Publicado por: bellinilima | agosto 12, 2011

AS LUZES DA CAVERNA

“Ai, a rua escura, o vento frio, esta saudade, este vazio, esta vontade de chorar”. Talvez os mais jovens não saibam, mas este é o inicio de uma canção de autoria de uma antiga compositora e cantora chamada Dolores Duran. É possível que nem mesmo saibam quem foi Dolores Duran que deixou o mundo nos já perdidos anos de 1959. Mas Dolores foi, segundo consta dos relatos e depoimentos de pessoas de sua época e convívio, uma mulher depressiva que buscou caminhos alternativos para enfrentar as tristezas e desgostos que esse estranho mal causa em suas vítimas. Morreu em 1959 depois de ter sido vítima de um infarto quatro anos antes, o que não pareceu servir de freio para sua vida atribulada, em particular a noturna, onde ela brilhava. Ainda de acordo com os relatos da época, ela teria chegado a casa já de manha, depois de uma noitada boêmia. Teria afagado sua filha e dito à empregada para não acorda-la pois queria dormir até morrer. E não acordou mais. Nunca se definiu com precisão se Dolores foi vítima de um ataque cardíaco ou se deu cabo da vida por meio de excesso de barbitúricos.  Ou, quem sabe, as duas coisas tenham se juntado para chegar ao final a que chegaram.

Mas o que não deixa dúvida foi sua vida atribulada, marcada pelo desassossego, pelas frustrações, pelas desilusões, pela tristeza, enfim. E eu me recordo que, alguns anos após a morte de Dolores e todo aquele mistério sobre se havia sido natural ou suicídio, um velho tio ouvia Ternura Antiga numa antiga eletrola e teceu um comentário que invadiu a minha memória para nunca mais me deixar. Ele me disse: “É só prestar atenção no começo dessa música e a gente consegue entender perfeitamente o que levou a moça a fazer o que fez.” De fato, que saídas poderia ter alguém que se talvez se visse diante de uma rua escura, de um vento frio, de uma saudade, de um vazio, de uma vontade de chorar? A idéia de por um fim nisso tudo começa a se tornar tentadora, familiar, quase solução doméstica. Se se considerar que, quatro anos antes de partir, a então jovem Dolores já havia sofrido um infarto e nem mesmo assim se decidiu a conter as extravagâncias, a tese do apressamento da caminhada ganha reforço. E, se a morte é triste, a vida vivida nesse clima é ainda mais.  

Os exemplos são muitos. E, ainda agorinha, o mundo vê a cena se repetir com a jovem cantora e compositora inglesa Amy Winehouse. Não passou da casa dos 27 anos de idade como, aliás, vários outros de gerações anteriores. E, se ao longo de seu curto estágio de vida ocupou a atenção da mídia com sucessivas situações desastrosas, não se poderia esperar nada diferente no momento em que essa triste seqüência de inconseqüências é coroada com um fim trágico, embora mais do que anunciado e previsível. Sua figura estranha, aparentemente produzida com o intuito de chocar, invade as telas de televisão e as páginas de jornal atirando na cara de todos a derrota acachapante da vida. Sim, porque, além dela mesma, jovem oprimida por si mesma e dos que por ela choram, chora também a vida por se ver mais uma vez de joelhos diante da tragédia. Sempre que um jovem morre vítima do que poderia ter sido evitado, da inconseqüência, da imprudência, do desequilíbrio, morre um pouco da vida enquanto espetáculo mágico e maravilhoso.  

Que tristeza foi essa que deve ter acompanhado essa moça em todos os dias de sua vida a ponto de neutralizar nela aquilo que de mais forte possui o ser humano, a força pela sobrevivência? Quanto deverá ter sofrido essa menina diante de si mesma, de suas frustrações, decepções, derrotas cotidianas a ponto de se lançar em vingança contra si mesma? Quanto de colorido faltou aos seus dias a ponto de levá-la a adotar a aparência de alguém portador de uma alma daltônica, cinzenta? Essa garotinha, tanto quanto outros que seguiram pelos mesmos labirintos, talvez tenham sido crianças sorridentes, leves como quaisquer outras. Em algum momento enveredaram por essa caverna escura cuja luz no final era apenas o precipício, o vazio, o nada. E, até que chegasse o momento de mergulhar nesse nada, que tristeza viveram, que dores experimentaram? Quantos terão sido os momentos que preferiram ser simples colegiais barulhentos fazendo algazarra pelos corredores de alguma escola anônima, dessas que preparam aprendizes de gente a serem gente comum pela vida afora?  

Ninguém nunca vai responder nada disso porque os únicos depoentes a esclarecer não mais dirão nada. Nem mais escandalizarão a ninguém com atitudes que foram verdadeiros pedidos de socorro desesperado por alguém que lhes retirasse daquele caminho escuro e lúgubre. Mas, ainda mais tristemente, se tornarão ícones de uma rebeldia incompreensível e sem bússola, uma luta contra coisa alguma além de si mesmos. Tanto quanto os que a precederam, serão vistos como mártires de uma causa vazia, eloqüentes oradores de um discurso de mudos dirigido a surdos. Ou de um espetáculo de malabares executado por manetas a um público de cegos. Os mecanismos sociais se encarregarão de transformá-los em símbolo de gerações, porta-vozes de um grito sem nexo, mas fatal que, em algum momento adiante, fará mais vítimas. E tudo se repetirá sem que alguém se incomode com a tristeza que acompanhou a curta vida de cada um deles, como parece ter sido a vida dessa menina compositora e cantora que traduziu seu desespero por meio de sons harmoniosos e ruídos desesperados.  

A sociedade, ironicamente, erguerá um brinde a ela com o mesmo cálice que serviu de arma contra si mesma. E contra a rua escura, contra o vento frio…

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Responses

  1. Nós tivemos mais uma perda de um talento musical, como outros que morreram com 27 anos apenas. Jovens o bastante para não aproveitarem todas as etapadas da vida. Mas eu cheguei em uma conclusão que esses talentos relâmpagos se vão por causa de um grande inimigo, eles mesmos. Claro que existem falores externos que contribuem.
    Pegar o exemplo do Kurt Cobain da banda Nirvana, segundo a biografia do cantor, “Mais pesado que o céu”, o livro descreve os vários fatores que levaram Kurt ao suícidio, mas o principal fator foi ele e a sua fraqueza perante as drogas. Também tiveram fatores externos, como o seu pai que não concordava com o fato dele seguir no ramo da música, para a cabeça do pai Kurt tinha que seguir o mesmo ofício dele, ser lenhador.
    Mas é isso Belline, gostei muito da crônica.que você escreveu.

    até +


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