Publicado por: bellinilima | setembro 13, 2010

SEM FACA NEM TACA

Seu João foi uma das figuras que ganharam espaço no nevoeiro do tempo da minha infância e adolescência. E isso por algumas poucas mas significativas razões. Aliás, as razões dessa mantença do Seu João nas gavetas da minha memória são fortemente entrelaçadas entre elas.  Não consigo me lembrar direito de como o conheci. Talvez tenha sido só um dos muitos clientes da farmácia de meu pai que acabaram se tornando amigos dele. Farmácia de bairro de periferia lá pelos anos 60 tinha um certo peso na comunidade, fazia parte do concerto social do bairro junto com o padre, o médico, o dentista e outras personalidades. Portanto, meu pai integrava esse seleto grupo de notáveis do lugarzinho, tinha lá o seu “status”. Assim era o bairro onde me criei e que atendia pelo prosaico nome de Vila Sonia. Meu pai manteve sua pequena farmácia por ali contrariando talvez todos os preceitos e princípios de economia e de negócios. Afinal, vendia fiado, não recebia no final do mês e ia anotando as contas num caderninho. No final do ano, tempo do balanço levantado da maneira mais empírica que se possa imaginar, as folhas do caderninho com as contas não pagas eram grampeadas formando um pequeno maço e recebiam o veredicto irrecorrível e definitivo: “BACIA DAS ALMAS”. Era a forma de meu pai lançar os prejuízos do ano à conta de lucros e perdas, nome pouco adequado já que os pratos daquela balança não tinham fiel, mas sobravam infiéis.   

Seguramente, no entanto, Seu João não fazia parte desse contingente que legava ao meu velho pai a sua conta de lucros e perdas. Homem honesto era aquele Seu João. Cearense sessentão, era a própria imagem do caboclão descrito tão brilhantemente por tantos escritores. Grandalhão, fala mansa, voz grossa, aquela musicalidade própria do acento nordestino, rosto sério que só às vezes se abria num sorriso largo, Seu João caminhava ereto, ainda que com alguma lentidão já própria aos sexagenários num tempo em que não se ia muito além dos sessenta.  Não sou capaz de me recordar qual era a profissão do Seu João. Certamente não era nenhum destaque pois levava vida comedida de dinheiro pouco e posses bem modestas. O que lhe abundava, mesmo, era a honestidade, a seriedade de chefe de família às antigas, o respeito como via de duas mãos, a nenhuma intimidade com o deboche ou o desfrute. Não era aquela sisudez moralista que acaba reservando surpresas no final, quando se descobre que o sisudo é, na verdade, um desses devassos que morrem sufocados com uma calcinha na boca, tipos que Nelson Rodrigues conseguiu magistralmente trazer à luz e ao conhecimento geral. Seu João era um caboclo de verdade, aquele tipo sertanejo que se costuma ver nos livros.  

A família do Seu João era, assim como ele, moldada em padrões mais antigos. Ele e a mulher tiveram quatro filhas. Quando eu as conheci já eram moças ou, talvez melhor definindo, moçoilas. Com desculpas antecipadas pela imprecisão da linguagem, a palavra “moçoila” só é uma forma irregular de diminutivo para moça, mas, para uso doméstico, se confunde muito com aquele tipo de jovem recatada, espécime típico das antigas famílias suburbanas. E eu estou falando do começo dos anos sessenta, quando essas coisas ainda andavam na moda.  Pois as quatro filhas do Seu João eram exatamente quatro moçoilas. Nem por obra do Espírito Santo vou me lembrar dos nomes. Talvez a mais moça delas se chamasse Cecília, mas eu não aposto um tostão furado na precisão dessa lembrança. O que me lembro e muito bem é que todas eram muito bonitas. A mais velha, já casada, era uma morena muito linda, jeitão de Iracema, a tal dos lábios de mel. Havia uma das intermediarias que, nos dias de hoje, faria sucesso com a maior facilidade em qualquer novela de qualquer horário, sem precisar de “photoshop”. A mais jovem delas, a que a vaga lembrança (elemento que substitui a memória depois de uma certa idade) me assopra se chamar Cecília, era uma princesa de formosura. Enfim, qualquer delas era de fazer suspirar um adolescente como eu. Elas, é claro, me tratavam com muita deferência pelo fato de eu ser filho do farmacêutico, amigo do pai delas. Mas eu não passava de um molecote envergonhado e assim é que elas me viam. Eu seguramente nunca fiz parte de nem um segundo dos sonhos de qualquer uma delas. Já elas… 

A figura de matuto cheio de seriedade e serenidade já seria suficiente para preservar Seu João no meu arquivo sentimental. Aquelas quatro donzelas que povoaram a minha suspirante imaginação adolescente também justificariam o lugar do velho sertanejo nos meus cantinhos de lembrança. Mas houve o susto que passei no dia em que meu pai, com aquele seu jeito extrovertido, brincalhão e sempre cheio de surpresas, encontrou Seu João na rua. Nós, frangotes, à sua volta, o velho estancou, fez lá o seu alarido de costume e se dirigiu ao Seu João para lhe dar um abraço caloroso com direito a machos tapinhas nas costas. Aí, estreitando o velho sertanejo nos braços, meu pai lascou em voz alta, para quem quisesse ouvir um “como é que vai, pai d’égua?”. Eu gelei na hora e já fiquei esperando que o brilho da peixeira aparecesse riscando o ar, pronta para lavar a honra ofendida e sangrar o cabra autor daquela afronta desonrante a um matuto pai de quatro lindas filhas. Mas, qual o quê! Seu João abriu ainda mais aquele sorrisão iluminado e retribuiu um quebra-ossos no meu velho pai, todo airoso e cheio de prosopopéia.  

Eles se entendiam. Eu é que não, moleque bobo, perito em ignorar tudo desta tão maltratada terra e seus recantos.

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Responses

  1. Grande Bellini. Voce consegue com facilidade expressar grandes recordações. Voce conseguiu me levar tambem para os anos 60 quando eu tinha meu vizinho sergipano Seu José que tinha exatamente as mesma características que Seu João inclusive física só que tinha 2 filhos homens e que eram ou são grandes amigos meus mas que a muito tempo não os vejo. Seu José era um autodidata pois não teve oportunidade de frequentar escolas e eu gostava de ouvi-lo falar dos mais diversos assuntos pois como adolecente só tinha aprender.
    Um abraço.

    Valter

  2. Amigo Bellini. Depois de uma parada em suas cronicas, pela chegada do neto, o amigo volta renovado, rejuvenecido, com mais folego, para nos brindar com suas histórias. Nunca passei por uma situação semelhante, mas voltei no tempo, e recordei “COISAS QUE EU NÃO PENSAVA NO DIA NOSSO DE CADA DIA”.
    Odilon


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