Publicado por: bellinilima | abril 23, 2010

A SUBLIME ARTE DE TANGER

Mais servira se não fora para tão longo amor, tão curta a vida” Para quem não tem lá muito interesse por poesias muito velhas, esse verso foi escrito por Luiz de Camões, um soneto em que narra o amor de Jacó por Raquel, frustrado pelo pai dela, Labão que, em lugar da amada, só lhe concede casar-se com a irmã Lia.  O verso, no contexto do poema, exalta o amor interminável do pastor por aquela a quem chama de “serrana bela” e a sua disposição de se dedicar àquele amor ainda mais tempo do que já dedicara. O único impedimento seria o fato de a vida ser curta demais para tão grande amor. Não sou capaz de imaginar se Camões pretendeu que seu verso abrangesse situações ainda mais extensas e gerais que a do amor do pastor por sua serrana. Se pretendeu, conseguiu. Se não pretendeu, atingiu assim mesmo. De que tamanho é a vida quando colocada diante de tudo o que se pode viver e de tudo o que se deixa de viver por conta de nossas próprias atitudes?  

No auge dos vinte anos, a vida vai durar pelo menos uns duzentos. E assim mesmo, esse número é absolutamente aleatório porque simplesmente não se consegue vislumbrar que ela possa ter fim. Na medida em que o tempo vai passando, porém, os caminhos começam a se estreitar e vai pintando no horizonte um incômodo prenúncio de que, em algum momento, isso tudo vai acabar. Talvez seja por isso que, no verdor da adolescência e mocidade somos naturalmente impetuosos e sem maiores preocupações com muitos dos nossos atos, pensamentos e palavras. Em duzentos anos é perfeitamente possível refazer, corrigir, consertar qualquer coisa que se tenha feito. Quando a trilha começa a estreitar, essa meia-volta já fica mais difícil, não há muito espaço para manobrar e voltar atrás. Por conta disso tenho pensado muito em alguns dos nossos valores sociais, coisas pelas quais arriscamos a vida e o bem viver. As ofensas são uma delas. É claro que não há como generalizar. Existem algumas que, por mais que se tente, não há como relevar. Mas, boa parte delas pode muito bem ser reavaliada. A começar do conteúdo delas. Será que tudo o que julgamos ofensivo é mesmo assim? Até que ponto não foi alguma coisa dita de forma enviesada, infeliz, um mau uso de linguagem ou até mesmo de atitude e que nunca teve a mais remota intenção de ser ofensiva? Mas o mais comum é não se perder nenhum minuto com essa reflexão. Em vez disso, a coisa é rotulada como ofensa e pronto. E nunca mais tem conserto. Fica guardada nas nossas gavetas e, como qualquer outra coisa, vai deteriorando, apodrecendo, causando mau cheiro. Até mesmo as que tenham tido origem com ofensas, quando arquivadas indefinidamente, por tempo indeterminado, acabam empesteando o ambiente.  

Em nome de que se conserva isso tudo? Aí está uma pergunta que eu me faço a todo instante e não consigo achar a resposta. Vamos imaginar que, mesmo passados muitos anos, se consiga dar o troco. Muito bem, o troco está dado. E então? Qual é o próximo passo? O que isso trás de conforto? Será que não seria mais útil para o nosso próprio bem estar se tentássemos neutralizar dentro de nós aquela impropriedade, secar a ferida em lugar de permitir que ela se mantenha aberta, com dor e risco de infeccionar? E o que nos custa manter viva a afronta? Na maioria das vezes o preço é uma boa parte do nosso bem estar pessoal, da nossa própria harmonia interior. Isso tudo se alimenta de nós mesmos, da nossa alegria, da nossa descontração. E, na mesma proporção, essa necessidade de dar o troco, de manter vivo o ressentimento, cobra um preço adicional: uma fatia da harmonia externa, do convívio social, profissional, familiar. No ímpeto de devolver ou de manter as quizilas acaba-se desfechando flechadas em quem estiver por perto. Em suma, o custo de se eternizar o que julgamos um ultraje, uma afronta, uma desconsideração acaba sendo a nossa paz interior e exterior. Vamos viver em guerra, nos ferindo por mais e mais tempo. Afinal, esse “dar o troco” consiste unicamente em retribuir a ofensa, com todos os respingos. Ou seja, vive-se o amargor da ofensa recebida e o da ofensa devolvida. Um jogo, enfim, onde só há perdedores. Se a vida fosse tão longa quanto nos parecia aos vinte anos, isso tudo talvez não fosse um grande problema. Em algum momento se colocaria tudo em pratos limpos e se recomeçaria do zero. Como, no entanto, a conta parece errada, muitas vezes nem dá mais tempo de lavar os pratos. Vamos comendo nos pratos sujos e o que é pior, comendo aquele prato azedo chamado vingança, o pior dos banquetes.  

A vida em si, sozinha, já é um grande, um longo amor. O tempo sempre será curto para ela.  Jacó nunca desistiu de nenhuma das duas, nem da vida, nem de sua serrana bela. E mais teria feito por elas se o tempo permitisse. Convenhamos, deixar essa riqueza se esvair pelos dedos apenas por conta de dar trocos não parece um desperdício? 

 

Publicado por: bellinilima | abril 9, 2010

PENSANDO BEM

Viver sem você, é claro que eu até poderia. Afinal, viver é um ato biológico, não? Depende de uns poucos elementos fundamentais. Eu preciso de ar. Sem ele, não há como. Até pode ser esse aí, um tanto poluído como ele se tornou. Mas ainda é essencial. Deve fazer um pouco de mal à saúde, encurtar o tempo, mas é indispensável. E, de qualquer forma, ele anda por aí, mesmo que às vezes um pouco rarefeito. Eu também preciso de água. Não há como ficar sem. Dizem que ela anda escasseando e já se começa a pensar na sua falta, em algum momento de um futuro não muito distante. Também não anda das mais purificadas. Na verdade, tem sido maltratada, se é que me entendem, justo ela que deveria ser tratada e mais tratada e nunca mal tratada. Mas, seja como for, no estado em que estiver, não há a hipótese de não tê-la. E, bem ou mal, ela anda por aí. Comida é o terceiro dos outros elementos de que dependo para viver. Essa, então, tem dado margem a todo tipo de conflitos, palco de guerras e outras estultícias. E há muitas delas As guerras e as estultícias, também, mas agora eu estou me referindo às comidas. Há das que ajudam a viver, das que causam danos, das que até acabam se tornando um obstáculo à vida, verdadeiros venenos. Mas, sem ela, nada feito. E, apesar de tudo o que gira em torno dela, de sua presença, de sua ausência, ela não desapareceu nem vai desaparecer.    

Ar, água e comida. Com esses três elementos, daria para viver e poderia até mesmo ser sem você. Viria um dia, depois outro e depois outro. Eu continuaria respirando esse ar que circula livremente, vai passando de um pulmão para outro, recebendo e devolvendo suas partículas que se espalham pela natureza indistintamente. Um, dois, mil dias. Anos, décadas praticando o sempre mesmo movimento de inspiração e expiração, partilhando anonimamente a maravilhosa composição química do ar com os outros milhões de seres que se alimentam da mesma alquimia. Até que um dia, tão anonimamente quanto começou, o processo terminaria. Sem deixar marcas, relatos ou histórias. Sem um suspiro daqueles puxados bem do fundo, sem uma só pressão no peito que me tivesse feito perceber o incomparável mecanismo da vida. Sem o encantamento de todos os dias, os sobressaltos causados pelos caminhos do ar percorrendo minhas entranhas e me fazendo saudar o universo e o pulsar da vida. Mas. eu teria vivido.  

Dias depois de outros dias, eu sorveria a água necessária a me manter respirando, caminhando, vivendo, enfim. Meu processo vital se sustentaria dos dois elementos e me levaria adiante, sabe-se lá por quanto tempo. Tal como o ar, eu iria sugando a água para minhas entranhas, ela que percorreria seus caminhos interiores até voltar ao mundo externo e se reintegrar no todo para se purificar e continuar servindo a outros, iguais a mim. Assim iria eu até que, em algum momento, a dinâmica se interromperia, o movimento cessaria. Sem que eu tivesse tido a chance de perceber se a água esteve fria, tépida, quente. Se os raios do sol se espalharam sobre ela criando cristais coloridos, translúcidos, caleidoscópios em movimento aleatório. Sem jamais ter conseguido ouvir uma só das notas da melodia incessante que a água compõe sem parar, no seu fluir interminável, consagrando a magia da vida. Tudo assim se passaria. Mas, eu teria vivido.   

Em plena e perfeita consonância com o ar e a água, eu absorveria toda a comida de que precisasse. E poderia ser bem pouca, sem variedades ou requintes. Nada disso seria necessário para que meus ossos, músculos e nervos se fossem nutrindo da seiva vital e me mantivessem em posição ereta quando assim fosse o caso ou em estado de repouso quando assim me obrigassem as circunstâncias e a necessidade. Não seria preciso nada mais do que o essencial para que cada uma das milhares de células que me formam fossem se alimentando, independente de paladar, olfato ou qualquer outro sentido mais sofisticado. Isso tudo até que, em algum momento, nada disso seria mais necessário já que as células simplesmente dariam a função por encerrada, um basta em suas mitoses, meioses ou qualquer outro processo de reprodução, manutenção, conservação. E, tudo isso sem que a memória pudesse reter os aromas, os sabores, as consistências de que os alimentos podem se revestir e gerar prazeres que não se limitam aos sentidos, mas vão muito mais longe. Vão aos encontros, ao compartilhar de momentos de emoção, de alegria, de calor humano. Mas, ainda que sem ter experimentado disso ao menos um pouco, eu teria vivido.  

Pois é. Viver sem você, é claro que eu até poderia. A questão é que eu tenho quase certeza de que algumas coisas iriam ficar faltando. Não haveria, por exemplo, a sensação térmica do carinho, o requinte da ternura que envolve almas. Talvez nem houvesse alma. É que os elementos biológicos da vida sozinhos não conseguem alimentar a alma. Ela tem vontades próprias. Em sua mesa tem que haver emoção fumegante, afetos bem temperados, amor ao ponto. É preciso mais do que água. Ela precisa de um vinho ou de um néctar e tem que ser servido em taças de cristal. Ela é exigente. E o ar não pode ser apenas puro. Tem que ser perfumado, cheirando às rosas que abrem logo no comecinho do aparecimento do sol, bem cedinho, quando ele chega ainda com cara de sono. E na falta disso tudo, não poderia, mesmo, haver alma pois ela não teria do que se alimentar, do que saciar sua sede, nem de se oxigenar. E então, a vida se encerraria em si mesma, sem deixar rastros, vestígios, histórias, essas histórias que se vai escrevendo dia a dia, noite a noite, tarde a tarde. Casinhos pequenos, rotineiros, histórias mirabolantes, os grandes medos, as grandes aventuras, as fraquezas, as incertezas. E junto com isso tudo, o afago, o abraço, o beijo de raspão ou mais demorado. O sexo e as risadas. Os tropeções e quedas espetaculares em público, à vista de todo mundo. E as raivas, as vontades de matar ou deixar bem machucado.  

Alma é assim, cheia de “quero isto, quero aquilo”. Mas, em troca, ela dá o que faz toda a diferença: o sentido da vida, a razão, a vontade, os desejos, os sonhos e tudo mais que faz a diferença entre viver, escrever uma história ou apenas cumprir um ciclo biológico. Ou, em uma só palavra: amor. Eu desconfio que, sem amor não haveria alma e sem alma não haveria vida. Aí, como é que eu iria viver sem você? 

P. S. – pensando bem, isso se aplica ao objeto que se bem entender: pessoas, idéias, dons. É só uma questão de escolha. Eu, claro, fiz a minha…

Publicado por: bellinilima | abril 1, 2010

NÓS, GRANDES E PEQUENOS

“O rosto de Dona Benta sombreou. Sempre que punha o pensamento na guerra ficava tão triste que Narizinho corria a sentar-se em seu colo para animá-la. “Não fique assim, vovó. A coisa foi em Londres, muito longe daqui. – “Não há tal, minha filha. A humanidade forma um corpo só. Cada país é um membro desse corpo, como cada dedo, cada unha, cada mão, cada braço ou perna faz parte do nosso corpo. Uma bomba que cai numa casa de Londres e mata uma vovó de lá, como eu, e fere uma netinha como você ou deixa aleijado um Pedrinho de lá, me dói tanto como se caísse aqui.” Monteiro Lobato publicou “A chave do tamanho” em 1942, quando a Segunda Guerra Mundial se encontrava ainda no auge e as bombas se sucediam arrasando cidades e suas populações. Tocado, talvez, pelos ecos da tragédia que envolvia o mundo, Lobato, com sua consagrada genialidade e sua ilimitada originalidade, escreveu esse livro que conta como sua extraordinária Emilia vai em busca de desligar a chave da guerra que alguém inadvertidamente deve ter ligado e causado toda aquela tristeza. É que, na cabecinha da boneca, verdadeiro alter-ego da humanidade, tudo o que se passava no mundo era comandado por chaves, dessas de quadro de energia elétrica, que ficavam num lugar chamado “A Casa das Chaves”. Assim, se desligasse aquela que causava a guerra, terminaria com o conflito e devolveria a paz ao planeta.  

O ser humano é fascinante e por conta disso exerce esse fascínio sobre o próprio ser humano. E não é sem razão. Não são poucas nem pouco expressivas as obras humanas que parecem nos aumentar por dentro, nos dão a impressão de que nossas células cresceram de tanto orgulho de pertencer a essa casta. Mas, E, no entanto, esse mesmo homem é capaz de ir dos céus aos infernos com uma velocidade espantosa, com uma flexibilidade incalculável. A mesma criatura que transforma os mais nobres sentimentos em um caleidoscópio de sons com efeitos mágicos ou harmoniza as cores do arco-íris a ponto de arrancar lágrimas, essa mesma criatura é perfeitamente capaz de protagonizar verdadeiros espetáculos de miséria que, na mesma intensidade das obras divinas, remete ao mais sombrio dos reinos. As guerras são um bom exemplo disso. E Monteiro Lobato conseguiu capturar com prodigiosa precisão esse sentimento de abatimento que recai sobre o homem quando ele próprio se entrega à barbárie. Magistralmente, Lobato mostra de que forma os horrores não tem pátria nem distancia. Afetam a todos os que têm um mínimo de sensibilidade e consciência porque esses horrores são, invariavelmente, momentos em que a humanidade se afunda em sua própria miséria. 

Essa foi ou ao menos deveria ter sido a percepção da sociedade diante do episodio que ocupou uma semana inteira da atenção de um sem número de pessoas: o julgamento do casal Nardoni. Suspeitos de terem matado uma criança, filha de um dos dois componentes do casal, permaneceram presos desde a data do crime até o julgamento. E, como era mais do que esperado, foram pesadamente condenados. A exemplo do que se viu acontecer quando da época do crime, também agora a comoção social se fez presente e, em termos práticos, foi quem regeu os acontecimentos da semana inteira em que se desenrolou o julgamento. Viu-se de tudo: uma imensa platéia em frente ao tribunal do júri, promotor público sendo verdadeiramente ovacionado pela massa humana que, por outro lado, não se cansou de hostilizar os advogados de defesa dos réus. Faixas e cartazes com fotos da pobre vítima e palavras de ordem contra os acusados povoaram os arredores. E todo o clima foi precisamente capturado e divulgado pela imprensa que, embora cumprindo seu papel, acabou dando uma considerável contribuição de estímulo ao cenário. Ao final, o que todos já esperavam: uma pesada condenação aos dois réus.  Uma verdadeira explosão popular, fogos de artifício, uma comemoração digna de um evento esportivo apaixonante. 

A comoção da sociedade é compreensível. Afinal, tratava-se de uma criança que, de alguma maneia, foi brutalmente assassinada, tenha ou não havido intenção. Se não foi algo intencional, ao menos faltou a mais embrionária de todas as sensibilidades para que não se desencadeasse sobre a criança a fúria que acabou encerrando sua vida.  Mas, apesar de compreensível, essa comoção social parece não atentar para aquele que talvez seja o mais contundente de todos os aspectos: a manifestação mais eloqüente e incisiva da miséria humana. Afinal, de que outra ótica se pode enxergar o espancamento, brutalização e morte de uma criança? E, de outro lado, será que não é tão igualmente miserável ser condenado a passar quase a vida inteira confinado em uma cela de prisão convivendo com o nada e com o provável remorso pela barbaridade cometida? Que legado receberão os outros filhos do casal infeliz? E que dizer dos pais desses dois, que foram irreversivelmente marcados por toda essa tragédia. O mínimo que se pode dizer é que a fatalidade se abateu sobre todo esse grupo de pessoas direta ou indiretamente envolvidas no escabroso episódio.  E, de quebra, sobre todos nós, membros do clã humano. 

Não há como não pensar naquilo que disse D. Benta. Ainda que não tenha acontecido dentro dos limites da nossa própria casa, é como se assim fosse pois a humanidade é um corpo só, formado por infinitos segmentos. A dor de cada um deles é a dor do corpo inteiro. Ou, talvez, devesse ser assim. E, exatamente por conta disso é que, ao final do julgamento, ainda que a justiça tenha sido feita, a única eloqüência que deveria ter tido lugar era a do silêncio. Um silêncio profundo, reverencial, pelo momento de miséria humana que se fez presente e que envolveu a toda a humanidade. Os fogos deveriam ter sido guardados para as comemorações esportivas. E os sorrisos soberbos de vitória para os momentos de festa. O que não foi o caso pois nesse embate não houve vencedores. Todos saímos perdendo.

Publicado por: bellinilima | março 25, 2010

ATESTADOS DE IDONEA IDADE

Dia desses recebi, de um amigo, um e-mail desses que vêm recheados de fotos de lindíssimas garotas em trajes menores. Aliás, bem menores. A brincadeira era com a seleção de futebol: que tal uma seleção formada por aquelas beldades em lugar da outra, sem dúvida gloriosa, mas repleta de barbados troncudos e nada graciosos. Minha resposta ao amigo foi com outra pergunta: “não seria o caso de convocar fulano”? E a tréplica não tardou: “Mas com que o fulano contribuiria? Com a chanca, o fardão, o meião?” Pois é. Ainda bem que o meu dileto amigo não se empolgou mais do que já fez. Poderia ter me atirado na cara uma bola de capotão, o sebo de passar na chuteira, quem sabe até um “goal keeper” ou um “center half”.  

Antes de mais nada, vamos ao glossário. “chanca” era o nome que se dava ao calçado utilizado para a prática do tal esporte bretão, popularizado como futebol. Alguns tentaram denomina-lo ludopédio e até balípodo, mas definitivamente, os nomes não pegaram. A chanca era uma coisa rústica, sem a sofisticação dos tempos modernos. Vivia exposta a chuva e à lama, pois assim eram os campos de várzea. E para conservar um pouco mais, o usuário untava com sebo, obtido em qualquer açougue do bairro. O mesmo se aplicava à bola de capotão, tipo de bola igualmente sem maiores sofisticações, feita em gomos de couro amarrados uns aos outros por fios de couro. As costuras ficavam à mostra mais ou menos como as antigas cesarianas. Fardão e meião são bem mais intuitivos, meros aumentativos daquilo que as palavras representam: o fardamento dos jogadores e aquela meia de cano longo que sobe até o joelho e depois é dobrada esteticamente. “O “goal keeper”, que os locutores esportivos gostavam de chamar de guarda-valas, é o que o nome está dizendo: o que toma conta do “goal”, aquele retângulo onde a bola deveria entrar, para gáudio de uns e desespero de outros. O “center half” era um sujeito que ficava mais ou menos na metade do campo rebatendo a bola para frente. Ou alguma coisa parecida com isso.  

Mas, que ninguém pense que isto tem a pretensão de ser uma aula sobre futebol. Quando muito, um despretensioso passeio pelo vernáculo popular antigo. Bem antigo. A dura e crua realidade é que de nada adianta ficar trocando e-mails com fotos de lindas garotas. Não há o que consiga escamotear a verdade do tempo. Em três inocentes expressões o meu diletíssimo amigo (poderia dizer o velho amigo, mas não seria de bom tom) se expôs aos olhos implacáveis da censura cronológica. E, é óbvio que nenhuma das três soou estranha ou pouco usual aos meus ouvidos também entrados em anos. Por mais que se tente manter a linha, não há como evitar o resvalo. Existe uma anedota que fala de um paulista em visita ao Rio de Janeiro e que, em um bar, tentando impressionar os circunstantes, pede ao garçom que lhe traga um chopp e dois pasteis. Os pasteis, claro, foram pronunciados com os “s” bem chiados, ao estilo carioca. O garçom, então, perguntou sobre o sabor dos pasteis e o paulista, distraído, devolveu um “de carrne” com aquele “r” mais acaipirado que os de Itú.  Com a idade é a mesma coisa. Quando menos se espera, lá vem, do fundo do inconsciente, uma observação, gíria, expressão que coloca o sujeito no seu devido lugar. E, nessa hora, o individuo se sente um verdadeiro pitecantropo recém descoberto, a estrela de uma palestra sobre arqueologia. Isso porque os jovens parecem sentir um sádico e desmesurado prazer em enfatizar o tropeço. Experimente alguém falar sobre barbatanas de colarinho ou abotoaduras para uma platéia de moças e rapazes entre até uns trinta anos. Se o ambiente for cerimonioso e de muito respeito, sorte do autor da declaração. Os ouvintes se limitarão a se entreolhar cheios de cumplicidade como se tivessem sido agraciados com a chance de encontrar um ser extraterrestre.  Vá o incauto contar alguma peripécia realizada em um “Karman-Ghia” e terá que estar preparado para que lhe desenrolem as ataduras ou o devolvam a sua pirâmide.  

Ainda recentemente, numa cidade do interior de São Paulo, visitando uma lojinha de lembranças do local, avistei um daqueles aparelhos telefônicos que eram acionados por manivela. Muito ingenuamente, perguntei à mocinha que me atendia, de que época era aquilo. A primeira resposta foi o já conhecido “não sei, isso não é do meu tempo”. Como eu respondesse que também o descobrimento do Brasil não era do nosso tempo e nós sabíamos do que se tratava, ela resolveu consultar uma coleguinha que, sem pestanejar, sugeriu que deveria ser dos anos noventa. Eu, então, optei por não prosseguir na tertúlia. Afinal, qualquer coisa que eu tentasse acrescentar poderia levar as jovens a chamar o diretor de algum museu e denunciar a minha fuga. Não tem jeito. Essas coisas da nossa juventude distante, quando escapam das redomas da memória e resolvem se mostrar em público são verdadeiros atestados. Atestados de Idônea Idade.

Publicado por: bellinilima | março 19, 2010

TROPEÇANDO

Será que alguém já se dispôs a fazer uma lista por ordem de grandeza, das situações embaraçosas por que se passa na vida? Não estou me referindo a grandes vexames, desses que acontecem no meio político às dúzias. Nada disso. São aquelas situações em que nos sentimos como naqueles sonhos em que estamos completamente nus em público. Quem nunca sonhou que se encontrava em uma situação pública qualquer, na rua, numa festa, mas parcial ou totalmente pelado? Puxando pela memória, certamente não vão faltar situações em que, pelas mais variadas razões ou circunstâncias, ficamos completamente embaraçados. Também não é preciso que sejam grandes gafes, não. Coisas bem triviais e corriqueiras conseguem nos deixar desconcertados, sem jeito. E nessas horas, não há como disfarçar porque algumas partes do corpo acabam nos denunciando. Aquele vermelhão que sobe no rosto junto com uma quentura dos diabos, esse é o maior delator de que estamos vivendo a chamada “saia justa”. Mas não é só. As mãos. Essas crescem como se fossem duas daquelas pás de tirar pizza do forno. E não há onde colocá-las. Deixamos de ser formados por cabeça, tronco e membros para virarmos mãos, cabeça, tronco e o resto dos membros. Isso sem contar que, num piscar de olhos, a humanidade inteira, passada, presente e futura parece surgir bem à nossa frente. Fica nos olhando fixamente, com aqueles olhos de raio X, enxergando através da nossa alma, contemplando o sangue dando marcha à ré dentro das veias.  E, para completar o quadro, o tempo simplesmente pára, os relógios empacam como mulas teimosas e o momento simplesmente se perpetua, se eterniza.   

Lembrar de todas as vezes em que vivi essa situação seria impossível. Mas, existem algumas que parece que se acomodam na memória e não há quem as tire de lá. Certa vez fui convocado a comparecer a uma dessas reuniões-almoço organizada por um grupo de presidentes de grandes empresas. Isso tudo era por conta da presença de um alto escalão do governo federal que iria fazer uma rápida apresentação sobre um tema de interesse das companhias. Embora eu não fosse presidente de nada, fui intimado a atender ao evento. Chegados os participantes, feitas as apresentações, o único destoante dentre os grandes nomes ali presentes era eu, o que já começou a desencadear o meu processo de constrangimento. O tal sujeito do alto escalão começou, então a sua apresentação e todos o seguiam com muito interesse. Ao menos era o que parecia. E tudo transcorria de forma tranqüila, a ponto de eu começar a me sentir com chances de escapar com vida e sem ferimentos graves. Em meio à apresentação serviram o almoço. Aquele trivialzinho mais que conhecido: saladinha de entrada e uma carne assada com arroz. Fui bem nas entradas. Embora esteja longe de ser um vegetariano, consegui com pouco esforço enfrentar os verdes da salada. Chegou, então, a vez da carne com arroz. E carne, por mais macia que seja, precisa ser cortada. Arroz em volta, lá fui eu enfrentar a tarefa de cortar a carne. E fui indo bem, pedacinhos pequenos, lentamente, tudo muito bem comportado. Até que, em determinado momento, um vacilo, um movimento em falso, excesso de força na faca ou de imperícia nas mãos. E o garfo deslizou como um patinador pelo prato levando um pedaço de carne em grande estilos até a borda. E, de roldão, num verdadeiro atropelo, uma pequena nuvem de arroz que voou com a leveza de uma garça sobre os arredores do prato, meu colo e o chão. Afinal, a lei da gravidade é implacável. Todos continuaram a prestar atenção no alto escalão que falava sobre o tema que o havia levado até lá. Não sei se foram extremamente benevolentes comigo ou se preferiram me ignorar para não se comprometerem. E eu só lamentando que não caíssem um raio ao meu lado e abrisse uma cratera para que eu desaparecesse sem deixar vestígios.  

Embora sem a intensidade do tropeção que eu dei no tal almoço, estou para ver situação mais constrangedora que o momento do “parabéns a você” nas festinhas familiares de aniversário. É bem verdade que é um momento de extrema alegria, o aniversariante se transforma no foco de todas as atenções, mas, exatamente por isso, parece que os olhares de todos queimam a pele. A mim o efeito do “parabéns a você”, indefectivelmente acompanhado do “ pique-pique” e suas variações mais escrachadas é sempre uma bomba de embaraço. E isso vale mesmo que não seja eu o aniversariante. Na medida em que vai se aproximando o momento culminante eu já vou ficando sem saber onde colocar as mãos. Aliás, quase nunca, consegui cantar a quadrinha.  O que me consola é que, com algumas poucas exceções, a grande maioria fica exatamente assim. Ainda recentemente fui ao aniversário de um dos meus sobrinhos. Festinha tipicamente familiar, pai, mãe, tios, primos e amigos reunidos na garagem da casa, portão protegido por uma lona para evitar os olhares externos, muita cerveja, muito refrigerante e um churrasco dos mais honestos correndo solto.  A moçada, munida de instrumentos de percussão, lascava um samba sem compromisso, mas muito democrático: cada um tocando do jeito que dava, aquele corinho desafinado que é o que mais harmoniza um ambiente caloroso e amigo como esse. Até que chegou ele, o momento do “parabéns a você”. Sobre a mesa, o bolo com as velinhas indicando um número bem baixinho, de fazer inveja. De um lado, pai, mãe, o aniversariante e, à frente, em proporção flagrantemente desigual, desequilíbrio de forças inconcebível, o exército oponente, bando de sádicos se contorcendo de prazer diante da vítima indefesa. O aniversariante ali parado, mãos balançando completamente sem jeito, já vivia o seu constrangimento de terceiro grau desde que momento em que o ritual havia sido anunciado. Cantada a cantiga e seus complementos, o aniversariante se prepara para o ápice do embaraço que é o corte do bolo e a entrega do primeiro pedaço. Não há quem não saiba que o primeiro pedaço é uma deferência mais do que especial, uma honraria. E a quem entregar? Mãe?, Pai?, Namorada? É só um pedaço, o primeiro e único. Em condições normais já é uma decisão maldita. Imagine-se isso e mais todo o aperto do momento. Mas a massa insaciável não se deu por satisfeita e resolveu ir aos requintes. Exigiu, então, que o garotão dissesse algumas palavras. Ou seja: entregar o primeiro pedaço do bolo e ainda discursar. Aí a coisa quase desandou. Mas, o moço conduziu bem o aperreio. Depois de ganhar algum tempo pedindo um silêncio que, obviamente, não foi concedido, o menino ofereceu o pedaço de bolo, um só, aqueles a quem muito afetuosa e carinhosamente declarou dever tudo o que era. Só tropeçou um pouco no discurso: “Este pedaço de bolo (o que lhe valeu ser chamado de pão-duro por estar oferecendo um só pedaço a duas pessoas) eu entrego aqueles que são os responsáveis pelo meu existimento.” 

Meu caro sobrinho, eu até tentei conferir no “Aurélio” a respeito do “existimento”, mas o mestre ainda não consignou o verbete. Mas, não se aborreça, não. Tudo em nome do embaraço. E, de quebra, Guimarães Rosa cansou de inventar palavras em seus livros.

Publicado por: bellinilima | março 10, 2010

UM INSTANTE, MAESTRO!

A segunda-feira amanheceu como todas as outras. Começo de semana, aquela leseira própria de quem consumiu o final de semana correndo quase tanto quanto os cinco dias anteriores, mas ficou com a sensação de que descansou.  Um esforço adicional para deixar a cama, o ritual do banheiro, o preparo do café da manhã. E a primeira chamada do telefone. Telefone muito cedo ou muito tarde nunca é bom sinal. Não conheço caso de lotérica ligar cedo para um cliente avisando que o dito ganhou na loto ou na mega-sena. E a perspectiva não decepcionou. Era a valorosa assistente doméstica informando que não ia dar o ar da graça por conta de um mal estar. Noticia assim, dada de chofre, sem nenhum preparo, pode levar um sujeito ao nocaute. A primeira coisa que vem à lembrança é a historieta do sujeito que conta ao outro que o seu gato morreu. Leva uma bronca danada por não ter preparado o destinatário da noticia. “Não é assim que se faz. Você devia ter começado devagar. O seu gato subiu no telhado e coisa e tal”. Todo mundo conhece a história que termina com um “Fulano, tenho uma noticia. O seu pai subiu no telhado”.  Mas a valorosa assistente doméstica, mesmo correndo o risco de, ao menos por alguns instantes, perder um pouco da valorosidade, informou e pronto. Fato consumado, a moça não vem hoje.

 Isso pode parecer uma bobagem, coisa de gente mal acostumada. “Ah, de que você está reclamando, tem gente que dá um duro danado, pega três conduções e não tem auxiliar nenhuma.” Deixando de lado o discurso ideológico ou a necessidade de se manter ao lado do politicamente correto, vale registrar que o ato de reclamar é um direito assegurado até pela Constituição Federal. Pois se um sujeito, acusado de verdadeiras barbaridades contra o chamado erário, a burra dos dinheiros do povo, é preso, levado a um compartimento isolado dos outros, cela individual, banheiro, cama, mesa, ar condicionado e, ainda assim, reclamada que está sendo praticamente torturado, porque não se pode reclamar contra a indesejável enfermidade daquela que se responsabiliza pela rotina da casa? Com a devida licença, senhores rebeldes, reformadores do mundo, deixem rezingar a vontade. E tudo está contido em uma só palavrinha simples, mas de conteúdo profundo: rotina. Por mais que se reclame dela, a rotina é fundamental na vida de todos nós. Imagine-se se, dia a dia, tudo fossem surpresas, novidades. Episódios eletrizantes? Não deve haver sistema circulatório que conseguisse dividir o sangue por todas as partes do corpo vivendo nesse grau de adrenalina. A velha e boa rotina é que mantém o equilíbrio, permite que se separe o tempo para cada uma das atividades e tarefas do dia a dia.  Pois a assistente doméstica é uma das principais agentes dessa mansidão do cotidiano. Quem não conta com ela tem uma determinada rotina. Quem dispõe dessa dádiva, tem outra. Quando ela não comparece, também a rotina dá baixa no dia.  Em seu lugar, a confusão, a barafunda.  

E agora? Bem, agora, passado o aturdimento e o resmungo, reações naturais e apropriadas para o momento, alguém assume a batuta. Afinal, imagine-se uma orquestra pronta para iniciar a função. Público esperando, palco devidamente preparado, instrumentos afinados, partituras graciosamente dispostas à frente dos músicos que só aguardam o levantar da batuta do maestro para atacar. E o maestro manda dizer que não vem, ficou doente. E agora? Bem, agora só há duas hipóteses: ou se adia a função e agüenta as conseqüências de um público enfurecido ou alguém assume a batuta. Como já se consagrou a idéia de que o espetáculo tem que prosseguir, foi isso que aconteceu logo cedo. Alguém assumiu o comando, contou o tempo, levantou os braços e pronto. Lá começaram os primeiros acordes. A sinfonia lá se foi adiante. Primeiro movimento, segundo movimento e a partitura sendo executada fielmente, sem improvisações, perda de dinâmica, trechos passados em branco. A harmonia habitual foi se desenvolvendo sem alterações ou qualquer prejuízo por conta da falta do titular da batuta.  O público recebeu seu recital sem qualquer reparo ou deficiência, exatamente como esperava.  

Ao final do espetáculo, o mínimo que se poderia fazer é aplaudir. E aplaudir de pé. No dia seguinte, tudo começa de novo, só que com a expectativa de que seja sob a regência habitual da responsável pela batuta. O importante, no entanto, é que a peteca não cai de jeito algum. Elas simplesmente não costumam deixar que caia. E isso, certamente acontece diariamente em milhares de cenários. O episódio em questão, no entanto, eu testemunhei já que estava na platéia como todos os dias. Por isso, posso contar com conhecimento de causa. Ah, e, por acaso, era o Dia Internacional da Mulher. Ou, pelo menos, um deles.

Publicado por: bellinilima | fevereiro 26, 2010

CADERNOS DE ARQUEOLOGIA

Velhos amigos quando se sentam em volta de uma mesa, pode-se estar certo de uma coisa: ao menos um pouco do fundo do rio vai vir para a superfície. A questão é saber qual parte vai subir, o que é que vem.  Papo de velhos amigos tem um jeito de dragagem e aí não há como ser seletivo, por mais que os tais se esforcem e sejam discretos. Chega uma hora em que emergir os esqueletos se torna imperativo e ninguém resiste. E é até um pouco assustador se constatar do que já fomos capazes.  Dependendo do contexto, a criatura provavelmente vai preferir a tortura a confessar que foi o protagonista de determinadas palhaçadas ou o autor de alguns desvios de caráter que, facilmente, asseguram passagem direta ao inferno. A menos que a regra admita que o tempo vá desbotando as cores das esquisitices. Mas, quando se trata de uma reunião de velhos amigos em volta de uma mesa, tudo fica um pouco parecido com o carnaval: quanto pior, melhor. O que se quer é ser ridículo, grotesco, confessar o inconfessável. Plagiando o imortal Camões, cessa tudo que a antiga musa canta, que outro valor mais alto que se alevanta: a palhaçada.  Assim são os velhos amigos em volta de uma mesa.   

Enquanto dura o encontro, os velhos amigos são insuperáveis e, portanto, podem contar a vontade tudo o que faziam, as coisas que perseguiam, o que os emocionava ou fazia delirar. Mesmo que, em volta, estejam jovens, representantes de novas gerações que, muito provavelmente, não vão conseguir entender nem a metade. Se, por acaso, algum dos membros do reservado clube mencionar as “certinhas do Lalau”, é provável que só seja entendido pelos outros membros da pequena sociedade que, aí, começa a parecer secreta. Afinal, quem foram o Lalau e suas certinhas? Bem, é uma pena que o tempo tenha escondido um pouco o talvez maior cronista de costumes do século XX, o sempre saudoso Sergio Porto que assinava Estanislau Ponte Preta. E as suas certinhas, ah! As suas certinhas… Inveterado apreciador do chamado belo sexo ou sexo frágil, o grande Sergio criou uma coluna no jornal “A Última Hora”, no Rio de Janeiro, onde publicava fotos das principais vedetes do teatro rebolado. Sim, tudo, agora, se complicou um pouco mais. Vedetes? Teatro rebolado? Pois é, vedetes do teatro rebolado. Sou capaz de apostar seco que nunca houve, nem haverá uma casta de seres humanos do sexo feminino que tenha sido tão homenageada por adolescentes impetuosos como aquelas componentes das “certinhas do Lalau”. Cada maiô de fazer um frade entrar em delírio. Maiôs, sim, inteiros. Nada de biquíni. Pois é, isso é coisa de um grupo de velhos amigos sentados em volta de uma mesa.

Essa menção descarada às “certinhas” já jogou por terra qualquer tentativa um pouco mais cínica de iludir a respeito de quanto velhos são alguns velhos amigos. Ninguém fala delas impunemente ou ao menos sem confessar, ao menos implicitamente, que está se referindo à metade dos turbulentos anos sessenta. E, vistas pelas lentes de agora, as coisas que entusiasmavam a garotada daqueles tempos são no mínimo estranhas ou curiosas. A respeito do aparecimento, um pouco antes, da mini-saia e seus efeitos devastadores, nem é preciso comentar. Aquelas sainhas, hoje, são simplesmente caretas. Mais ou menos como a vasta cabeleira ostentada pelos Beatles, os cabeludos de Liverpool. Qualquer senhor um pouco mais conservador usa, agora, um cabelinho pouca coisa menos comprido que os dos quatros revolucionários ingleses.

Nesses encontros de velhos amigos é que se percebe como as manias eram esquisitas. E bem recentemente eu me encontrei com dois velhos amigos para um almoço de sexta-feira, aqueles em que, a exemplo das CPIs nesta terra descoberta por Cabral, se sabe como a conversa começa, mas é difícil de dizer como vai terminar.  E lá fomos nós de volta aos tempos de cursinho para ingresso na faculdade. Cada escola tinha seu próprio vestibular, o que deve soar muito estranho para a turma de hoje. Na nossa classe de cursinho, um prédio muito antigo situado em plena Rua São Bento, havia um pouco mais de gente que a sala poderia comportar. Ar condicionado ainda era tema de ficção científica. E a garotada ali, espremida assistindo às aulas de Português, Lógica e Psicologia, História e um idioma, fosse Francês, fosse Inglês. Diferentemente das escolas, a maioria estaduais, de onde vínhamos quase todos, aquele lugar era a congregação de gente de todos os pontos da cidade, costumes, linguagem e jeito diferentes do que se estava habituado. Os meninos, girando em torno dos 17 aos no máximo 20 anos, se defrontavam com as meninas da mesma faixa etária. Só que uma garota dessa idade é uma mulher e nós, um bando de basbaques boquiabertos diante daqueles monumentos. Aí é que entravam as mini-saias alucinantes. Mas havia uma delas que arrebatava a todos. O nome não tem importância. Era um portento, toda escultural, saia curta e justa (para aqueles padrões, naturalmente), um sonho proibido a menores de 18 anos. Nem é preciso dizer que essa deusa povoava o imaginário geral. Também não é preciso dizer que, apesar de passadas algumas décadas, ela foi um dos temas importantes da nossa sessão de velhos amigos. Olhar de longe era o nosso esporte favorito. Um de nós (e esse não fui eu, infelizmente) ainda tentou alguma ousadia, sem sucesso, é claro. Mas, afinal, o que era tão apelativo nesse monumento de lascívia? Bem, deixando de lado sua natural formosura, a nossa inocente cortesã ostentava um detalhe enlouquecedor. E, mesmo correndo o sério risco de ser objeto de sonora vaia, vou confessar: ela usava uma peruca. Pois é, uma peruca. Às vezes ia loura, às vezes morena, às vezes castanho claro. Não há como tentar explicar o efeito devastador daquele objeto de explosão sensual. Ela usava peruca e debaixo dela residiam todos os pecados, a materialização da luxuria, o erotismo em forma de pelos artificiais. Fazer o quê. Reunião de velhos amigos dá nisso, mesmo. Ah, aquelas perucas…

 

Publicado por: bellinilima | fevereiro 10, 2010

ONDE FOI QUE AZEDOU?

Em direito existem duas figuras muito polêmicas. Uma delas atende pelo nome de PRESCRIÇÃO e a outra pelo de USUCAPIÃO. A prescrição dos advogados e juizes nada tem a ver com a dos médicos. A deles é materializada naquele pedacinho de papel em que eles escrevem ou dizem que escrevem e depois a gente precisa voltar lá para saber o que está escrito. Também é conhecida por receita. A dos advogados e juizes, em palavras bem simples, é a perda do direito de reclamar algum direito porque passou o tempo que se considera suficiente para isso. Em palavras mais simples ainda, é o resultado da bobeada de alguém que, apesar de ter um direito qualquer, não se mexe para procurar o judiciário e reclamar. Passado um certo tempo, adeus viola.  Que me perdoem os coleguinhas pela simplicidade da explicação, mas, convenhamos, se deixar por conta de um deles, fica mais difícil de entender que a prescrição dos médicos. 

o usucapião, que muita gente costuma chamar de “uso campeão” é aquela história de alguém ficar com alguma coisa por muito tempo mesmo sem ser o dono e ninguém reclamar. Então, a criatura vai ficando com a coisa, trata dela como se fosse sua e ninguém reclama. Passa um tempo e o tal, também conhecido como possuidor, ganha o direito de virar dono de verdade. Acontece muito com terrenos, mas também pode acontecer com outras coisas. Assim, passado o tempo, que é estabelecido na lei, o tal possuidor se torna proprietário. Em se tratando de terreno ou casa ou qualquer imóvel, o distinto ou distinta vai até um cartório e, depois de cumpridas as chamadas formalidades legais, ganha uma escritura de propriedade. Melhora a sua condição, é claro, sobretudo em relação ao nome. Afinal, possuidor soa até um tanto indecente, coisa de tarado. Já proprietário é outro nível. Em alguns casos passa até a ser chamado de doutor.  

Apesar de serem coisas diferentes, as duas tem uma mesma origem ou um mesmo objetivo: encerrar um conflito, uma situação de instabilidade. É só pensar um pouquinho. Imagine que alguém tenha sido vítima de uma safadeza qualquer por parte de outro alguém. É claro que o autor da safadeza tem que ser punido e a vítima tem que ser indenizada. Mas, e se isso permanecer em aberto por duzentos anos? Já imaginou alguém receber uma ação judicial por conta de uma trampolinagem praticada por um tataravô, aquela figurinha de barbas a quem todo mundo reverencia na família? Chato, né. O ofendido que trate de se entender com o ofensor, mas lá atrás, no tempo deles, sem invadir o futuro dos outros.  E como fica a situação do bisavô que, um dia, chegou a algum lugar onde não havia ninguém, se instalou por ali com a bisavó, construíram a casinha, a roça e fizeram um monte de filhos que, por sua vez., fizeram a mesma coisa até chegar a tua vez de nascer? O bisavô não era o dono da terrinha, mas tratou dela como se fosse e nunca ninguém reclamou. Aí, quando chega a tua vez, aparece alguém e reclama?  Não funciona assim. E se o bisavô tiver sido só um pouco alerta, já terá ido ao cartório conseguir sua escritura e terá virado proprietário. Sorte sua, hein irmão? 

Onde está, afinal, a semelhança? Simples. Está no propósito de encerrar as instabilidades, os conflitos e restaurar a harmonia. Os conflitos podem até ter lá sua serventia para evitar que as pessoas se acomodem, mas é preciso ter um fim. Conflito que se alonga muito começa a deteriorar tudo à sua volta. Restaurar a harmonia é essencial, vital para que a sociedade não se mate. Apesar de poder não parecer, o homem não consegue sobreviver sem harmonia. Então, o direito estabelece um tempo para o ofendido reclamar contra o ofensor e depois, o assunto está encerrado. E também dá um prazo para que alguém diga que o tal posseiro não é dono. Depois disso, virou dono e ponto final.  Se não fosse assim, as discussões não terminariam nunca e ninguém nunca teria paz.  Bem, essa, ao menos é a intenção do direito. A falta de paz que existe hoje em dia já não é só culpa do direito. 

E essa falta de paz é um bicho teimoso, que insiste em se enfiar entre as pessoas com uma falta de cerimônia incrível. Quer coisa pior, mais sem sentido, sem pé nem cabeça, que altercação entre casais? Ou entre irmãos? Ou entre amigos? Com exceção de situações que puxem mais para a relação entre Caim e Abel, que aí tudo fica muito mais complicado, no mais das vezes as pessoas se altercam por nada ou quase nada.  Isso quando sabem por que altercaram. E, então, se estabelece o conflito, a cara feia, a mais fingida das indiferenças. Esbarram-se fazendo de conta que não se conhecem. E, depois de um tempinho, nem lembram mais porque estão com aquelas caras.  Enquanto isso, enquanto ficam interpretando seus papeis de turrões, lá fora está passando uma coisa chamada vida que não dá a menor importância para nada disso. Passa e vai embora. Quem não estiver por perto que se lamente depois. É o que vai restar. Igual ao que resta quando passa o tempo que a lei fornece para se resolver as pendências.

 Convenhamos, será que não anda faltando um pouco de prescrição e de usucapião nesse dia a dia de todo mundo?

Publicado por: bellinilima | janeiro 17, 2010

OS AUTO-VOTOS

Todo fim de ano a história se repete. Todo mundo desejando votos e mais votos de paz, felicidades, saúde, sucesso, prosperidade aos parentes, amigos, colegas de trabalho, entregador de pizza, porteiro do prédio e por aí afora. Tudo isso para os outros, sempre para os outros. Ora, mas o Natal é a festa da celebração do amor, seja ele o amor filial, fraternal, entre amigos, o amor pela humanidade. E amor pela humanidade contém uma alta dose de solidariedade. E a solidariedade é altruísta. Logo, o que há de espantoso em se desejar tudo isso ao outros? Bem, na verdade, rigorosamente nada de espantoso. E qualquer reparo a isso pode ser traduzido por elevado índice de rabugice, ranhetice, ranzinzice. Apesar disso, no entanto, a coisa se tornou repetitiva. E, sob um certo aspecto, parece que tem sido meio ineficiente já que todo ano é necessário repetir os mesmos votos. Ora, se tivesse funcionado no ano anterior, não seria o caso de se desejar alguma outra coisa? Ou mudar os desejos ou não desejar nada pelo simples fato de que já se tinha desejado tudo no ano anterior?  

Pois exatamente por conta dessa esquisitice de pensamento, eu resolvi que, neste final de ano, só iria desejar coisas para mim mesmo. Exatamente isso: desejar coisas a mim mesmo. Se isso é o oposto do altruísmo, uma espécie de anti-Natal, paciência. Resolvi experimentar assim mesmo. E olhe que eu adoro Natal, fim de ano, aquele clima amistoso que parece contagiar boa parte das pessoas. E mais as luzes fascinantes, a agitação quase entorpecente, o ânimo e a energia que cobre as cidades. Mas, apesar disso tudo, resolvi que neste ano vou, predominantemente, desejar coisas a mim mesmo. Para começar, desejo, então, a mim mesmo, votos de muito sucesso na obtenção de uma carga adicional de tolerância. Tolerância comigo mesmo. É que toda vez que eu me deparo com as minhas próprias incapacidades, fraquezas, a minha pequenez, vou ficando azedo, amargo, dominado por uma espécie de necessidade de me vingar, de compensar aquelas vilezas todas. E, então, acabo disparando um tremendo azedume contra mim mesmo que, na maioria das vezes, termina por respingar nos outros. Em outras palavras, acabo descontando nos outros as minhas contas penduradas e não pagas. Isso lá é justo? Claro que não. Seria preciso, então, encontrar uma fórmula de me convencer de que isso que eu sou é exatamente isso que eu sou. E talvez até nem seja tão ruim quanto parece. Quem sabe até seja exatamente igual ao que todo mundo é ou, pelo menos, ao que todo mundo é de verdade, por dentro, e não a versão externa para ser exibida nas novelas. Fiquei pesando, então, que se eu obtiver muito sucesso em conseguir elevar minha dose de tolerância para comigo mesmo, pode ser que eu me ajeite com o que sou e consigo ser e pare de uma vez por todas com essa produção e transferência de dejetos emocionais. Já seria alguma coisa.  

Mas, não é só. Como qualquer um, além daquele depósito de quinquilharias e bugigangas que vivo tentando combater, também tenho lá um ou outro comodozinho mais apresentável, limpinho, pintadinho. Poucos, mas estão por aqui comigo. Os mais generosos chamam de talentos. Não chega a tanto, é claro, mas tem alguma serventia. Pois é com relação a eles, embora parcos e econômicos, que reservei uns outros votos. Desejo a mim mesmo muito êxito na difícil tarefa de aprender a lidar com isso de maneira mais magnânima e natural. Sem apimentar com veemência ou cair na cilada de um patético exibicionismo, o que, além de carecer de sustança, acaba sempre soando de maneira agressiva. É aquela bobagem de tentar se exibir quando o assunto em pauta é daqueles que se conhece um bocadinho, ainda que não muito mais que a superfície. Como quase tudo na vida, quem tem um grande estoque de capacidades e competências lida com elas de forma natural, está acostumado com elas. Pior são os que têm pouco ou quase nada. É feito rico antigo e rico novo. O antigo, já acostumado de longa data com a riqueza, quase sempre nem se lembra do que tem. O novo rico vive exibindo, malabarizando suas posses que é para poder mostrar a si mesmo mais do que aos outros. E se lambuza. Aprender a conviver com riqueza pouca é um dom e tanto. Quando consegue, aí sim o vivente deixa de ser um entojado grudento, desses que ninguém suporta. Aprender a conviver com talento pouco é a mesma coisa. Como eu me enquadro perfeitamente nessa pouquidão de talentos, esse, então, é meu segundo desejo, meus votos a mim mesmo para o ano novo: coibir o pavoneamento, também conhecido mais vulgarmente como “deixar de ser besta”. Se conseguir, vai ser tudo muito mais descontraído, mais relaxado e pode ser até que os meus modestos e escassos dotes sirvam para alguma coisa mais útil que alimentar um ego desmilinguido.  

Tenho pensado que se for atendido nesses dois votos já será um grande passo para dar alguma contribuição a que, ao menos aqueles que o destino colocou à minha volta e que, por alguma razão, tem sido generosos e condescendentes a ponto de ainda não pensaram em se livrar, possam ter um ano novo um pouco menos incomodado. Tudo dentro daquele velho principio ou ditado popular do “muito faz quem não atrapalha”.  Já é alguma coisa e, o que é mais importante, isso pode estar ao meu alcance. Os outros votos, aqueles mais grandiosos, mais aparatosos, esses hão de ficar a cargo de quem pode.

 

Publicado por: bellinilima | dezembro 29, 2009

MAS, E O ÚLTIMO?

“O maior espetáculo aos olhos do homem, ainda é o próprio homem”. Essa frase eu ouvi muita vezes, repetida por um tio, desses muito especiais que algumas pessoas tem a felicidade de ter na vida. Eu fui uma delas. Nunca consegui saber se ele foi o autor da frase ou ouviu de alguém. Ainda recentemente tentei pesquisar a origem da frase, mas não consegui encontrar nenhuma referência a ela. Se a autoria não pertencer ao tio que já não se encontra por aqui, fica registrado o meu respeito pelo criador e a devida vênia por reproduzi-la. Se, no entanto, o autor da frase tiver sido meu tio querido, tudo fica ainda mais sintomático e ilustrativo. E isso porque se houve neste planeta alguém mais desprendido que ele, ainda não tive a sorte de encontrar.  Aquele foi a materialização de uma antiga expressão popular que diz que o que faz a mão direita, a esquerda não precisa saber.  Dificilmente alguém já tenha levado tão a sério a honrosa tarefa de desempenhar o papel de ser humano. E, talvez por que tenha sido esse tipo de gente, também tenha tido a sensibilidade para criar ou tão bem propagar uma verdade como essa: “o maior espetáculo aos olhos do homem ainda é o próprio homem”.  

Embora a natureza seja exuberante e exerça um fascínio indiscutível, o ser humano se sente arrebatado mesmo quando se depara com a obra do próprio ser humano.  Por menos sensível que possa ter se tornado, o homem ainda se enternece com a música, ainda se emociona com a representação dramática, se extasia com as artes plásticas, se desprende do próprio corpo com a magia da poesia e da prosa.  O homem se encanta com as obras da ciência, da tecnologia, com os impressionantes avanços de tudo isso e se enche de orgulho. É como se estivesse diante de uma enorme população de extra-terrestres, gente de todos os planetas, de todas as galáxias, de todos os universos, dizendo: “estão vendo o que a gente faz por aqui?” E nesse “a gente” estamos todos, como se tivéssemos composto cada nota da sinfonia, tocado cada instrumento, como se ainda estivéssemos com as mãos sujas das tintas utilizadas no quadro. Como se as luzes dos refletores do grande teatro ainda estivessem acessas e ainda se ouvisse os aplausos de um público entusiasmado. Como se estivéssemos chegando da noite de autógrafos do livro de poesias ou do romance fadado a se tornar eterno. A vitória de cada um é a vitória de todos, de toda a espécie.   

Mas, não são somente as obras grandiosas do homem que formam o grande espetáculo aos olhos do próprio homem.  Afinal, o cotidiano, esse saltimbanco que vai puxando a grande fila em que todos nós estamos, não anda em trajes de gala. Sua roupa é simples, “roupa de briga”, como se dizia antigamente, coisa própria para o dia nosso de cada dia. Dessas pérolas do dia a dia é que se compõe a maior parte da vida e, ainda, assim, o homem consegue fascinar o homem. E exercitar uma das maiores virtudes de que a natureza dotou os seres em geral, humanos ou não: a solidariedade. Esse é um dos espetáculos do homem que mais cativa o próprio homem. Sobretudo quando ela, a solidariedade, se mostra em sua versão mais pura e original: na forma descontraída, espontânea de se expressar. Aí, o homem é grandioso como a mais grandiosa de suas obras. 

Estamos, um grupo de pessoas, na ante-sala da Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de São Paulo. No cômodo posterior, a sala propriamente dita, travam-se renhidas batalhas entre a vida e o mistério do depois da vida. As pessoas, visitantes de seus parentes, os protagonistas daqueles combates, se respeitam entre si, cada uma entendendo o drama alheio, uma cumplicidade tácita. Na parede, uma pia pequena para que se lave as mãos. A torneira é daquelas que precisa de uma pequena pressão na parte superior para que a água seja liberada. E o jorro dura um pequeno espaço de tempo. Quando as duas mãos estão sob a água, a torneira se fecha, dificultando a conclusão do processo. E o que, automática e espontaneamente, fazem as pessoas ali?. Enquanto um esfrega as mãos, um outro mantém a torneira pressionada e a água jorrando. Ninguém pediu ou ensaiou. Tudo de improviso. O resultado é que todos conseguem lavar as mãos tanto no começo quanto no fim da visita. E enquanto estamos ali, silenciosos naquele ato comunitário, alguém, no meio do processo, faz um comentário despretensioso, mas que parece bem oportuno: “mas, como é que vai ser para o último a lavar as mãos? Eu já ia acrescentar que, naquele caso, não ia valer o principio bíblico de que “os últimos serão os primeiros”. Mas, antes de mim, uma mulher simples que ali estava disse apenas: “ora, basta que o penúltimo espere pelo último”. E eu me calei, olhando aquela mulher simples e lembrando do meu tio: “o maior espetáculo aos olhos do homem ainda é o próprio homem”.

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