Publicado por: bellinilima | agosto 15, 2015

PESSOA BEM RESOLVIDA

Já há algum tempo e cada vez mais se ouve pessoas dizendo sobre si mesmas que são bem resolvidas. Em proporção mais ou menos igual se ouve, também, referencia a terceiros que são mal resolvidos. Que eu me lembre, isso começou lá pelos anos 60 quando a sociedade ou parte dela resolveu dar inicio a uma quebradeira de valores que tinham suas origens no pré-guerra e se mantiveram meio abaladamente no pós-guerra. É que o pós-guerra, assim como um pós-operatório, certamente afetou muito a mente e o conjunto de valores principalmente das sociedades europeias que viveram e sofreram aqueles horrores todos. Nada mais natural, portanto, que os sobreviventes e os herdeiros desse tempo se pusessem a pensar em tudo aquilo, sobretudo em porque, diabos, havia necessidade de, de tempos em tempos, o continente se ver submerso naquele inferno.

É claro que isso tudo não passa de mera conjectura de minha parte para tentar compreender a origem dessa história de “bem ou mal resolvido”. Mas, não é menos verdade que, há algum tempo e sobretudo nos dias atuais, a figura do “bem resolvido” e “mal resolvido” ganhou versões curiosas. Uma delas é que não demorou muito para começarem a aparecer as listas de caracteristicas dessas pessoas, os mandamentos que identificam o que é ser bem ou mal resolvido. Nos velhos tempos da ditadura militar houve uma campanha pública visando conscientizar as pessoas sobre a necessidade de se preservar a limpeza. O personagem vilão era o Sujismundo, um sujeitinho que jogava lixo na rua e outras barbaridades. Mas, o mote da campanha passou a ser “povo desenvolvido é povo limpo”. Era um dos mandamentos do povo desenvolvido. Ora, ser limpo não faz nenhum povo se tornar desenvolvido. Quando muito, melhora um pouco a convivência porque sujeira é coisa triste, mesmo. Exatamente da mesma maneira, adotar este ou aquele tipo de conduta não faz ninguém se tornar bem ou mal resolvido, se é que isso comporta algum tipo de definição ou, quem sabe, se isso existe realmente.
Como, no entanto, os tais mandamentos parecem irresistíveis, já existem alguns comportamentos que indicam a condição de “bem resolvido”. Uma delas é ser um tanto diferente dos padrões habituais, com certo ênfase para a irreverencia. Causar um choque nos circunstantes é um forte indicativo de que se é bem resolvido. Os outros é que se incomodam. Eu, não, que sou bem resolvido. Um outro mandamento dos bem resolvidos parece ser o individuo dizer tudo o que bem entende e da maneira que bem entende. É o tipo que “fala na cara”, Em considerável parte das vezes, as falas não são precedidas de qualquer reflexão, quer seja em prol da procedência do argumenrto e sua sustentação, quer seja na maneira pela qual é externado. Fala-se e pronto. Porque se é bem resolvido. Ou não se fala porque se é mal resolvido. E, quem se incomodar, que se mude porque não é bem resolvido.

Lá pelos anos 60 surgiu um ramo alternativo da sociedade cujos integrantes ganharam o nome de “hippies”. É claro que todo mundo conhece. Tinham lá sua filosofia que primava por ser contra os padrões sociais tradiciionais. Eram contra o dinheiro, a sociedade capitalista e tudo o que mais vigorava no mundo. Tinham sua maneira própria de vestir, de se alimentar, de morar, de conviver. Mas, de alguma forma, tinham que vestir, se alimentar, morar e conviver. Então, a turminha foi aumentando, aumentando e acabou se tornando mais um ramo do mercado consumidor. Havia roupas para “hippies”, calçados para “hippies” e assim por diante. Os tais mandamentos acabam sendo um perigo.
Afinal, o que é, exatamente, ser bem ou mal resolvido? Aurelio Buarque de Hollanda registra nada menos que dezessete significados diferentes para o verbo “resolver”. O de número 3 define “resolver” como “Achar a solução de; explicar, esclarecer, aclarar”. O próximo, de número 4, diz: “Decidir depois de exame e discussão; deliberar a respeito de; dar a solução a”. O seguinte assim se manifesta:”Deliberar-se ou resolver-se a; decidir, resolver”.

Avaliando por qualquer desses ângulos, o sujeito bem resolvido deve ser o que acha solução, explica, esclarece. Mas, o que isso tem a ver com o voluntarismo quase que sempre agressivo pelo qual essas pessoas costumam se expressar? Afinal, se o individuo tem lá um conflito interior qualquer e conseguiu solucionar, porque precisa ser beligerante com os circunstantes? Afinal, a quem se dirige a agressividade? Se é aos que o cercam, parece um tanto fora de propósito porque, afinal, o tal conflito interior deve ser do autor da declaração de guerra. Então, porque enviar suas tropas ao exterior? Ou será que essa encenação não passa de um disfarce impingido a si mesmo por não ter conseguido “resolver” coisa alguma?

Eu, que não sou psicólogo nem nada, entendo cada vez menos isso tudo. Só fico observando com que fervor as pessoas se apegam a esse “bem ou mal resolvido” enquanto a vida vai passando, passando, sem dar muita importância a ninguém. Aí, vem um certo John Lennon e diz, com simplicidade, que “a vida é isso que está acontecendo lá fora, enquanto você se prepara para o futuro” ,

Ou se preocupa em ser bem resolvido. Sei não…
Em 13 de agosto de 2015

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