Publicado por: bellinilima | junho 5, 2010

Rios, regatos, arroios e “córguinhos”

Os mais antigos (bem mais antigos) devem se lembrar que na escola tinha Filosofia. Além de Francês, Inglês, Latim, lá estava a Filosofia. Nós, moleques e molecas totalmente comprometidos com o descompromisso, sonhando com “rock and roll”, cinema, namoros e outras delicias, tínhamos que ouvir um professor nos falar sobre gregos que achavam que explicavam o mundo e a vida das formas mais esquisitas que se possa imaginar. As coisas vêm do ar, ou do fogo ou do zero. O que importa é o prazer. O mundo não existe, são apenas sombras que vem do mundo das idéias. Era assim. E era duro. Os campeões de audiência eram Sócrates, Platão e Aristóteles, mas havia uns outros que tinham lá um certo cartaz. Eram os pré-socráticos. Um desses gregos atrapalhados se chamava Heráclito de Efeso, lugar onde ele nasceu. Esse ilustre cidadão de Efeso tinha lá umas idéias interessantes. Ele dizia que tudo é movimento: “panta rei”, isto é, “tudo flui”, nada permanece o mesmo. As coisas estão numa incessante mobilidade. A verdade se encontra no devir, não no ser: “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”.  

Não sei de vocês, mas eu acho que o grego tem razão. Tudo é movimento, mesmo, e a gente vai mudando de lugar, de posição, freqüência, de sintonia, de momento até sem notar.  Ontem estava numa determinada situação, hoje está em outra, amanhã, sabe-se lá, não é?  

Mas… um momento. Eu falando desses gregos e suas conversas abstratas e já estou indo pelo mesmo caminho. Pára tudo. Vamos ver uma situação concreta. Há algum tempo reunimos a família. Não aquele círculo familiar mais próximo, pai, mãe, filhos, avós e uns agregados, aqueles tipos que vão se achegando para subtrair nossos filhos e filhas.  Não. Essa reunião envolvia um circulo bem maior. Eram os primos, primas, sobrinhos e agregados, uma turma de respeito, dessas que só cabe em pizzaria. É claro que nos reunimos numa pizzaria, não só por causa do tamanho do grupo, mas porque onde mais um bando de paulistões poderia se reunir num sábado a noite?   

A iniciativa foi de uma da primas que conseguiu assanhar mais duas e, então, a galera inteira.  Não conheço família que se preze, que não tenha pelo menos dois ou três integrantes que se preocupem em organizar reuniões como essas. Ainda bem que eles e elas existem, tanto esses integrantes quanto as famílias.  E a nossa reunião teve uma característica interessante: boa parte ali cresceu junto. É claro que havia ali umas três ou quatro gerações e, portanto, jovens e agregados novos. Mas boa parte desses jovens, a outra parte viu nascer, seja porque eram seus pais, seja porque eram seus tios ou primos. E, como quase sempre acontece em reuniões como essa, o que não faltou foi emoção. O que falta, às vezes, é memória. A gente não consegue lembrar uma história sozinho, precisa da ajuda dos demais. Trabalho em equipe. Cada um lembra um pedaço e, de repente, a história está recordada. Mas, emoção, essa vem em doses maciças.  

Eu quase disse que a emoção sobra. Não é verdade. Emoção nunca sobra, nunca é demais. E, na nossa reunião de família, ela estava tão presente que o justo seria ter participado da divisão da conta. Um dos fenômenos mais curiosos em reuniões assim é que pouco importa quanto tempo faça que as pessoas não se vejam. Basta se reunir para que, rapidamente, todos estejam tão integrados quanto no passado, quando viviam todos juntos e próximos. Parece que a reunião é só a continuação da festa de ontem. Coisas da emoção.  As idades também deixam de pesar. Todo mundo vira criança outra vez. Embora sempre haja alguém propondo alguma conversa mais séria, alguma discussão mais intelectualizada, o mais provável é que tudo descambe para o inconseqüente terreno da criancice, da irreverência, da palhaçada. Mais coisas da emoção. E, ao menos naquele instante, todos se querem bem como ninguém é capaz em outros momentos. É um bem querer sem limites, uma troca quase perdulária de afetos. A emoção opera o milagre da multiplicação do amor. E que diferença faz se só vai durar algumas horas? O efeito do vinho também dura pouco, mas é incomparável.  

Da geração que nos deu origem direta, só nos resta uma representante. O grupo de seis já se desfalcou de cinco. A sexta lá estava conosco.  Depois dela, éramos nós, os mais velhos, seguidos por filhos, sobrinhos, netos. E agregados, é claro. A mesa, naturalmente, dividiu as gerações. Havia uma parte dela só composta dos jovens. E de repente me ocorreu que, há algum tempo, nós é que ocupávamos aquela parte da mesa. Mais adiante estavam aqueles seis ramos da árvore de onde viemos. E agora, os ramos da árvore somos nós. Em algum momento, também só restará um de nós e os jovens de ontem vão ocupar o nosso lugar de ontem e talvez escrevam sobre os demais, assim como eu faço agora.   

Entendem, agora, porque eu acho que o grego tem razão? Nunca nos banhamos nas mesmas águas de um rio. Vivemos em movimento, mudamos de lugar na mesa dia após dia. Se, no entanto, o Sr. Heráclito não se ofender, eu gostaria de acrescentar uma coisinha: embora as águas nunca mais sejam as mesmas, elas se incorporam a nós, passam a ser uma parte de nós e tudo com uma força enorme, essa força a quem se deu o nome de amor. Esse amor vai unindo as águas e formando esse rio interminável que corre sempre, majestoso, alimentando a vida, eternizando os viventes, rabiscando história. Esse tal amor é uma força, mesmo e aí, não tem grego que explique.

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Responses

  1. Querido primo,

    Quem sabe eu tenha a “audácia” de – daqui a algum bom tempo – escrever o “Rios, regatos, arroios e “córguinhos – 2”.
    Claro que não com a mesma clareza de texto, mas seguramente com o mesmo amor pela família.
    Lindo texto, para variar…


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