esteja agora. Quem a acompanhou no momento culminante de sua vida, de sua caminhada em direção a construção de uma nova família foi ele, seu pai que, gloriosa e generosamente, não foi substituído por ninguém.  Essa menina… Não imaginei que ela pudesse crescer ainda mais no meu coração.

Publicado por: bellinilima | setembro 21, 2010

FATIDICA SENTENÇA

Depois de anos aturando a truculência e as grosserias do marido, a mulher, um dia, resolveu revidar. E, num rompante de coragem ou atrevimento, lascou-lhe pela cara um “piolhento”. Sabe-se lá porque aquilo pareceu um xingamento à altura ou se foi só o que ocorreu no momento de raiva. Ou, até quem sabe, nem tenha sido algo assim tão espontâneo e ela já viesse premeditando, pesando o efeito do xingamento. Como era de se esperar, o sujeito não esperava e sua reação inicial foi de enorme espanto. Como ela se atrevia?  Mas, passado o impacto, o que se sucedeu foi o que seria mesmo de se esperar. Ele despejou um caminhão de grosserias e ameaças. Mas aquele era um dia para a história. Ela, em lugar de se amedrontar, parece que ganhou ânimo e soltou ainda mais alto um “piolhento” que penetrou nos ouvidos do troglodita como se fosse ferro em brasa. Já era demais. E como não seria a primeira vez que ele partiria para as chamadas “vias de fato”, deu-lhe um empurrão que jogou a mulher contra um guarda-roupa velho que morava no quarto há muitos anos sem perspectiva de mudança. Não que a mulher já não tivesse pedido a troca do velho móvel, mas a recusa fazia parte da truculência. Afinal, truculência é por período integral, não tem meio expediente. E, apesar do tranco nada inesperado, a mulher parecia estar realmente encapetada. Levantou meio cambaleante, recobrou a postura e mandou ainda mais alto: “piolhento”. O safanão veio na mesma velocidade e intensidade. Lá se foi a dona contra a parede e, a essa altura, o canastrão já se julgava vitorioso. Qual o quê! Ainda mais zonza que antes do guarda-roupa velho, a teimosa se ergueu, limpou um fiozinho de sangue que começou a escapar do lábio superior e, desta vez em voz mais baixa, mas ultra-carregada de escárnio, repetiu como se fossem versinhos de uma cantiga de rodas: “piolhento, to, piolhento, to”. Todos os limites haviam sido ultrapassados. O macho injuriado agarrou a ultrajante pelos cabelos e a arrastou até o fundo do quintal por onde passava um rio de proporções bem avantajadas. Era água suficiente para acabar com aquela falta de respeito. Bem na beira do rio, sabendo exatamente o que ia acontecer, a condenada não se fez de assustada e repetiu, desta vez com uma carinha debochada a mesma trovinha: “piolhento, tô, piolhento, to, piolhento, to”. Três vezes que era para ninguém argumentar que não ouvira direito. E lá se foi, como um saco de batatas para o fundo do rio. Nem é preciso dizer que a infeliz não sabia nadar. Afundou uma, duas, três vezes se debatendo como manda o chamado instinto de sobrevivência. E na quarta vez, já quase moribunda, olhou desafiadoramente para o brutamontes e foi afundando em caráter definitivo. Quando sua cabeça foi inteiramente submersa, vieram à tona apenas metade de dois braços enquanto as duas mãos juntavam os dois polegares um contra o outro fazendo um sinal de quem está matando um piolho. Piolhento por toda a eternidade.

Não existem piadas velhas, apenas públicos velhos. Isso talvez se deva ao fato de que o gênero humano resiste a se renovar. Essa é uma velha anedota que me vem à lembrança sempre que presenciou ou tomo conhecimento de algum ato de truculência.  E sempre convém definir “truculência”. É muito mais que a superioridade física, seja ela a de um individuo sobre o outro, seja a predominância numérica, o conhecido, “três ou quatro contra um”, ou ainda a vantagem circunstancial de uma posição hierárquica, de um cargo público ou de um poder econômico avantajado. Qualquer forma de se impor a alguém é truculência. Mas alguém poderia perguntar: “e se essa imposição for por meio de argumentos, raciocínios com conteúdo que façam o outro se convencer das razões do primeiro?”. Nesse caso não há imposição. E isso porque, parodiando Euclides da Cunha com o seu “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, eu me atrevo a dizer que “o truculento é, antes de tudo, um imbecil”. Ou um idiota, se alguém preferir.

Via de regra, o truculento não admite ser contrariado, contestado, questionado e está sempre na ofensiva para fazer prevalecerem suas vontades, suas opiniões, suas ordens. E, é claro, detendo o poder, físico, legal, institucional, econômico, sempre acabará esmagando os demais. Sua sorte, talvez, consista no fato indiscutível de que o truculento, quase que como regra, não pensa, não reflete. Porque, se fizesse isso, ainda que em escala mínima, não teria como escapar de uma conclusão inevitável: o truculento jamais convence ninguém, jamais consegue que os demais aceitem suas atitudes, vontades, pontos de vista. Quanto mais truculento, mais as pessoas poderão se calar diante da sua truculência, mas esse cretino jamais poderá se gabar de ter convencido alguém, de ter conseguido adeptos. Ele só juntará tementes, submissos, subjugados. Não haverá um só dos integrantes do seu séquito de cabisbaixos que terá a iniciativa de propagar qualquer coisa vinda do truculento, exceto repulsa.

Portanto, deslustrados militantes da truculência de todo gênero, nenhum de vocês jamais vencerá coisa alguma porque subjugar não é vencer. É estar por cima em caráter rigorosamente circunstancial, é só uma questão de tempo. Na primeira virada da maré, acaba o seu reinado. Porque, no final das contas, truculentos de todas as espécies, vocês nunca deixarão de ser o que são: piolhentos. E por toda a eternidade.

Publicado por: bellinilima | setembro 13, 2010

SEM FACA NEM TACA

Seu João foi uma das figuras que ganharam espaço no nevoeiro do tempo da minha infância e adolescência. E isso por algumas poucas mas significativas razões. Aliás, as razões dessa mantença do Seu João nas gavetas da minha memória são fortemente entrelaçadas entre elas.  Não consigo me lembrar direito de como o conheci. Talvez tenha sido só um dos muitos clientes da farmácia de meu pai que acabaram se tornando amigos dele. Farmácia de bairro de periferia lá pelos anos 60 tinha um certo peso na comunidade, fazia parte do concerto social do bairro junto com o padre, o médico, o dentista e outras personalidades. Portanto, meu pai integrava esse seleto grupo de notáveis do lugarzinho, tinha lá o seu “status”. Assim era o bairro onde me criei e que atendia pelo prosaico nome de Vila Sonia. Meu pai manteve sua pequena farmácia por ali contrariando talvez todos os preceitos e princípios de economia e de negócios. Afinal, vendia fiado, não recebia no final do mês e ia anotando as contas num caderninho. No final do ano, tempo do balanço levantado da maneira mais empírica que se possa imaginar, as folhas do caderninho com as contas não pagas eram grampeadas formando um pequeno maço e recebiam o veredicto irrecorrível e definitivo: “BACIA DAS ALMAS”. Era a forma de meu pai lançar os prejuízos do ano à conta de lucros e perdas, nome pouco adequado já que os pratos daquela balança não tinham fiel, mas sobravam infiéis.   

Seguramente, no entanto, Seu João não fazia parte desse contingente que legava ao meu velho pai a sua conta de lucros e perdas. Homem honesto era aquele Seu João. Cearense sessentão, era a própria imagem do caboclão descrito tão brilhantemente por tantos escritores. Grandalhão, fala mansa, voz grossa, aquela musicalidade própria do acento nordestino, rosto sério que só às vezes se abria num sorriso largo, Seu João caminhava ereto, ainda que com alguma lentidão já própria aos sexagenários num tempo em que não se ia muito além dos sessenta.  Não sou capaz de me recordar qual era a profissão do Seu João. Certamente não era nenhum destaque pois levava vida comedida de dinheiro pouco e posses bem modestas. O que lhe abundava, mesmo, era a honestidade, a seriedade de chefe de família às antigas, o respeito como via de duas mãos, a nenhuma intimidade com o deboche ou o desfrute. Não era aquela sisudez moralista que acaba reservando surpresas no final, quando se descobre que o sisudo é, na verdade, um desses devassos que morrem sufocados com uma calcinha na boca, tipos que Nelson Rodrigues conseguiu magistralmente trazer à luz e ao conhecimento geral. Seu João era um caboclo de verdade, aquele tipo sertanejo que se costuma ver nos livros.  

A família do Seu João era, assim como ele, moldada em padrões mais antigos. Ele e a mulher tiveram quatro filhas. Quando eu as conheci já eram moças ou, talvez melhor definindo, moçoilas. Com desculpas antecipadas pela imprecisão da linguagem, a palavra “moçoila” só é uma forma irregular de diminutivo para moça, mas, para uso doméstico, se confunde muito com aquele tipo de jovem recatada, espécime típico das antigas famílias suburbanas. E eu estou falando do começo dos anos sessenta, quando essas coisas ainda andavam na moda.  Pois as quatro filhas do Seu João eram exatamente quatro moçoilas. Nem por obra do Espírito Santo vou me lembrar dos nomes. Talvez a mais moça delas se chamasse Cecília, mas eu não aposto um tostão furado na precisão dessa lembrança. O que me lembro e muito bem é que todas eram muito bonitas. A mais velha, já casada, era uma morena muito linda, jeitão de Iracema, a tal dos lábios de mel. Havia uma das intermediarias que, nos dias de hoje, faria sucesso com a maior facilidade em qualquer novela de qualquer horário, sem precisar de “photoshop”. A mais jovem delas, a que a vaga lembrança (elemento que substitui a memória depois de uma certa idade) me assopra se chamar Cecília, era uma princesa de formosura. Enfim, qualquer delas era de fazer suspirar um adolescente como eu. Elas, é claro, me tratavam com muita deferência pelo fato de eu ser filho do farmacêutico, amigo do pai delas. Mas eu não passava de um molecote envergonhado e assim é que elas me viam. Eu seguramente nunca fiz parte de nem um segundo dos sonhos de qualquer uma delas. Já elas… 

A figura de matuto cheio de seriedade e serenidade já seria suficiente para preservar Seu João no meu arquivo sentimental. Aquelas quatro donzelas que povoaram a minha suspirante imaginação adolescente também justificariam o lugar do velho sertanejo nos meus cantinhos de lembrança. Mas houve o susto que passei no dia em que meu pai, com aquele seu jeito extrovertido, brincalhão e sempre cheio de surpresas, encontrou Seu João na rua. Nós, frangotes, à sua volta, o velho estancou, fez lá o seu alarido de costume e se dirigiu ao Seu João para lhe dar um abraço caloroso com direito a machos tapinhas nas costas. Aí, estreitando o velho sertanejo nos braços, meu pai lascou em voz alta, para quem quisesse ouvir um “como é que vai, pai d’égua?”. Eu gelei na hora e já fiquei esperando que o brilho da peixeira aparecesse riscando o ar, pronta para lavar a honra ofendida e sangrar o cabra autor daquela afronta desonrante a um matuto pai de quatro lindas filhas. Mas, qual o quê! Seu João abriu ainda mais aquele sorrisão iluminado e retribuiu um quebra-ossos no meu velho pai, todo airoso e cheio de prosopopéia.  

Eles se entendiam. Eu é que não, moleque bobo, perito em ignorar tudo desta tão maltratada terra e seus recantos.

Publicado por: bellinilima | junho 30, 2010

ADRENALINA

Embora o recinto seja dos grandes, até que não havia tanta gente assim. O que contraria as expectativas, pois quando se vai a uma agência do INSS o que se espera é uma pequena multidão se espremendo lá dentro, aquele clima de mundo cão, gente de idade demonstrando cansaço que certamente não começou ali e nem se deve à espera já tão conhecida de todos. É aquele cansaço que já vem de muitos e muitos anos e no mínimo o dobro de desenganos. Além de um considerável contingente de aflitos tentando uma pericia médica para lhes atestar a desvalia e a conquista de um beneficio que, ao menos, fará da vida um inferno em tempo apenas parcial. No entanto, até que não havia tanta gente assim. Mas, ainda assim, uma visita a uma agência do INSS dá o que pensar.  

Logo na entrada já me deparo com duas jovens vindo em direção contrária e pisando tão duro quanto seria possível. E soltando os cachorros. “Você não é gerente de coisa alguma”, foi a primeira exclamação de uma das moças se dirigindo a um cidadão de cabelos semi-grisalhos, olhos ligeiramente puxados e fisionomia que lembrava um desses guerreiros mongóis. Não contente com a espinafração inicial, a moça parou bem no meio do salão e ensaiou um discurso de protesto. “Se estiver demorando muito para vocês serem atendidos, a culpa é dele” apontando para o semi-Átila tupiniquim. Em seguida vem o próprio com um sorrisinho meio sem graça, se desculpando pela atitude da moça. Uma outra jovem, sentada ao meu lado, se sente incentivada a atear um foguinho à conversa e desanda a filosofar a respeito da falta de compostura daquela turma de funcionários que parece não se importar com coisa alguma. E aproveita para meter a boca na moça que está sendo atendida no guichê bem em frente: “Essa fulana está aí há quase uma hora”. O gerente da Mongólia volta ao seu posto atravessando por dentro dos balcões todo o corredor. Aí um senhor de origem nipônica, que nós habitualmente chamamos de “um japonesinho” lança seu veredicto: “Esse gerente é grosso, mal educado, vive maltratando todo mundo. O senhor já tratou com ele?” A pergunta é para mim. Não, nunca tratei com ele, mas já fica claro que o sujeito não goza de apoio e simpatia do público. Pelo que se nota, o tal japonesinho deve ser uma espécie de despachante ou agente ou coisa parecida, que ganha a vida enfrentando aquela arena todos os dias. E, olhando para ele, aparência frágil, ninguém supõe que seja tão resistente.  

A conversa começa a fluir com o abnegado despachante e ele me conta de uma falcatrua acontecida no prédio onde mora. Coisa de síndico ou grupelho de moradores que tomam o poder e partem para essa que tem se tornado uma prática consagrada nos padrões nacionais: o superfaturamento de obras.  E fizeram estrago. O lado bom da história é que, pelo que contou o homenzinho, a população condominial reagiu e está em vias de colocar os “benfeitores” no xadrez. Coisa rara, não? Nesse particular, difere um pouco do comum. Já quase no final do relato chega uma senhora que, pelo jeito, era a cliente do nosso agente oriental. Ele, então, mostra o número de sua senha a ela, talvez para tentar consolá-la pelo tempo que já vai passando. A senha que ele porta, segundo consta, é destinada aos casos ditos “preferenciais”. Aquilo já me bate um pouco indigesto. Começo a temer pela pergunta que se segue. E ela é inexorável: “A sua também é preferencial”? Tento disfarçar, mas não há a menor chance. Bem do lado do número está inscrito um “PR” delator e inconteste. “O senhor já chegou nos sessenta?” Japonesinho abusado, por sorte logo chamaram o número dele e ele foi-se embora. Fiquei eu olhando para aquela senha despudorada que, além do indecente “PR” ainda consignava o horário em que eu a havia recebido. Já estava lá sentado há uma hora.  

Chega a vez do japonês que até estava me parecendo simpático ate o episódio do PR. Lá se foi ele enfrentar os mistérios dos guichês. Fiquei por ali pensando em como matar o tempo. Não precisei esperar quase nada. Bem à minha frente, um senhor sentado diante de um guichê vazio, resolveu esquentar o ambiente. Dirigiu-se ao funcionário que ocupava o guichê ao lado e que não estava atendendo ninguém, para perguntar, em tom irritado, onde, diabos havia se metido o sujeito que o estava atendendo. “Faz meia hora que o cara saiu e não me disse nada. Levou a minha senha e sumiu” O funcionário ficou meio sem jeito e, nessas horas, aparecem as perguntas mais sem cabimento: “Ele estava atendendo o senhor?” Convenhamos, pergunta assim corre o risco de receber resposta à altura. “Falta de respeito” grunhiu o (mal) atendido. “O senhor não pode generalizar” se defendeu o funcionário desocupado. E saiu em busca do fujão. Voltou pouco tempo depois avisando que ele estava procurando alguma coisa para o (mal) atendido, mas já estava voltando. E o acusado voltou fazendo com que o velhote ficasse ainda mais sem graça que o funcionário desocupado. E eu ali, me preocupando em como matar o tempo.  

De repente, o sacrossanto painel estampa o meu número. Levantei e fui em direção ao guichê de número 52. Um rapaz muito simpático me atende. Eu explico o que pretendo fazer e lhe apresento os documentos que uma outra agência do mesmo INSS me havia instruído apresentar. Ele emite um sorriso entre simpático e perdido e pede licença para se ausentar. Eu espero. Ele volta em um ou dois minutos com um mesmo sorriso perdido e explica que, como estava retornando de uma licença de dois meses, não se lembrava se o procedimento e os documentos que eu trouxera estavam em ordem. Felizmente, em rigorosa ordem. Vamos, então, ao sistema. Ooops, o sistema dele não está no ar! É preciso pedir autorização ao chefe. O chefe é precisamente o guerreiro mongol de ralos apoios e nenhuma benquerença. Mas lá se foi o meu homenzinho. Chegou perto do temido e, para minha surpresa e alivio, a conversa transcorreu muito amena, embora um pouco longa demais. Mas, passados alguns minutos, volta o meu homenzinho acompanhado de um outro. Esse outro já tem ar de veterano, acostumadíssimo a confundir os usuários e lhes fazer parecer que vítimas, na realidade, são eles, os funcionários, que tem um expediente desumano e nenhum apoio. Nem sala com ar condicionado para o chefe ainda foi providenciado. O veterano digita alguma coisa no teclado e o sistema é recuperado. Lá se vai ele, triunfal e o meu atendente me informa, então, que, como ele estava em licença, seu sistema havia sido suspenso e ninguém havia liberado de volta. Eu nem me atrevi a perguntar quanto tempo já fazia que o moço havia retornado de sua licença. E menos, ainda, porque havia saído de licença. Achei que era pergunta demais.  

Manuseados os papéis, emitido e selado um requerimento, perguntei em quanto tempo teria uma resposta. “Ah, não demora muito, não. De 45 a 60 dias”.  Bem, o tempo é uma questão relativa, mesmo. Acho até que a Teoria da Relatividade tem alguma coisa a ver com isso. Agradeci a atenção do moço que, realmente, foi muito gentil. Sai pensando em duas coisas: no tal recinto de proporções nada acanhadas há cerca de sessenta guichês e não mais que uns quinze funcionários atendendo. Ter apenas uns quinze funcionários não me causou nenhuma surpresa. O que ficou me martelando a cabeça foram os quase sessenta guichês. Não poderiam ser transformados em sala de espera? Essa foi uma coisa, mais uma curiosidade, mesmo. A outra, não. A outra já é de preocupar. Já pensou se um dia isso tudo ficasse sério? Será que a gente ia agüentar?

Publicado por: bellinilima | junho 5, 2010

Rios, regatos, arroios e “córguinhos”

Os mais antigos (bem mais antigos) devem se lembrar que na escola tinha Filosofia. Além de Francês, Inglês, Latim, lá estava a Filosofia. Nós, moleques e molecas totalmente comprometidos com o descompromisso, sonhando com “rock and roll”, cinema, namoros e outras delicias, tínhamos que ouvir um professor nos falar sobre gregos que achavam que explicavam o mundo e a vida das formas mais esquisitas que se possa imaginar. As coisas vêm do ar, ou do fogo ou do zero. O que importa é o prazer. O mundo não existe, são apenas sombras que vem do mundo das idéias. Era assim. E era duro. Os campeões de audiência eram Sócrates, Platão e Aristóteles, mas havia uns outros que tinham lá um certo cartaz. Eram os pré-socráticos. Um desses gregos atrapalhados se chamava Heráclito de Efeso, lugar onde ele nasceu. Esse ilustre cidadão de Efeso tinha lá umas idéias interessantes. Ele dizia que tudo é movimento: “panta rei”, isto é, “tudo flui”, nada permanece o mesmo. As coisas estão numa incessante mobilidade. A verdade se encontra no devir, não no ser: “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”.  

Não sei de vocês, mas eu acho que o grego tem razão. Tudo é movimento, mesmo, e a gente vai mudando de lugar, de posição, freqüência, de sintonia, de momento até sem notar.  Ontem estava numa determinada situação, hoje está em outra, amanhã, sabe-se lá, não é?  

Mas… um momento. Eu falando desses gregos e suas conversas abstratas e já estou indo pelo mesmo caminho. Pára tudo. Vamos ver uma situação concreta. Há algum tempo reunimos a família. Não aquele círculo familiar mais próximo, pai, mãe, filhos, avós e uns agregados, aqueles tipos que vão se achegando para subtrair nossos filhos e filhas.  Não. Essa reunião envolvia um circulo bem maior. Eram os primos, primas, sobrinhos e agregados, uma turma de respeito, dessas que só cabe em pizzaria. É claro que nos reunimos numa pizzaria, não só por causa do tamanho do grupo, mas porque onde mais um bando de paulistões poderia se reunir num sábado a noite?   

A iniciativa foi de uma da primas que conseguiu assanhar mais duas e, então, a galera inteira.  Não conheço família que se preze, que não tenha pelo menos dois ou três integrantes que se preocupem em organizar reuniões como essas. Ainda bem que eles e elas existem, tanto esses integrantes quanto as famílias.  E a nossa reunião teve uma característica interessante: boa parte ali cresceu junto. É claro que havia ali umas três ou quatro gerações e, portanto, jovens e agregados novos. Mas boa parte desses jovens, a outra parte viu nascer, seja porque eram seus pais, seja porque eram seus tios ou primos. E, como quase sempre acontece em reuniões como essa, o que não faltou foi emoção. O que falta, às vezes, é memória. A gente não consegue lembrar uma história sozinho, precisa da ajuda dos demais. Trabalho em equipe. Cada um lembra um pedaço e, de repente, a história está recordada. Mas, emoção, essa vem em doses maciças.  

Eu quase disse que a emoção sobra. Não é verdade. Emoção nunca sobra, nunca é demais. E, na nossa reunião de família, ela estava tão presente que o justo seria ter participado da divisão da conta. Um dos fenômenos mais curiosos em reuniões assim é que pouco importa quanto tempo faça que as pessoas não se vejam. Basta se reunir para que, rapidamente, todos estejam tão integrados quanto no passado, quando viviam todos juntos e próximos. Parece que a reunião é só a continuação da festa de ontem. Coisas da emoção.  As idades também deixam de pesar. Todo mundo vira criança outra vez. Embora sempre haja alguém propondo alguma conversa mais séria, alguma discussão mais intelectualizada, o mais provável é que tudo descambe para o inconseqüente terreno da criancice, da irreverência, da palhaçada. Mais coisas da emoção. E, ao menos naquele instante, todos se querem bem como ninguém é capaz em outros momentos. É um bem querer sem limites, uma troca quase perdulária de afetos. A emoção opera o milagre da multiplicação do amor. E que diferença faz se só vai durar algumas horas? O efeito do vinho também dura pouco, mas é incomparável.  

Da geração que nos deu origem direta, só nos resta uma representante. O grupo de seis já se desfalcou de cinco. A sexta lá estava conosco.  Depois dela, éramos nós, os mais velhos, seguidos por filhos, sobrinhos, netos. E agregados, é claro. A mesa, naturalmente, dividiu as gerações. Havia uma parte dela só composta dos jovens. E de repente me ocorreu que, há algum tempo, nós é que ocupávamos aquela parte da mesa. Mais adiante estavam aqueles seis ramos da árvore de onde viemos. E agora, os ramos da árvore somos nós. Em algum momento, também só restará um de nós e os jovens de ontem vão ocupar o nosso lugar de ontem e talvez escrevam sobre os demais, assim como eu faço agora.   

Entendem, agora, porque eu acho que o grego tem razão? Nunca nos banhamos nas mesmas águas de um rio. Vivemos em movimento, mudamos de lugar na mesa dia após dia. Se, no entanto, o Sr. Heráclito não se ofender, eu gostaria de acrescentar uma coisinha: embora as águas nunca mais sejam as mesmas, elas se incorporam a nós, passam a ser uma parte de nós e tudo com uma força enorme, essa força a quem se deu o nome de amor. Esse amor vai unindo as águas e formando esse rio interminável que corre sempre, majestoso, alimentando a vida, eternizando os viventes, rabiscando história. Esse tal amor é uma força, mesmo e aí, não tem grego que explique.

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