Publicado por: bellinilima | setembro 30, 2010

OS LUGARES E SEUS TITULARES

Apesar de toda a modernidade, da famosa quebra de valores e tudo mais, cerimônias de casamento não saem da moda. As pessoas continuam se casando e, o mais importante, continuam sonhando e se emocionando com todo o ritual. Nunca vou me esquecer de um casamento em que, exatamente no momento em que o padre perguntou alguma coisa ao noivo, o tecladista responsável pela música começou a tocar repetidamente dois acordes, só aqueles dois acordes. Foi se estabelecendo na igreja um silêncio de incompreensão entre os presentes e, ao mesmo tempo, um clima de incômodo porque o moço não respondia. Os dois acordes soando ritmadamente até que o jovem noivo começou a cantar uma conhecida canção de um compositor chamado Guilherme Arantes chamada “Êxtase” que começa com a frase: “Eu nem sonhava te amar desse jeito”.  Isso já tem uns quinze anos e até hoje a imagem me emociona, como emocionou a todos os que lá estiveram.

Acabei de comparecer ao casamento de uma ex-colega de trabalho. Uma jovem que se juntou ao nosso grupo de funcionários quando devia ter uns tenros dezenove ou vinte anos. Chegou uma verdadeira criança, começo de faculdade, para estagiar e foi se firmando. E foi ficando até concluir o curso e se tornar profissional. Profissional das boas, que acabou sendo efetivada. O meu tempo passou, eu me retirei e ela continua por lá, crescendo e brilhando. Recentemente ela se casou com o namorado de longo tempo com quem costumava ter brigas adolescentes por telefone e umas tantas lágrimas que nós tentávamos secar com os nossos anos a mais na bagagem.  Os dois ainda tem um ar adolescente, jovens cheios de sonhos, especialmente para quem viu, ao menos a ela, dar os primeiros passos na vida adulta. E, então, lá estavam eles, compenetrados, dando inicio ao mais magistral de todos os milagres, o milagre da vida.

Casar uma filha é dessas marcas que cirurgia plástica alguma remove. Aliás, a expressão até carece de maior fundamento nos dias de hoje. Nenhum pai, na verdade, casa a filha. Ela e seu parceiro é que fazem tudo, exatamente tudo. Aos pais cabe apenas se derreter em emoções e lágrimas. No meu caso me coube, além disso, escrever uma crônica para ser lida no momento da cerimônia. Leitura que seria feita por qualquer um, menos por mim, ciente de que aquilo não ia dar certo. Mas, no momento crucial, fui abandonado à minha própria sorte, mais ou menos como dizem que acontecia nos programas de calouro em que o candidato, nervoso para entrar no palco, levava um proverbial pé no traseiro e era praticamente arremessado para o meio da ribalta. Assim fizeram comigo e eu tive que ler aquilo tudo segurando choro e engasgos. Se não fosse pelo finalzinho, até que poderia dizer que fui bem. A última frase me traiu. Mas, de qualquer maneira, o percurso entre os bastidores do casamento até o altar e a entrega da filha ao noivo e futuro marido corresponde a uma espécie de viagem no tempo e pelas galáxias da emoção. É preciso tomar um cuidado danado nessa caminhada para não tropeçar nas imagens que vão cruzando a nossa frente, ainda mais porque a vista, inevitavelmente, vai ficando embaciada. As lágrimas parece que ganham vida própria, autonomia, ficam rebeldes e não dão trégua. Toda a ansiedade do nascimento, as impublicáveis bobagens feitas com a criança em casa, as trapalhadas, as peraltices, as brigas, os desafios da adolescência, os assombros da idade adulta, haja cuidado e atenção para se segurar em pé e fazer de conta que se está dando conta da situação.  

Ao pai da minha coleguinha não foi dada a ventura de viver esse momento. Esse e outros igualmente sublimes, a experiência gratificante e incomparável de assistir o avanço de um pequeno projeto de vida desabrochar e brilhar como mais um integrante do universo fascinante, mais uma estrela dessa constelação que é o conjunto de almas humanas. Ao pai da minha coleguinha não foi permitido estar presente nesse trajeto. Partiu cedo, talvez cedo demais, se é que estamos em condições de julgar essas coisas. Não pode vê-la florescer, se tornar uma mulher cheia de energia, contagiando de alegrias a quem tem o privilégio de conviver com ela. E eu confesso que não me dei conta disso quando estava em pé na igreja, assistindo a todo o cerimonial que ela e o noivo haviam preparado. E vieram os padrinhos e em seguida o jovem noivo trazido pelos braços entre orgulhos e vacilantes de uma mãe que, invariavelmente, vive o conflito de entregar o filho a outra mulher e o império da perpetuidade. Até que clarins anunciaram o momento culminante de toda cerimônia; a entrada da noiva. E, deslumbrante no seu vestido branco, sorriso de felicidade suprema e queixo erguido, apontou a minha coleguinha. E, talvez para surpresa da maioria, mas, seguramente, para a minha surpresa, entrou sozinha, sem ninguém que a acompanhasse, ao menos aos olhos de quem estava por ali.

Não sei como os demais enxergaram isso. Pode ser até que tudo não passe de fruto da minha imaginação que já se manifesta em sépia, de tão envelhecida. Mas, naquele momento, eu fiquei pensando de que outra maneira mais dignificante e majestosa a minha coleguinha poderia ter homenageado ao seu pai, esteja ele em que plano esteja agora. Quem a acompanhou no momento culminante de sua vida, de sua caminhada em direção a construção de uma nova família foi ele, seu pai que, gloriosa e generosamente, não foi substituído por ninguém.  Essa menina… Não imaginei que ela pudesse crescer ainda mais no meu coração.

Anúncios

Responses

  1. Bellini, mais uma vez voce conseguiu me emocionar pois alem de ter presenciado a cerimônia em que voce leu aquela crônica espero em breve passar pelas mesmas emoções com relação aos meus filhos.

    Um grande abraço.

    Valter

  2. Sou eu a noiva desta crônica. Me emocionei muito com as palavras do Bellini. Mais uma vez ele “leu” o ser humano como nenhum outro vidente poderia fazer – um verdadeiro desbravador do comportamento humano e meu eterno Mestre.
    Dr., muito obrigada por este presente de casamento, já entrou para a lista dos 10 mais.

  3. Bellini, simplesmente maravilhoso!! Nada mais a dizer.
    Parabens!

  4. Caro Dr. Belini, as lágrimas que economizei na cerimonia foram escoadas ao ler seu texto. Pela homenagem a minha amada sobrinha, sem dúvida, mas em especial pelo calor que aqueceu meu coração ao sabê-la crecendo aos olhos de pessoas tão significativas na vida dela como é o senhor. Muitas vezes acompanhei as peripécias da Juliana no mundo do trabalho e sei o quanto ela o admira e respeita. Mesmo sem falar com ela, sei o quanto suas palavras fizeram minha “quase filha”feliz. OBRIGADA!!!! Beijo

  5. Bellini; Não nos conhecemos pessoalmente, mas tenho convicção que já nos conhecemos de outros “tempos”. O pai de sua coleguinha, tabalhava comigo, quando nos deixou e tenho certeza que ele estava com ela, posso te afirmar pois ainda lembro da forma como ele falava e tratava a “coleguinha”.
    Ela perdeu o pai, mas Deus na sua grande sabedoria a fez pessoas como voce que a ajudaram e a conduziram por bons caminhos. Deus te abençoe.
    Um forte Abraço.
    Evaldo

  6. Sem palavras Bellini…
    Foi difícil disfarçar as lágrimas aqui no trabalho…rs
    Parabéns, sensacional!

  7. Nossa tio, fiquei super emocionado…
    Parabéns vc se supera a cada dia….
    Um abração


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: