Publicado por: bellinilima | julho 27, 2011

Distração

De repente, me bateu uma saudade do meu “blog”. Dessas saudades que parecem vir do nada. Eu estava navegando à toa na “internet” e, sem qualquer explicação razoável me lembrei que simplesmente abandonei o meu “blog. Desde o final do ano passado, de 2010. Quando o Natal foi chegando, preparei a mensagem que costumo escrever para a festa do dia 24, normalmente lida pela parceira já que eu sou meio atrapalhado para essas coisas mais públicas. E, como não poderia deixar de ser, o tema da mensagem do Natal ano de 2010  foi a grande preciosidade com que fui contemplado: o meu neto. Primeiro neto tem dessas coisas. Dizem que avô fica literalmente babão com a chegada do primeiro neto. Eu tinha minhas dúvidas sobre isso até acontecer comigo. E continuo com uma grande dúvida sobre o assunto. Será que esse efeito meio alucinógeno se resume ao primeiro neto ou corre-se o risco de aumentar na medida em que outros eventualmente cheguem? Pelo que tenho podido observar em alguns amigos, o risco é grande.

Mas, independente disso tudo, o fato é que depois dessa mensagem de Natal, passado o mês de Janeiro, inteiramente dedicado ao que os irmãos italianos batizaram de “dolce far niente”, não inseri mais nenhum texto no “blog”. Não deixei de escrever, o que é ainda pior. Pura falta de gratidão. Afinal, quando comecei com ele há mais ou menos três anos, nós dois, ele e eu, firmamos uma espécie de parceria. Eu iria rabiscar as coisas e ele as receberia, ao menos para manter registrado. E houve até quem se dispusesse a ler, o que já foi uma vitória e tanto. E, de uma hora para outra, sem mais esta nem aquela, simplesmente o deixei lá, perdido numa região virtual que nem conheço, não visitei mais, virei as costas. Coisa feia!

Fiquei pensando nessa tal súbita saudade nascida aparentemente do nada e comecei a ficar com a sensação de que o que me bateu, mesmo, foi uma espécie de sentimento de culpa pelo abandono. E, em seguida, comecei a me perguntar: “bem, agora, você está perdendo o juízo de vez. Sentimento de culpa por abandonar uma ferramenta da “internet?. O próximo passo deve ser uma depressão seguida de uma boa consulta a um psiquiatra e um monte de tarjas pretas para controlar eventuais rompantes de fúria e ameaças a terceiros”. Reconheço que parece, mesmo, meio sem sentido, mas, como o pensamento não tem limites e acaba nos levando para onde menos se espera, acho que isso tudo tem a ver com a forma pela qual se abandona uma porção de outras coisas ao longo da vida e sem perceber. Por conta dos novos tempos e conceitos em geral, abandona-se canções e livros que tiveram significado fundamental em momentos cruciais na nossa vida. Será que simplesmente esquecê-los, aos livros e canções, é uma atitude inteligente? E justa? Não custava nada ouvir de vez em quando aquelas coisas que nos emocionavam há algum tempo, mesmo que não se ouça mais no rádio ou na televisão. Perca um tempinho, por exemplo, para ouvir um “Samba de benção” cantado pelo Vinicius com Baden Powell no fundo. Deus do Céu, como é lindo! E como é atual!. E, que tal dar uma olhadinha no texto, até mesmo para ver como ele soa agora. Por exemplo, ler Machado de Assis hoje, anos e anos depois que se era obrigado a isso na escola, tem um sabor extraordinário. Incrível como a gente nao percebia nada!

E as pessoas, então? Com quantas delas se deixa de manter contato e se permite que se percam nas vielas só porque “não dá tempo”, “a vida anda corrida” ou, então e até mais freqüentemente, “ele é meu amigo, não vai se incomodar”. Quanto amigo de infância ficou por lá apenas por essas razões de conveniência que aprendemos a usar para nos justificar nos momentos em que damos de cara com a nossa própria cara no quarto escuro do tempo. E, será que esses velhos amigos, os parentes que ficaram para trás, será que eles não se incomodam, mesmo? O melhor termômetro somos nós mesmos. Será que nós não nos incomodamos?

O pensamento é assim mesmo, vai fazendo cabriolas, pega atalhos, vielas e não se consegue nem perceber por onde ele está nos conduzindo. Aí, de repente, se dá de cara com alguma coisa que nem se poderia imaginar no começo. Pois eu comecei com a saudade esquisita do meu “blog” para me ver frente a frente com uma personagem com quem nunca tive ligação alguma durante a vida inteira, tanto a minha quanto a dela. Que, por sinal, se encerrou não faz muito tempo. Pois é, quando menos esperava me vi frente a frente com a ex-vedete, ex-atriz que se tornou conhecida como Wilza Carla. Ela mesmo, aquela antiga moça magra e linda que, por razões diversas, acabou se tornando gorda e extravagante. Como atriz, entrou em nossas casas inúmeras vezes, mexeu com os nossos sentimentos de diferentes maneiras, foi famosa, conhecida, esteve rodeada de gente. E, quando. Finalmente, chegou seu dia final, não contou com mais de duas ou três almas para lhe fazerem companhia no trajeto. Assim como, conforme noticiaram os jornais, não contou com a companhia dos amigos durante os últimos e longos anos de vida que nada tiveram de glamurosos. Onde é que estavam os amigos de Wilza Carla? Onde estiveram durante tanto tempo? Que ocupação tamanha tomou conta deles todos a ponto de não poderem revê-la ainda que fosse de vez em quando? Será que ela compreendeu que estavam todos cuidando de suas vidas e sem tempo para mais nada? Será que não se incomodou?

Projetos novos são como um sopro de renovação na vida. Sem eles a coisa corre o risco de cair num marasmo de criar teia de aranha. É por isso que eu vivo em busca deles. Mas, de uns tempos para cá tenho percebido que ando incidindo nesse erro de me envolver com uma idéia nova e, simplesmente, deixar outras de lado. Isso acaba virando hábito e, quando se menos espera, se está fazendo a mesma coisa com coisas e pessoas sem nem mesmo notar. Só tem que o preço que se acaba pagando não pergunta se se notou ou não. Cobra e pronto. E acabei achando que esse tipo de sentimento de culpa por ter abandonado o “blog” não me veio à toa, não. Isso é coisa lá de dentro, aquelas complicações que o doutor Freud descobriu que a gente carrega consigo a vida inteira e parece nunca aprender a lidar com elas.

Vou ver se me reconcilio com o meu “blog”. Com um pouco mais de atenção, consigo ajeitar as coisas. Já com gente, não sei, não. Os amigos da Wilza Carla perderam essa oportunidade para sempre. Eu devo ter feito o mesmo com outras pessoas. Quem sabe tanto ela quanto as minhas pessoas possam compreender. Ou não. Mas, bem que poderia ter sido evitado.

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Responses

  1. Caro Dr. Bellini,

    Sou um leitor um tanto atrasado, mas leio!
    Seu texto, inteligente e sagaz como de costume, me levou a refletir em como o tempo manipula nossa vidas e nos embriaga. As vezes procuro por pessoas que há tempos não vejo, que tiveram participações marcantes em determinadas épocas. Mesmo com as diferenças em reencontrar pessoas após muitos anos, a satisfação é quase certa. Mesmo que seja para mostrar que lembramos delas durante o passar dos anos, independente dos sucessos e insucessos de cada um.
    Lembrar significa que também somos lembrados.

    Abraços.


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