Publicado por: bellinilima | janeiro 1, 2012

DOCES E AZEDOS

Bem agora que eu me sento em frente ao teclado neste último dia do ano, o ano que vem já veio em muitos outros lugares do mundo. Por várias outras partes do planeta já tem gente dando inicio a tudo aquilo que sonhou e desejou, a si e aos outros, para o ano que começa. É claro que, por enquanto, tudo ainda é euforia, mesmo que algumas horas do novo tempo já tenham se passado. E daqui a uns três meses, todas as promessas e planos já terão entrado no ritmo da rotina. Por mais que possa doer, todo esse clima de harmonia e solidariedade já terá passado e cedido lugar à luta pela vida que nós optamos por tornar árdua, áspera, impiedosa até. Que estranhos somos nós todos, não? 

Entra ano, sai ano, tudo se repete. Chegamos a essa época desarmados, humanizados, saboreando o gosto bom do bem querer, da paz, da tranqüilidade. Nem os congestionamentos das estradas, nem os atropelos das lojas, nem os preços de tudo aquilo que sonhamos comprar conseguem quebrar esse arco-íris de sentimentos brandos, amenos, suaves. Vivemos pouco mais de um mês nessa boa vida, mesmo que o corre-corre aumente e quase não dê tempo para nada. Mas, nesses dias lamentamos não ter conseguido falar com todos os nossos amigos, sentimos não ter sido possível enviar um cartãozinho que seja a todos aqueles que nos vêem à superfície da lembrança. Em outras palavras, nesses dias simplesmente nos importamos com as pessoas. Estranho, não? 

Ano passado foi assim. O anterior, também. E todos os que vieram antes. Há quem diga que esses tempos de festas só são bons assim porque duram pouco. Se fossem mais demorados, durassem mais, cairiam no comum, as pessoas se habituariam ao clima e eles perderiam a magia, deixariam de ser especiais. Sempre que o encanto se torna rotina, deixa de ser encanto. Pode ser que seja verdade. Eu tiver um amigo que, ao se aposentar, começou a reformar a casa que possuía em sua cidade natal. Eu perguntei, então, se ele pretendia se mudar para lá. E ele me disse que não. E, satisfazendo a minha curiosidade, explicou que todas as vezes que ia até sua terra, era recebido e tratado como visita. Se se mudasse para lá, viraria morador e acabaria o encanto. Faz muito sentido. E talvez seja necessário, então, concluir que, no fim das contas, a felicidade não pode fazer parte do dia a dia, pois vira coisa rotineira e deixa de ser felicidade. Será? 

Pensando que seja assim, porque, então, todos se desejam tantas felicidades nesta época do ano e fazem questão de insistir que dure por todo o novo ano? Se a felicidade não resiste a mais que uns poucos momentos, de que adiantam tantos votos? Pois é. No fundo, pode ser que todo mundo saiba disso ou pelos menos ficaria sabendo se parasse um instante para refletir. No entanto, apesar de tudo, o ritual se repete desde que o mundo existe ou, quem sabe, um pouco menos que isso. Mas existe há muito, muito tempo. E ninguém se cansa de viver o que, no fundo, talvez não passe de uma grande ilusão. E se tudo não passa de ilusão, porque é que insistimos? Eu desconfio que, mesmo com tudo isso, com toda essa crueza, o homem tem uma necessidade incontrolável de ser bem mais que essa máquina de sobreviver em que conseguimos nos transformar. Da mesma forma que expulsamos a natureza das cidades e depois vivemos correndo atrás dos sítios e praias, é possível que tenhamos abolido os sonhos e ilusões do nosso cotidiano e, no fim, vivemos atrás disso mesmo. Não deve ser à-toa que a música ainda comove até os mais empedernidos, que as cenas dramáticas de um teatro arrancam lágrimas até mesmo dos mais sérios e sisudos e que o sorriso de uma criança fascinada pela vista do mar faça até mesmo os mais apressados darem uma parada para contemplar. Ou que aplaudimos o por do sol ainda que o astro principal não nos possa ouvir.  

O que fica difícil de entender, de fato, é que a felicidade repetida corra o risco de perder a magia, mas o acinzentado do dia a dia amargo, não. Porque, afinal, o azedo repetido a vida inteira não enjoa e o doce, sim? Porque a frieza diária é suportável e a gentileza não sobrevive? Sei não. Acho que está faltando pensar melhor nesse tal ano novo…

Anúncios

Responses

  1. Amigo Bellini
    Desde agosto o amigo não nos brindava com seus belíssimos textos, de uma perspicácia e inteligência incomparáveis. Lá se vão 4 anos de crônicas bem redigidas, com visões críticas muito bem elaboradas, analíticas e que nos fazem refletir sobre nossas vidas. Continue a nos brindar com seus textos sobre “coisas que eu penso no dia nosso de cada dia ” que nos permitem literalmente, viajar, por visões de extrema grandeza.Odilon


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: